O que disparou a Revolução do Jasmim

Por Hugo Albuquerque, para o Outras Palavras.

Os fenícios eram um povo notável. Muito antes da Hélade florescer e das luzes de Roma brilharem, os fenícios desenvolveram as ciências, as artes e o comércio. Do comércio chegaram às navegações, fincando bandeira de canto a canto do Mediterrâneo. Na costa da África, fundaram Cartago, a Nova Cidade, em torno da qual se edificou uma das mais espetaculares civilizações antigas. No principal embate da Antiguidade, essa civilização caiu, derrotada frente a uma República Romana inflamada pelos discursos da Catão: Delenda Carthago est – numa escalada que garantiu o controle do Mediterrâneo aos latinos e abriu os caminhos para a sua expansão incessante.

2011: as ruínas de Cartago ainda estão voltadas para o Mediterrâneo. Passaram-se os romanos, a cristianização, os vândalos, novamente os romanos (os orientais bizantinos, desta vez), os árabes, os turcos e, por fim, os franceses. O país é independente há 54 anos, mas sob a bota de um regime autoritário que oscilou entre o nacionalismo originário e o filossocialismo dos anos 1960. Para, depois, descambar no mais puro servilismo a potências ocidentais.

Não por coincidência, foram apenas dois presidentes nas últimas cinco décadas. O primeiro foi líder do movimento de independência, Habib Bourguiba. O outro, seu ex-primeiro-ministro, Zine El Albidine Ben Ali, que assumiu o poder imediatamente após uma conspiração palaciana, em 1987. Com isso, passou a controlar autoritariamente o país, mediante eleições fraudulentas, estado policial, nepotismo e a formação de uma indistinta cleptocracia. Ao mesmo tempo em que manteve ótimas relações com o Ocidente.

Essa realidade mudou radicalmente há poucos dias. O mundo foi pego de surpresa nos primeiros dias do ano, quando uma multidão tomou as ruas de Túnis, a capital tunisiana, e desafiou as autoridades em todos os níveis. A mobilização fulminante forçou o tirano Ben Ali a fugir às pressas do país. Aportou, sintomaticamente, na Arábia Saudita, e está em busca de asilo político. Enquanto isso, a grande imprensa ocidental mantinha a “cobertura padrão” de quedas de regimes aliados aos interesses imperiais. De um silêncio reverencial a notícias apresentadas de má vontade, ressalvando-se as poucas exceções de sempre, acidentais ou não.

TEXTO-MEIO

Falo do evento que ficará inscrito na História como a Revolução do Jasmim. Como se diz na Tunísia hoje: se a França tem o seu 14 de Julho, agora a Tunísia ganhou o seu 14 de Janeiro. A causa desse formidável evento tem sido creditada — mesmo por um analista do porte de Juan Cole — ao agravamento da recessão econômica no país. Seria uma mistura dos efeitos da crise mundial com os impactos das práticas nefastas do regime de Ben Ali sobre a economia.

Nada mais equivocado e ilusório. Afinal, quantos países não estão em conjuntura igual ou pior, neste exato momento? Como nos lembram GillesDeleuze e Félix Guattari no Anti-Édipo:as contradições nunca mataram ninguém”. O fato é que máquina social alguma tomba somente por conta de seu mau funcionamento intrínseco. A disfunção é parte constituinte do funcionamento global e, por isso, “ela [a máquina social] só funciona rangendo, desarranjando-se, arrebentando-se em pequenas explosões”. É nesse ponto que se articula a máquina social com a máquina desejante, e se produz a inovação política, o que, com efeito, é o que interessa aqui.

O que teria provocado um investimento insurrecional de tal ordem? Dois episódios recentes, dentre a multiplicidade de eventos, merecem atenção.

Primeiro, a exposição dos telegramas da diplomacia americana sobre a real situação da Tunísia, ocorrida no início de dezembro. Essa foi mais uma realização do Wikileaks liderado porJulian Assange. Com a ajuda dos cibermilitantes locais para difundir as notícias, revelou à população o grau de degeneração moral do regime. O que valeu dura reação por parte do governo: censura à Internet e prisão de hackers, blogueiros e jornalistas. Gesto desesperado que resultou em mais revolta.

Segundo, a autoimolação do jovem Mohamed Bouazizi em 17 de dezembro de 2010. Arquétipo de uma juventude tunisiana que vive às voltas com o alto desemprego e a falta de oportunidades, o pequeno comerciante sustentava a família vendendo frutas na rua, em condições precárias. Até o dia em que suas mercadorias foram confiscadas por autoridades em busca de propina. Desesperado, depois de ter suas queixas ignoradas pelo governador local, ateou fogo ao próprio corpo em protesto.

Uma leitura desatenta desses dois episódios – somada à incapacidade crônica em entender o investimento dos desejos no movimento social – pode reduzir a importância da revelação dos cables tunisianos pelo Wikileaks e pela rebeldia dos internautas tunisianos. Ao mesmo tempo que o caso do jovem Bouazizi pode se converter somente um exemplo de como as coisas andavam mal no país.

No entanto, ambos os acontecimentos, transcorridos em menos de 30 dias, subverteram por completo o quadro histórico de resignação e conformismo da sociedade tunisiana. Por quê? Não seriam óbvias as informações do Wikileaks? Embora o óbvio nem sempre seja evidente, é revolucionário. Além disso, ainda que o suicídio de Bouazizi também seja microefeito da crise econômica, desencadeou o processo revolucionário. Os dois eventos citados perturbaram a lógica de autorreprodução da crise. Trouxeram a imanência à multidão. Fizeram-na perceber que não há motivo para temer a morte quando a vida está irremediavelmente capturada numa máquina degradada. Não há justificativa para tremer diante do déspota, porque ele está nu como qualquer um. Isso ainda não havia sido dito nem pensado pela multidão. Quando o foi, inscreveu-se nela de forma arrebatadora.

Neste momento pós-deposição de Ben Ali, o governo de transição ainda conta com vários representantes do regime depostoFoi declarado luto oficial pelas centenas de mortos no levante da semana passada. Permanece a intensa mobilização popular. Protestos ecoam pelo Maghreb, com imolações parecidas com a de Bouazizi. A disseminação da revolta atinge sobretudo a Argélia e o Egito, onde vigoram “democracias de fachada” pró-Ocidente, semelhantes a que existia na Tunísia. 

Tudo isso, aliás, faz refletir sobre as implicações da Revolução do Jasmim na Revolução Árabe. A revolução na Tunísia encontra paralelo com a Revolução dos Cravos (1974). O povo português foi às ruas para derrubar o fascismo; porém, longe de resolver rapidamente a situação, desencadeou longo e atribulado processo revolucionário. Ainda que tenha passado de lado em relação à especificidade dos deflagradores da queda do regime, Juan Cole é feliz em um ponto em sua entrevista ao Democracy Now! (youtube): “toda revolução é muitas revoluções acontecendo ao mesmo tempo”. Resta saber se vai prevalecer a revolução democrática ou se o processo terminará reapropriado por grupos ávidos pelo poder, militaristas ou fundamentalistas.

Hugo Albuquerque edita o blogue O Descurvo.

TEXTO-FIM
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Hugo Albuquerque

Hugo Albuquerque é jurista, mestre em Direito Constitucional pela PUC-SP, sócio da Saccomani, Albuquerque & Biral Sociedade de Advogados e editor da Editora Autonomia Literária.