Para superar o capitalismo (II): a indústria da moda

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Cultura do descarte: vestuário tornou-se indústria que mais emprega e segunda mais poluidora. Para consumo frenético, trabalho ultra-precário. Como escapar do “fast fashion”?

Por Mauro Lopes, editor do blog Caminho para Casa

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Informado pela Teologia da Libertação e pensamento do papa Francisco, colunista escreve sobre grandes impasses contemporâneos. No primeiro texto, o papel dos bancos e da aristocracia financeira

Escrevo uma breve série de meditações sobre o capitalismo a partir do ensinamento da Igreja e do Papa Francisco, que no II Encontro dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), em julho de 2015, qualificou o sistema de “ditadura sutil”. Para o Papa, o capitalismo “é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…” Antes, em abril, um dos líderes da reforma da Igreja, o cardeal de Tegucigalpa, Óscar Andrés Rodriguez Maradiaga, ex-presidente da Cáritas mundial e coordenador do grupo encarregado da reforma da Cúria romana havia afirmado que o capitalismo é “um sistema econômico que mata”. Não são ensaios nem artigos, apenas breves meditações que buscam colocar-se a serviço da Igreja, que busca retomar o caminho original dos ensinamentos de Jesus.

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2. A indústria da moda

Tempos atrás, quando o dólar ainda estava ao preço “me engana que eu gosto” e a classe média se esbaldava na Flórida e pelo mundo afora, minha mulher e eu fomos a NY. Conhecemos algo novo. Roupa a preço de banana. Numa tal Forever 21 compramos um vestido a 7 dólares (algo como R$15 à época); numa outra H&M, preços inacreditáveis também. Numa japonesa, Uniqlo, igual. Ressoava em nossos ouvidos a cantilena da direita: é mais barato porque o mercado é imenso e porque eles não têm a quantidade de impostos daqui do Brasil! Mas eis que a Forever 21 abriu quase trinta lojas no Brasil e… praticam os mesmos preços!

Como assim? Mas não era mais barato “lá” e “aqui” é tudo mais caro? Pois é. Tudo bem que assim chamado “mercado consumidor” cresceu exponencialmente ao longo dos governos do PT e, afinal, a história de que o Brasil tem a maior carga tributária do mundo é para enganar os trouxas – segundo a Fundação Heritage, a conservadora e americana, sinônimo de “insuspeita” para a direita brasileira, nossa carga tributária é a 32ª do mundo, atrás de países como Alemanha, Hungria, Holanda e outros. Mas, de fato, mesmo assim, o mercado brasileiro ainda é bem menor que o americano e a carga tributária no país é mais alta que na sede do capitalismo.

Então, qual o segredo? Como estas redes vendem a preços tão baixos tanto nos EUA como no Brasil?

Aquilo que faz a festa dos consumidores está baseado na mais abjeta exploração do trabalho humano que um setor econômico produziu na história recente do capitalismo.

Para entender isso, é preciso contextualizar brevemente a indústria da moda. Ela sofreu uma transformação radical no século 21, atingindo valores e volumes sem precedentes. Nenhuma outra cadeia de produção é tão dependente de trabalho humano como ela: são centenas de milhões de trabalhadoras e trabalhadores, desde as plantações de algodão à rede de indústrias, confecções e comércio em todo o mundo. Seu faturamento alcança US$ 3 trilhões/ano! Comercializa-se 80 bilhões de peças de roupas por ano, 400% a mais que há 20 anos.

Esses números estrondosos são a expressão de uma revolução chamada “moda rápida” (fast fashion), a moda do século 21. Tudo o que conhecemos da moda do século 20 foi enterrado. As mais velhas, os mais velhos lembram-se que existiu um tempo de duas estações da moda: a primavera/verão e outono/inverno. Dois momentos de lançamentos no ano. Isso acabou. Hoje há 52 estações por ano, uma a cada semana. Lançam-se modelos, estilos, novidades a cada semana. Mesmo as empresas da “alta moda”, como a Prada e a Louis Vuitton, agora produzem de quatro a seis coleções por ano, e não apenas duas.

No passado, comprava-se um casaco para durar 15, 20, 25 anos – hoje troca-se de casaco a cada ano; os homens compravam 4 ou 5 camisas por ano – compram 10 vezes mais; para cada festa uma roupa diferente; vai sair com alguém interessante? – compre uma blusa, uma camiseta, um lenço, um sapato! Moda rápida. Em velocidade alucinante. Porque tem de tudo o tempo todo a preços cada vez mais baratos.

Grandes marcas garantem a oferta. Zara e H&M (esta ainda está ensaiando entrar no Brasil) disputam a liderança do mercado mundial da “moda rápida” – os grupos a que pertencem faturam ao redor de US$ 20 bilhões cada uma por ano. H&M tem mais de 3 mil lojas em 54 países; a Zara teve lucro superior a US$ 700 milhões apenas no primeiro trimestre de 2015 (nada menos que 28% superior a igual período de 2014). Mas há outras marcas, como a Forever 21, GAP, Uniqlo, Levi’s… Há cinco marcas brasileiras inseridas neste mercado: Riachuelo, Renner, Marisa, C&A e Hering.

Números fantásticos, aplaudidos pelos comentaristas econômicos das mídias tradicionais, que fazem a delícia dos amantes do capitalismo neoliberal.

Mas o que sustenta estes números, ou qual a resultante deles para o mundo?

A indústria da moda é a segunda maior poluidora do planeta hoje, atrás apenas da do petróleo.

A indústria da moda tornou-se a maior terceirizadora de “mão-de-obra” (de trabalho humano na verdade) do mundo. Para que se tenha uma ideia, apenas 3% das roupas compradas nos EUA são produzidas no país. O resto é feito nos países periféricos. Um pouco no Brasil. Mas o volume de produção está concentrado na Ásia, em condições inacreditáveis, que lembram as primeiras fábricas do capitalismo, numa relação pautada pela brutalidade e exploração. As pessoas não são contratadas pelas grandes marcas; há uma rede quase infinita de fábricas e confecções, elas sim contratadas, com base em apenas um princípio, que fez e faz a delícia dos capitalistas, mesmo os “moderninhos” que se dizem preocupados com o meio ambiente: “mais por menos”. O único item do contrato: fazer mais, cada vez mais, por menos, cada vez menos.

Assim é na China, maior produtor de roupas do mundo, seguido por Bangladesh e Camboja. Assim, como é público, acontece no Brasil. Trabalhadores e trabalhadores recebem entre US$ 2 e US$ 3 por dia; não têm registro nem qualquer benefício, não estão integrados a sistemas públicos de saúde ou aposentadoria, são proibidos de reivindicar ou se organizar.

Um dos símbolos da exploração é o que ficou conhecido como a tragédia do Rana Plaza, acontecida em abril de 2013, em Dhaka, capital de Bangladesh –no desabamento do edifício, onde trabalhavam mais de 5 mil pessoas, 1124 morreram. O desabamento revelou pela enésima vez as condições de trabalho de mulheres e homens nas confecções –se quiser, leia aqui uma reportagem feita à época pela BBC.

No Camboja, a repressão às manifestações de trabalhadores e trabalhadoras da indústria da moda tem sido cruel. No massacre de Phnom Penh, capital do país, em janeiro de 2014, cinco jovens foram assassinados pelas forças de segurança. O que eles pediam? Pode parecer absurdo, mas nada mais que um salário mínimo de US$ 160 (algo entre R$ 400 ao câmbio da época e R$ 650 a preços de hoje). Veja aqui um relato da situação no país pela Anistia Internacional.

Se você quiser ter uma visão global sobre a indústria da moda, não pode deixar de assistir o documentário The True Cost, um relato agudo e jornalístico sobre o que acontece no mundo hoje. O documentário está disponível no Netflix com legendas em português, e você pode ter acesso a ele, ao trailer e a outras reportagens clicando no site http://truecostmovie.com/.

E no Brasil?

O Ministério do Trabalho realiza fiscalização específica sobre o trabalho em condições análogas à escravidão desde 1995. Mas apenas no governo Lula elas passaram a ser significativas. Em 2003, primeiro ano do governo do PT, o número de fiscalizações mais do que dobrou, em relação ao governo FHC, de 30 ou ainda menos para 67. Em 2006, a quantidade de operações realizadas anualmente ultrapassou a casa da centena.

O que é trabalho nestas condições? A definição do Ministério ilumina o assunto e, ao mesmo tempo, por si só é capaz de causar consternação e indignação: “Considera-se trabalho realizado em condição análoga à de escravo a que resulte das seguintes situações, quer em conjunto, quer isoladamente: a submissão de trabalhador a trabalhos forçados; a submissão de trabalhador a jornada exaustiva; a sujeição de trabalhador a condições degradantes de trabalho; a restrição da locomoção do trabalhador, seja em razão de dívida contraída, seja por meio do cerceamento do uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, ou por qualquer outro meio com o fim de retê-lo no local de trabalho; a vigilância ostensiva no local de trabalho por parte do empregador ou seu preposto, com o fim de retê-lo no local de trabalho; a posse de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, por parte do empregador ou seu preposto, com o fim de retê-lo no local de trabalho”. Veja aqui esta definição e saiba o que faz o Ministério do Trabalho na busca da erradicação do trabalho em condições similares à escravidão.

O ano em que houve mais trabalhadores resgatados foi 2007; nada menos que 5.999. Há uma concentração grande de casos no campo. Mas, mesmo depois de anos de repressão e campanhas, os números ainda são impressionantes. Em 2015, quase mil pessoas foram resgatadas (936, exatamente). Veja aqui a nota do Ministério sobre o assunto.

A indústria da moda entrou em evidência em 2012, quando a ONG Repórter Brasil, fundada em 2001 com missão de denunciar o trabalho escravo, passou a dedicar atenção a ela. Veja o site da ONG aqui.

A partir de 2009 a ONG começou a publicar as primeiras reportagens em seu site revelando as condições de trabalho patrocinadas por grandes marcas, mas o assunto ganhou grande repercussão em 2012: veja aqui. Uma série de fiscalizações flagrou os trabalhadores, em especial bolivianos e peruanos, submetidos a condições análogas à escravidão em pleno centro da maior metrópole do país, São Paulo. As marcas denunciadas: Zara, Renner, Marisa, Pernambucanas, M.Officer, Colloins, Le Lis Blanc, Bobbô, Hyppychic, Gregory, Cori, Emme, Luigi Bertolli, Unique Chic, 775, Talita Kume, As Marias, Seiki, Atmosfera, Fenomenal, Gangster.

Desde então, uma série de ações e pactos foram firmados com as próprias marcas para coibir o trabalho escravo. No entanto, segundo líderes da Pastoral do Migrante de São Paulo, com quem conversei no início de 2015, há centenas de confecções que continuam produzindo nas mesmas condições, em especial na região central de São Paulo e zona norte da cidade.

Com as ações fiscalizatórias e as denúncias mais frequentes, grandes marcas brasileiras começaram a deslocar parte de sua produção para o Nordeste e lançam mão, cada vez mais, do modelo de “terceirização”. É o caso da Riachuelo, Hering, C&A e Renner. Reportagem de dezembro de 2015 no site da Repórter Brasil denunciou as práticas da indústria na região, leia aqui.

É revelador examinar o discurso dos promotores das condições degradantes de trabalho e ver como ele é sempre o mesmo, no Brasil ou no exterior. A visão é sempre a mesma, a velha visão do colonizador que “faz o favor” de colonizar – a mesma conversa desde o século 15.

Segundo Flávio Rocha, CEO da Riachuelo com carreira política vinculada à direita no país e hoje uma espécie de “estrela” da mídia econômica conservadora, o Estado atrapalha tudo. Ele declarou à Repórter Brasil que “o céu era o limite”, mas que as fiscalizações “intimidatórias” do Ministério do Trabalho têm prejudicado os negócios. “Para Rocha, a melhora das condições de vida dos trabalhadores não é alcançada através da criação de normas trabalhistas, e sim pela demanda e competição por mão de obra.” Ou seja, como as pessoas não tinham emprego, não tinham nada, deveriam ser gratas às empresas por condições de trabalho degradantes.

Em The True Cost, uma entrevista com Benjamin Powell, diretor do Instituto do Livre Mercado, as fábricas no Terceiro Mundo “são parte de um processo que eleva os padrões de vida e levarão a salários mais altos com o tempo”. Pois, afinal, ele proclamou ao repórter no documentário, “as alternativas existentes para esses trabalhadores são piores que as nossas”.

É a lógica do descarte. Ou, como tem afirmado o Papa Francisco, o tempo da cultura do descarte. Descartem-se as roupas porque elas são tão baratas que podemos adquirir outras. Descartem-se os trabalhadores e trabalhadoras porque eles são tão baratos que podemos adquirir outros. É a lógica da indústria.

O que significa atuar com outra lógica? Exigir dos governos ações fiscalizatórias; apoiar iniciativas de organização dos trabalhadores e trabalhadoras; acolher os imigrantes que são alvos preferenciais da escravização. Em nossa família decidimos também nunca mais comprar roupas muito baratas – o baixo preço das roupas é o aparente benefício que recebemos pelo suor, lágrimas e mesmo sangue dos que a fizeram.

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