Ode à Hinutilidade e aos prazeres hereges da vida

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“Faço saber senecamente, a quem interessar moça, que sempre pautamos nossa conduta pela vida reta. Isso não quer dizer que não sofremos tentação. Quem não sabe, pela flor de Afrodite! que tem dona que bota a gente pra rebolar?!”

Por Airton Paschoa | Ilustração: Pieter Bruegel, Land of Cockaigne (1567)


Citações é o título do próximo livro de Aírton Paschoa, a ser lançado ainda em 2016. O autor, que já publicou Contos Tortos, Dárlin, Ver Navios, Banho-Maria e Poemitos oferece antecipadamente, em Outras Palavras, trechos da obra. Citações virão em quatro remessas. Leia também a primeira, a terceira e a quarta partes. Esta é a segunda.

Hinutilidade (ou hino à Inutilidade com “h” maiúsculo e redondilhas nem tanto)

coçá-lo só quando

num ‘tivé coçando

Faço saber — mostrando o pau, quão virtuoso já fomos na arte do verso.

* * *

TEXTO-MEIO

Faço saber, a quantos interessar possa, que não existe nada mais árduo no mundo do que não fazer nada. Que o maldigam os poetas, as putas, os porteiros! Todo mundo reclama sem parar da falta de tempo, que se tivesse, que fazia isso, que fazia aquilo, que tecia e acontecia, basta. Dê-se tempo a todo mundo e não dará outra, pululará um formigueiro aterrador, bilhões de baratas tontas, de atarantados, de tarados aturdidos com todo o tempo do mundo.

Já viram colônia de férias? É um tal de correr pra praia, correr da praia, correr pro campo, correr do campo, correr pra quadra, correr da quadra, correr pra piscina, correr da piscina, da sinuca, do totó, do tênis de mesa, da mesa, do tênis, descalços, pelados, pulando, de tal modo que num dia, arre! já fizeram tudo quanto se podia fazer num mês, e lá estão todos depois da janta largados no monumental sofá, moribundinhos e moribundões, sonhando com a hora de voltar ao batente. Baralho, dominó, dadinho… De-da-dó!

* * *

Faço saber, a quem interessar possa, que o que eu queria really era ser americano. Como são adultos! Vejo nas fitas. Ali é tudo negociado, conversado, aclarado e esclarecido, dito com todas as letras, de A a Z, alto e bom zoom, course, as relações todas ponderadas, ajuizadas, marido e mulher, pai e filho, patrão e empregado, cachorro e carteiro… Benzadeus! Aqui não, aqui é tudo uma mistureba só, caras e bocas e beicinhos, pirraça de tudo que é ordem e desordem. Viram a cara pra você por nada. Você vira a cara pra quem não sabe de nada mas você sabe muito bem por quê. Tudo gente infantil neste nosso Brasil!

* * *

Faço saber, a quem interessar fosso, que aborreço melodrama, demais, mas que de quando em quando salva, isso lá salva! Todo mundo sabe que cair em si é a pior queda do mundo. Um dia destes tropecei, caí de cara em mim, merda! era um fossinho de cão o eu profundo! A gente podia se resignar, e das duas uma, cair em silêncio abissal ou aprender a cantarolar a capela. Mas, ciente das nossas responsabilidades, reagimos à altura do tempo, levantei voando, bati um rango legal e fui como todo mundo filar um cineminha. Barriga irrigada, choros curam chagas…

* * *

Faço saber, a quem interessar coça, que quem quiser nos ofender, mas ofender fundamente, até a medula das celulas todas d’alma, é nos chamar de criativo. — Criativo?! Criativo é publicitário, otário.

Faço saber, a quem interessar possa, que não escrevi “celulas” por fraqueza paroxitônica. É que, de só mencionar o palavrão, tamanha é a dor, tão atroz, tão pungente é o agulhão do vitupério, tantos são os “us” feridos e proferidos, que me faltam forças proparoxítonas.

Faço saber, a quem interessar possa, que, em vez de “aguilhão”, lancei mão do “agulhão” porque é sonho de todo poeta — que chegar às massas é conversa finada, achegar-se às costureirinhas, embalado em coito e biscoito.

Faço saber, a quem interessar possa, que acabaram de me avisar que não existem mais costureirinhas, ó dor das Dores! que a indústria têxtil já chegou ao Brasil e faliu, que as poucas que restam, atulhadas de trabalho pelas grifes, mal saem da enxovia…

Faço saber, a quem interessar possa, que “Dores” vem em maiúscula porque foi — foi uma santa, ora! que me iniciou na vida. E como chuleava das Dores! das Dores… Faço saber que rezo pela discrição.

* * *

Faço saber senecamente, a quem interessar moça, que sempre pautamos nossa conduta pela vida reta. Isso não quer dizer que não sofremos tentação. Quem não sabe, pela flor de Afrodite! que tem dona que bota a gente pra rebolar?! Mas nem por isso vamos sair por aí dando a cara pra esfregar, que vão deitar a língua com gosto. (Quem quer ver o pau comendo?) O negócio é voltar pra casa, meter a cabeça no lugar, tocar em frente… Cheguei, doçura.

* * *

Faço saber, a quem interessar possa e possua uma ONG, digo, uma ONG interna, minto, mais que interna, íntima, quem a possui, com todo o respeito, no baixo ventre, sabe que esse Órgão Não Governamentável, nem falo sempre, de quando em quando, quase raramente, mas irreverentemente, inescrupulosamente, inconvenientemente de pé — protesta o famélico da terra.

Faço saber, a quem interessar possa porque a mim não, que não sei nem quero saber o que os senhores fazem, mas eu o grudo pelo colarinho, roxo de raiva, e sem dó sacudo o porra, até derreá-lo entre as pernas, e o mando agitar então na casa do caralho.

TEXTO-FIM
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Airton Paschoa

"Airton Paschoa publicou "Contos tortos" (1999), "Dárlin" (2003), "Ver navios" (2007), "Banho-maria" (2009), "A vida do pinguins" (2014), "Sonetos em prosa & Poemicos" (2015), todos pela Nankin, e "Poemitos (juvenília)", em 2013, pela Dobra."