O potencial erótico dos psicopatas

Ao associar o homem moderno à agressividade e ao sexo, alguns filmes fazem do serial killer um modelo de masculinidade.


Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.


“Ela o ama. Ele mata. Ela não sabe”. Em menos de dez palavras, o pôster e o trailer deste filme francês resumem todo o conflito, algo que os distribuidores devem ter estimado necessário e/ou interessante comercialmente. Pois entre o amor e os assassinatos, comecemos pelo amor.

Ela se chama Aurore. Se acaso a quiserem, Aurore é dessas mulheres que só dizem sim. Ela é a riquíssima filha de um empresário americano, e não tem muitas vontades nem atividades. Ela encontra Christophe, passa a viver com ele, e aceita todas as vontades do moço. Quando ele quebra seu celular por ciúme, porque ela falava com um amigo, ela diz “Tudo bem”. Quando ele diz “Quero transar com você. Agora”, ela responde “Tá bom”. Quando ela descobre que de vez em quando ele mata jovens prostitutos, ela o acompanha e assiste. Seus olhos são vidrados, quase não piscam, em sinal de ausência de reflexão qualquer. Aurore é um robô com as pernas sempre abertas, à disposição.

TEXTO-MEIO

Ele se chama Christophe. Christophe é macho, muito macho. Ele conquista todas as garotas da história, e também alguns garotos, e leva-os todos para a cama. Ele faz o tipo viril dominador, bruto, agressivo – algo perfeito para o ambiente em que se encontra, onde todos são submissos. Ele é sempre visto nu, de vez em quando em ereção. Ele diz frases do tipo “Mostra teus mamilos, eu não quero ficar de glande mole”. Um poeta. Seus olhos são igualmente vidrados, também não piscam (engraçada essa direção de atores), com a respiração ofegante e o olhar de um predador maníaco. Ele é um psicopata, e nesta terra de fetiches, os psicopatas agem como animais selvagens enfurecidos.

American Translation alterna entre o mais tosco dos filmes de “ação erótica” e uma vídeoarte que se leva bastante a sério. A câmera digital de baixa qualidade confere o aspecto amador provavelmente involuntário; o som é dos mais precários; o roteiro é recheado de diálogos profundos como os citados acima, e os personagens agem como marionetes sem expressão. Tudo é fetichista e acessório, estas pessoas parecem existir unicamente para criar as tais cenas de sexo e morte. Cada ponto de ônibus ou lavanderia em que nossos personagens passam apresenta um jovem e belo garoto sentado, prestes a ser penetrado e depois morto. Os corpos estão à disposição, o mundo criado é puro desejo.

Algumas pessoas poderiam reclamar que este filme não é pornográfico, pois a pornografia exigiria o sexo explícito (ausente aqui) e a “vocação masturbatória” já explicada por diversos teóricos. Mas a teoria de cinema recente também tem aplicado o termo de pornografia num sentido mais amplo, como a idealização do mundo e do ser humano, e o prazer desconectado da moral e da razão. Assim, diversos filmes de guerra violentos e “slasher movies” tipo Jogos Mortais foram facilmente classificados de pornográficos, apesar da ausência de sexo. Seguindo este raciocínio, American Translation constitui uma pornografia exemplar, na qual as vítimas e as amantes do protagonista encontram-se disponíveis, aos montes; onde o sexo e o prazer masculinos são a origem e a finalidade de todas as ações dramáticas.

O mais curioso é ver que, no final deste faz de conta, os diretores ainda julgam necessário justificar seu discurso. Mal acaba a última imagem, os letreiros informam que o projeto nasceu de leituras sobre psicopatas, e inclui duas citações de psicopatas para provar o realismo e a legitimidade de seus personagens. Para quem ainda esperava que o projeto tivesse um tom paródico ou assumidamente trash, este final confirma que o filme se leva de fato muito a sério. Mais do que isso, por ingenuidade ou arrogância, ele tenta convencer até o fim seus espectadores de que aqueles animais de circo, aquelas máquinas de orgasmo, correspondem à psicologia plausível explicada por psicólogos num livro. Uma noção de realismo e de manipulação do espectador mais incômoda do que a matança alegre dos protagonistas.

 

American Translation (2010)
Filme francês dirigido por Pascal Arnold e Jean-Marc Barr.
Com Pierre Perrier, Lizzie Brocheré, Jean-Marc Barr.

TEXTO-FIM
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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.