Para escapar da vida sem brilho

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Cena do filme “ThuleTuvalu”

Mostra de cinema ambiental sugere novo motivo para defender Natureza: sua diversidade viabiliza múltiplos modos de viver; sem ela, estamos condenados à mesmice do capitalismo

Por Bela Feldman-Bianco


Programação completa:
4ª Mostra Ecofalante — São Paulo, 19 a 29/3/2015
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www.mostraecofalante.com

Vivemos hoje num mundo globalizado caracterizado por expulsões, brutalidade, precariedade e intensos deslocamentos sociais e ecológicos. Essas expulsões estão sendo impulsionadas tanto pelas crescentes desigualdades sociais quanto pela contínua destruição do meio ambiente[i]. Certamente desde o século XIX a progressiva penetração do capitalismo industrial em áreas distantes tem gerado mudanças ambientais e de modos de vida. Mas, desde as últimas décadas do século XX, as nossas existências e os lugares nos quais vivemos estão se tornando cada vez mais vulneráveis e precários devido à emergência de um capitalismo corporativo altamente predatório que une as diversas regiões do planeta – não somente por meio dos movimentos de pessoas, símbolos, informações, mercadorias e capitais, mas também através do aquecimento global.

Vários dos documentários sobre povos e lugares, que fazem parte desta mostra, expõem dramaticamente como gente de diferentes rincões do mundo tem convivido com essas contínuas transformações, seja pela chegada da “modernidade” nos lugares onde vivem – como, por exemplo, o curta A Lamparina de Óleo de Iaque / The Butter Lamp (França / China, 2013,16’) e os longas Felicidade / Happiness (França / Finlândia, 2013, 80’) e Caminhando sob a Água / Walking Under Water (Polônia/ Alemanha / Reino Unido, 2014, 76’), seja pela voracidade de um capitalismo corporativo que devasta o meio ambiente através da construção de grandes projetos desenvolvimentistas, como é o caso de O Mar Perdido / The Lost Sea (Taiwan, 2013, 63’) e, especialmente, como mostra ThuleTuvalu (Suíça, 2014, 96’), devido ao aquecimento global.

TEXTO-MEIO

Esses documentários têm o grande mérito de nos apresentar às narrativas, práticas e cosmologias de povos tradicionais e nos sensibilizar face às suas preocupações, emoções e ações diante das mudanças globais que repercutem localmente e afetam a organização social de suas vidas, trabalho e tradições. Dentre esses, ThuleTuvalu e, de certa forma, também, O Mar Perdido sobressaem por captar, sob diferentes ângulos, as expulsões, precariedades, assim como os deslocamentos humanos e ecológicos da atualidade, através da vivência e experiências de seus protagonistas.

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Cena de “Inverno”

No caso de ThuleTuvalu, seu diretor, Matthias von Gunten, argutamente entrelaça Thule (uma comunidade inuit denominada Qaanaaq no norte da Groenlândia, que está entre as regiões menos habitadas do mundo) e Tuvalu (uma ilha-nação do Pacífico) como locações de seu filme, mostrando que, embora situadas em polos distantes, essas duas comunidades estão hoje intrinsecamente unidas através do aquecimento global. A partir desse cenário, empenha-se em testemunhar e refletir sobre “um processo histórico inédito de culturas que desaparecem porque as espécies humanas estão conscientemente transformando todo o planeta”. Na realização das filmagens em Thule, ancora-se em dois protagonistas centrais: os caçadores inuit Rasmut e Lars, que aprenderam com seus antepassados a conhecer e a dominar um ambiente extremamente difícil e isolado, e a caçar focas e outros animais junto com seus cães no gelo para garantir a sobrevivência e alimentação de suas famílias. Em Tuvalu, ele baseia-se em um personagem principal, Patrick, que já saiu para pescar mundo afora mas que retornou à ilha para casar e construir canoas, uma arte básica e necessária que é também transmitida de geração a geração nas ilhas do Pacífico.

Vale notar que a temática da adaptação humana a um meio ambiente difícil é também abordada por outros filmes desta mostra, como, por exemplo, o belíssimo curta Inverno /Winter (Rússia, 2013, 12’) que nos transmite, através de narrações e emoções de seus personagens, entremeadas por imagens paradisíacas, como é o cotidiano vivido por homens e animais nas fronteiras entre vida e morte, no inverno inóspito do norte da Rússia e Sibéria. Por outro lado, a devoção ao trabalho sob condições árduas é o foco do excelente Meu Nome É Sal / My Name Is Salt (Suíça / Índia, 2013, 92’), que acompanha o labor da família Sanabhai, uma dentre cerca de 40 mil famílias que anualmente saem de suas aldeias para viver e trabalhar por um período de oito meses no deserto de Gujarat (Índia) na extração do sal. Resultado do empenho da diretora Farida Pacha em entender “o que os compele a retornar para o deserto para trabalhar ano após ano, geração após geração, e que significado encontram em sua existência”[ii], esse filme observacional capta detalhadamente e com perfeição, através de imagens magistrais, as várias etapas do processo familiar da coleta do sal, com especial atenção aos ritmos de um intenso labor realizado com rigor, devoção. Ao mesmo tempo, através desse processo de trabalho e o uso do celular e outros objetos de consumo, percebemos o quanto estão inseridos no sistema capitalista contemporâneo e como são dependentes de um comprador para a sua produção do sal, com prazos de entrega e controle de qualidade.

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Cena de “Meu Nome é Sal”

Meu Nome é Sal deixa-nos entrever que a volta da família de Sanabhai à sua aldeia implica também no planejamento de seu retorno ao deserto ano após ano. Diferentemente, as dramáticas transformações climáticas de lugares com Thule e Tuvalu ameaçam a continuidade de seu cotidiano de vida e trabalho, geração após geração. Como as extraordinárias filmagens de caça revelam em detalhe, Rasmut e Lars, entre outros caçadores inuit de Thule, estão atualmente se confrontando com o derretimento das geleiras em ritmo crescente. Essa liquefação, além de reduzir a área congelada, aumentar o isolamento e tornar quase impossível a travessia dos trenós de cães pelas águas, contribui para o alagamento da nação Tuvalu. Um personagem do filme, que é pai de 21 filhos, relembra que no passado havia comida em abundância e que se podia viver em Tuvalu numa economia de subsistência. Mas hoje, como Patrick nos ensina, devido ao aquecimento global, o aumento do nível do mar vem corroendo as árvores e contaminando a água potável, que agora vem de fora. Nessas circunstâncias, embora Patrick esteja construindo uma canoa para o seu filho, as chances dele seguir essa tradição são praticamente nulas.

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Cena de “O Mar Perdido”

Em Thule, os caçadores inuit precisam das geleiras para sobreviver. A devastação do seu meio ambiente afeta não somente suas caçadas, mas também seu modos de vida e até suas identidades. Para os que, como Rasmut, abraçaram o estilo de vida tradicional e estão tendo que lidar com essas mudanças climáticas, as opções (insatisfatórias) que pragmaticamente vislumbram para o futuro são a pesca e o turismo. Situação similar é retratada em O Mar Perdido. Seu cenário é uma das ilhas de Kinmen, um tradicional arquipélago de pescadores cujo ecossistema, assim como uma espécie atávica de caranguejos, que é parte intrínseca da mitologia chinesa e da própria história local, está sendo destruída por projetos desenvolvimentistas que envolvem as relações entre China e Taiwan.

Com base em um filme feito a seu pedido por um ecólogo local sobre essa antiga espécie marítima e os testemunhos de velhos pescadores locais, o diretor Hung Chun-hsiu deliberadamente os justapõe às transformações dramáticas dessas ilhas, administradas por Taiwan mas reivindicadas pela China. As imagens nos fazem saber que, durante o período da guerra entre esses dois países, o arquipélago foi isolado, os caranguejos proliferaram e a pesca era abundante. Em 1996, já no período de paz, o governo local iniciou a construção de um porto comercial em uma das ilhas para atrair dólares e o turismo chinês. Essa construção ainda se encontra inacabada, mas, por causa dela, o mar secou, a pesca acabou, os caranguejos desapareceram, assim como os modos de vida pesqueira. Mesmo diante desse quadro de deslocamentos e expulsões, entrevistas filmadas com burocratas locais sobre o futuro do arquipélago revelam grandes planos irrealistas e uma inabilidade sistemática em levar em consideração o conhecimento tradicional. Por ora, restam as memórias dos velhos pescadores sobre a pesca, os métodos que usavam e suas estórias sobre como o caranguejo milenar fazia parte de sua vida cotidiana, não só como fonte de alimentação, mas também como amuletos que afastavam os maus espíritos. Há alguns que ainda esperam pelo turismo. Outros se voltaram para novos trabalhos, como a construção civil.

O Mar Perdido nos faz lembrar dos megaprojetos em construção no Brasil, entre os quais a emblemática hidrelétrica de Belo Monte. Serve portanto, como um alerta sobre o desenvolvimentismo depredatório em curso também no nosso país. Por outro lado, a trágica situação dos habitantes de Tuvalu, que estão perdendo a sua ilha para o mar, sinaliza a ameaça representada pelo agronegócio, desmatamento da Amazônia e expulsão de nossas populações tradicionais de seu habitat. Mas muitos habitantes de Tuvalu continuam a acreditar na promessa de Deus a Noé de não mais inundar a Terra. Muito embora Kiribati, a ilha homenageada por eles no Dia do Pacífico, já tenha sido tragada pelas águas e sua população realocada, continuam a esperar por um milagre e a seguir com os seus modos de vida e rituais, mesmo que a caça e a pesca estejam cada vez mais difíceis, como indicam as imagens das pescarias noturnas. Mas como Patrick nos deixa saber, aqueles que têm dinheiro podem migrar para a Nova Zelândia. Cenas de uma família que migrou de Tuvalu para Queensland (Nova Zelândia) retratam sua inserção no mundo do consumo, realizando suas refeições enquanto assistem à TV, muito distante da vida em comunidade que deixaram para trás. Será esse um sinal de um suposto “desaparecimento de culturas” a que se referia o diretor desse importante documentário?

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Cena de “Felicidade”

Assim como Matthias von Gunten em ThuleTuvalu, os realizadores de Felicidade e Caminhando sob a Água, aparentemente impelidos pelo iminente perigo dessas culturas tradicionais se esvaírem e em tentativas de salvaguardá-las, pelo menos imageticamente, se esmeram em registrar imagens paradisíacas que constituem verdadeiras odes à natureza e aos modos de vida das populações tradicionais. Tal qual ThuleTevalu, ambos os filmes abordam essa temática através das gerações. Felicidade retrata a chegada da TV e o iminente desaparecimento de um modo de vida numa aldeia nas montanhas do Himalaia através de um pequeno monge e sua família, trazendo também à baila questões referentes à emigração feminina para a cidade e, nesse contexto, o contraste entre a vida na aldeia antes da TV, a vida da aldeia com TV e a vida na cidade. Já Caminhando sob a Água, um documentário sobre os mitos e o mundo mágico dos nômades do mar da ilha Mabul, revela através de imagens inebriantes a iniciação de um menino pelo seu tio na pesca de compressão, uma arte que está se acabando devido ao turismo e à indústria pesqueira. O tio, o último dos nômades do mar, é criticado por sua mulher por não trazer pesca suficiente para a família. O sobrinho encontra-se numa encruzilhada, pois diante dele apresentam-se a opção de seguir a tradição, ir à escola ou arranjar um emprego no turismo local. O filme mostra que, apesar de ele estar interessado em aprender a arte da pesca sob as águas, ele também flerta com um emprego na indústria do turismo; mas a sua decisão permanece no ar. Poderíamos depreender, então, que dependeria dele a continuidade da cultura dos nômades do mar?

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Cena de “Caminhando sob a Água”

A questão da identidade cultural é mais complexa do que isso. Obviamente, algumas culturas se extinguem, outras não. A mudança de modos de vida não necessariamente resulta em “desaparecimentos” de culturas, pois as identidades são situacionais e tendem a ser reelaboradas e reconfiguradas. Basta lembrar o caso das várias populações indígenas do Brasil que até a década de 1970 tendiam a ser consideradas em processo de extinção e que, desde então, aumentaram seus números passando por progressivas reconfigurações culturais (inclusive biculturais) que fortalecem suas identidades. Para além de um suposto “desaparecimento de culturas”, as questões que esses filmes trazem à tona, a partir da vivência de seus protagonistas, são as crescentes expulsões que incluem avanços no aniquilamento de ecossistemas e, como corolário, a destruição de territórios (como Tuvalu) e de espécies milenares (como os caranguejos de Kinmen), o aumento dos deslocamentos de pessoas e do meio ambiente, e a precariedade da vida humana exacerbada pela ruptura dos modos de vida tradicionais. Para lidar com essas dramáticas mudanças, muitas dessas populações tendem a reelaborar práticas e representações e mitos desses modos de vida que deixaram para trás. Outras, não.


[i] Conforme Saskia Sassen em Expulsions: Brutality and Complexity in the Global Economy. Londres e Cambridge: Harvard University Press, 2014.

[ii] Ver http://mynameissalt.com/notes/

TEXTO-FIM
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Bela Feldman-Bianco

PhD em Antropologia pela Columbia University, com pós -doutorado em História pela Yale, é professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Unicamp.

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