O sentido humano da 39º Mostra de Cinema de S.Paulo

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Em quatro grandes filmes, ditadura e jornada fantástica no Chile; o Holocausto por um ângulo inédito; estranha relação mediada por sexo e dinheiro; guerra como sinal da fugacidade de nossa espécie

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Na reta final da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, há alguns filmes que não podem deixar de ser vistos. A seguir algumas notas apressadas sobre eles.

O botão de pérola, de Patricio Guzmán

Segunda parte de uma trilogia que o diretor pretende dedicar à geografia (física, humana, política) do Chile. Falou do deserto em Nostalgia da luz, agora fala da água, isto é, da extensa costa chilena do Pacífico. O próximo será centrado na cordilheira.

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Mais uma vez repete-se o milagre de Nostalgia: em imagens límpidas, amarradas pela locução serena e cadenciada do próprio cineasta e por depoimentos contundentes, entrelaçam-se a ciência, a história, a política e a poesia. Um botão de madrepérola conecta a história de desaparecidos políticos lançados ao mar pela ditadura de Pinochet e a fantástica jornada de um nativo da Patagônia, levado à Inglaterra e tornado gentleman por um tempo, no período colonial. Do mais minúsculo objeto ao cosmo incomensurável, do minuto aos milênios, uma arrebatadora experiência audiovisual da qual talvez saiamos um pouco menos embotados e obtusos.

Son of Saul, de László Nemes

Ganhador do prêmio do júri em Cannes, este longa de estreia do húngaro Nemes não é “o enésimo filme sobre o Holocausto”, mas algo totalmente diverso, ao mesmo tempo fascinante e quase insuportável.

O “enredo”, por si só, é terrível: em Auschwitz, Saul Ausländer, membro do Sonderkommando– grupo de prisioneiros judeus encarregados de conduzir outros presos à câmara de gás e remover seus corpos para cremação – encontra entre os mortos um garoto ainda com vida e julga que ele possa ser seu filho. Obstina-se então na tentativa insana de sequestrar o corpo da criança e encontrar um rabino para propiciar-lhe um enterro de acordo com os rituais judaicos.

O que torna Son of Saul uma aventura única é o fato de tudo ser mostrado com uma câmera em permanente movimento, sempre muito próxima do corpo do protagonista, com escassa profundidade de campo, de tal modo que tudo ao seu redor fica caótico e indistinto. Imagens de um turbulento inferno por onde erra um indivíduo empenhado numa última tentativa de sentir-se humano.

Desde Allá, de Lorenzo Vigas

Outro vigoroso longa de estreia, vencedor do Leão de Ouro em Veneza. Curiosamente, Lorenzo Vigas recorre aqui a um procedimento semelhante ao de Son of Saul, “colando” a câmera a um personagem (nem sempre o protagonista) que se desloca pela cidade de Caracas. O foco “raso” faz com que tudo o mais fique nebuloso, impreciso.

Esse recurso formal, que é diferente da “câmera subjetiva”, pois incorpora em quadro o rosto (ou a cabeça) e parte do corpo do ator, foi radicalizado pelos irmãos Dardenne em O filho. Aqui, ele serve para concentrar o drama na relação ambígua e cambiante entre dois personagens, seus corpos, seus olhares: um homem abastado de meia-idade (Alfredo Castro) e um pequeno delinquente juvenil (Luis Silva). Uma relação de poder mediada pelo sexo e pelo dinheiro, na qual nunca se desvelam totalmente as motivações dos personagens – e com um desfecho imprevisto, daqueles que iluminam retrospectivamente tudo o que nos foi mostrado até então.

Os campos voltarão, de Ermanno Olmi

Homenageado pela Mostra este ano com o Prêmio Humanidades, o veterano diretor italiano de O posto e A árvore dos tamancos está de volta com um filme não menos que sublime. Ambientado na Primeira Guerra, numa trincheira coberta de neve, que a dessaturação cromática reduz quase ao preto e branco, o filme se inspira em relatos do pai do diretor e conta o drama de um punhado de soldados cercados pela morte e pela incerteza.

Dada a encenação precisa, a força poética das imagens, ainda que terríveis, o filme transcende o tema da guerra para questionar a fragilidade humana, ou, mais precisamente, a fragilidade do humano em cada indivíduo e na espécie como um todo. “O homem é um animal feio que rola pelo mundo sem poder parar”, diz um letreiro final, citando um autor cujo nome não registrei. A neve que cai indiferente sobre os vivos e os mortos de Os campos voltarão remete ao mesmo tempo ao consolo do tempo cíclico do conto “Os mortos”, de Joyce, e à pungente pergunta de Primo Levi no título de um de seus livros mais famosos: “É isto um homem?”

Outros destaques

Além dos “obrigatórios” destacados acima e no texto anterior da coluna, há na Mostra de São Paulo inúmeros outros filmes que merecem ser vistos, entre eles: o romeno Aferim!, de Radu Jude, sobre a caçada a um cigano foragido, na rude e violenta Romênia do século XIX; o denso e essencial drama rural colombiano A terra e a sombra, de César Augusto Acevedo, ganhador da Caméra d’Or em Cannes; o também romeno Boxe, de Florin Serban, estranha história de amor entre uma atriz e um jovem aspirante a pugilista.

Tudo isso sem falar de apostas sem erro, como os clássicos restaurados pela Film Foundation comandada por Martin Scorsese, os filmes de José Mojica e de Rogério Sganzerla e brasileiros inéditos de Julio Bressane (Garoto), Bruno Safadi (O prefeito), Ruy Guerra (Quase memória), Gabriel Mascaro (Boi neon), Maria Augusta Ramos (Futuro junho e Seca), Aly Muritiba (Para minha amada morta), Marina Person (Califórnia), Allan Ribeiro (Mais do que eu possa me reconhecer), Petra Costa (Olmo e a gaivota),Vinicius Coimbra (A floresta que se move) e Chico Faganello (Oração do amor selvagem), entre muitos outros.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.