Philomena, ou o ator como autor

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Novo filme de Stephen Frears desnuda opressão católica e conservadorismo. Mas destaca-se também por interpretação desconcertante de Judi Dench, atriz principal

Por José Geraldo Couto

Philomena, diga-se logo, é um filme extremamente interessante e agradável como costumam ser os trabalhos de Stephen Frears. Um tanto impessoal, também, uma vez que Frears parece ser daqueles diretores empenhados menos em exibir um estilo próprio do que em “contar uma boa história” ou “abordar um assunto relevante” de modo claro e incisivo.

Se seus filmes raramente apresentam grandes voos criativos e ousadias de linguagem, por outro lado quase sempre atestam um artesanato seguro, uma clareza narrativa a toda prova, um controle absoluto do tom e um cuidado especial com a direção de atores.

Com Philomena não é diferente. A “boa história” aqui é o drama de uma senhora irlandesa septuagenária (Judi Dench, a Philomena do título) em busca do filho que lhe foi tirado quando tinha dois ou três anos de idade. E o “assunto relevante” é a opressão e exploração de mães solteiras adolescentes pela Igreja Católica na Irlanda do Norte. Quer dizer, esse é o assunto principal, mas há outros, como o jornalismo, o conservadorismo da era Reagan, a Aids etc.

Mas o que interessa a Frears, antes de tudo, são os personagens, suas nuances e transformações ao longo da narrativa. Se a Philomena criada por Judi Bench domina tudo com seu carisma e sua humanidade transbordante, a figura que conduz a trama – e com quem o público tende a se identificar – é a do jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan, também corroteirista e coprodutor do filme), demitido de um cargo no governo Blair e desiludido da profissão, que aceita meio a contragosto fazer uma grande matéria “de interesse humano” sobre o drama de Philomena.

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Relação filial

É do contraponto entre a calorosa e crédula Philomena e o cético e reservado Sixmith que o filme extrai seu encanto e seu humor. Juntos, os dois cruzam o oceano, vasculham o passado e, claro, descobrem um ao outro e a si mesmos. A evidente relação filial que se estabelece entre eles é explicitada num momento cômico do filme, em que o jornalista, para entrar no quarto de Philomena, diz ao camareiro do hotel que ela é sua mãe. Há uma ameaça de tragédia no ar, neutralizada pelo humor – como costuma acontecer com Frears, um realizador muito britânico nesse aspecto.

Pouco importa, no final das contas, que se trate de uma “história real” e que fiquemos conhecendo o destino posterior dos personagens naqueles indefectíveis letreiros finais. Uma das sagacidades dePhilomena, aliás, é o embaralhamento de registros na constituição dos flashbacks em super-8 ou em vídeo: algumas imagens são encenadas, outras são de home movies verdadeiros dos personagens.

Além da engrenagem

Mas nunca é demais lembrar que os fatos foram filtrados primeiro pelo próprio Sixsmith, no livro que escreveu a respeito, The lost child of Philomena Lee, depois pelos roteiristas, pela encenação de Frears e pela montagem final. De tal maneira que, ao cabo de todo esse processo, tem-se uma espécie de drama exemplar, em que todas as arestas foram podadas e mesmo as surpresas e ambiguidades parecem estar sob controle.

Se há algo que escapa dessa engrenagem perfeitamente azeitada, é, paradoxalmente, a presença de Judi Dench. Sua atuação é tão matizada e imprevisível que transmite a cada plano, a cada olhar, a sensação de que todo ser humano é de uma riqueza inapreensível e inexplicável, “um estranho ímpar”, como diz o verso de Drummond. O “autor” de Philomena, se existe algum, não é Martin Sixsmith, nem Steve Coogan, nem Stephen Frears: é Judi Dench.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.
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