O realismo bruto de Pablo Trapero

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Novo filme do cineasta argentino é inventivo e eficaz, mas confirma tendência do diretor ao sensacionalismo e à hipertrofia expositiva sem densidade simbólica

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Há quem diga que, depois revelar um talento vigoroso e original em filmes como Mundo gruaEl bonaerense Nascido e criado, o argentino Pablo Trapero enveredou por um certo sensacionalismo, explorando temas de impacto capazes de agradar o circuito internacional dos festivais de cinema: as mães presidiárias em Leonera, os achacadores de vítimas de acidentes em Abutres, as violentas favelas portenhas em Elefante branco etc.

Cena do filme O clã

O clã, que ganhou o prêmio de direção este ano em Veneza, talvez sirva para reforçar essa tese. Mas há outras maneiras de encarar a trajetória de Trapero. Uma delas seria a de ver sua filmografia como um work in progress sobre a violência que permeia as várias camadas e instâncias da sociedade argentina. O método de abordagem é, em todos os casos, um certo realismo brutal.

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Em O clã, baseado numa escabrosa história real, articulam-se três esferas: a família, o Estado e o crime. No período confuso que se seguiu à restauração da democracia na Argentina em 1983, Arquímedes Puccio (o excelente Guillermo Francella), ex-membro dos serviços de repressão da ditadura militar, usa o know-how adquirido na “guerra suja” contra os opositores para sequestrar familiares de ricos empresários e exigir grandes somas de resgate.

Horror em família

O que torna singular essa situação é que as ações de Puccio contam com a participação dos filhos – em especial de Alex (Peter Lanzani), astro nacional do rúgbi – e que o cativeiro dos sequestrados é no sótão da própria casa da família, o que leva a uma sobreposição incômoda entre a violência mais abjeta e um cotidiano doméstico trivial.

Trapero, com seu brutalismo habitual, enfatiza esse contraste até as raias do humor negro. O recurso ao rock dos Kinks, do Creedence Clearwater Revival e da banda argentina Vírus como trilha sonora dos sequestros faz lembrar um procedimento semelhante de Martin Scorsese em Os bons companheiros. Mas a comparação talvez não seja apropriada: no filme de Scorsese a música de Eric Clapton e dos Rolling Stones sublinha uma espiral crescente de loucura e selvageria. Em O clã o rock parece entrar de modo meio artificial, sem integração orgânica com a atmosfera emocional das cenas.

Isso não anula a eficácia e a contundência do relato. Manipulando habilmente o ritmo e as elipses, interpondo imagens documentais (noticiário televisivo, discursos do general Galtieri e de Raúl Alfonsín) às cenas ficcionais, embaralhando os tempos narrativos, Trapero nos dá um filme envolvente, eletrizante. À figura sinistra, impassível e monolítica do patriarca Arquímedes, contrapõe o impulsivo, volátil, imprevisível Alex. É entre esses dois polos que se desenvolve o movimento pendular do drama.

Mostrar ou não mostrar

Para o bem ou para o mal, o cinema de Trapero é extremamente sensorial, concreto, físico. A cena mais espetacular do filme – uma inesperada e radical tentativa de suicídio, filmada numa inacreditável tomada sem cortes aparentes – suscita um questionamento que se pode estender a todo o cinema de Trapero. É necessário mostrar tudo? É conveniente mostrar tudo? O que se ganha e o que se perde com isso?

O cineasta argentino, a par de uma energia e uma competência inegáveis, talvez peque pelo que o crítico Inácio Araujo, referindo-se anos atrás a uma certa tendência do cinema contemporâneo, definiu como “hipertrofia expositiva”, que teria como contraponto uma “atrofia simbólica”. Se tudo se mostra, o que resta para a imaginação, para a inteligência, para a participação ativa do espectador?

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.