O gosto dos outros

"Fireworks Wednesday", 2006, dir. Asghar Farhadi

"Fireworks Wednesday", 2006, dir. Asghar Farhadi

Os filmes sobre os conflitos no Oriente Médio se multiplicam na França: conscientização do público ou espetáculo da alteridade?

 

Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.

Os cinemas franceses estão repletos de filmes iranianos. São quatro títulos simultâneos, além de Au Revoir, que estreia dentro de duas semanas. O Irã está melhor representado do que a Itália, Alemanha ou a Espanha, por exemplo – para citar alguns países vizinhos de mais longa tradição cinematográfica. A Separation superou todas as expectativas ao atingir mais de 750 mil espectadores, uma bilheteria muito melhor que diversas comédias francesas. Os jornalistas tentaram explicar este sucesso pelas críticas positivas, mas muitos outros filmes receberam críticas ainda mais entusiasmadas e nem por isso tiveram uma bilheteria tão expressiva.

Pode-se dizer, sem dúvida, que o Irã tem produzido filmes de excelente qualidade. Fireworks Wednesday, outro sucesso iraniano, consegue quebrar a imagem dos filmes iranianos puramente estéticos e formais ao introduzir uma dimensão social, muito mais do que política. Este não é um filme de denúncia, e sim uma obra familiar, sobre os costumes e os conflitos morais que ultrapassam facilmente as fronteiras deste país. Mais uma vez, este fator universalizante pode ajudar a compreender a boa reação do público, mas não justifica em si todo o sucesso obtido.

TEXTO-MEIO

Pôster francês, com a menção "O primeiro filme da primavera árabe".

Pôster francês, com a menção "O primeiro filme da primavera árabe".

O trailer de Au Revoir, por exemplo, apresenta os tradicionais fragmentos do filme, e se termina com uma frase de efeito, informando que o diretor está preso no Irã por causa de seus filmes. O título aparece em seguida. Paralelamente, o egípcio 18 jours estreia dentro de algumas semanas, com o grande slogan “o primeiro filme da primavera árabe”- não “sobre” o movimento, mas “do” movimento, como se tivesse sido feito por ele. Neste momento, é impossível ignorar a dimensão comercial e publicitária que o fator político adquire na venda do cinema vindo destes países. Da mesma maneira, o festival de Cannes tinha sido criticado por “não prestar atenção ao mundo ao redor”, quando divulgou sua lista de filmes em competição em 2011, dentre os quais praticamente não constavam obras do Oriente Médio.

O festival, muito preocupado com sua imagem moral (vide o caso Lars Von Trier), se corrigiu rapidamente e obteve duas obras de diretores iranianos presos, uma delas num pen drive. A clandestinidade do pen drive em oposição ao tapete vermelho de Cannes imprimiram à seleção uma certa preocupação de esquerda, politicamente correta, com o cinema de países em conflitos civis. Entenda-se: tornou-se necessário representar o Irã, muito embora as preocupações da seleção oficial eram muito mais dirigidas aos diretores “de grife” (Almodóvar, Malick, irmãos Dardenne) do que aos diretores em exílio ou em países privados de democracia.

Embora aparentemente os dois filmes selecionados sejam muito bons, eles foram escolhidos principalmente por sua nacionalidade. Malick e outros integraram a seleção pelo sistema de cota reservado aos autores, enquanto Rasoulof e Panahi estavam presentes enquanto vítimas e/ou mártires do cinema. Passados os festivais, estes filmes se venderam muito bem, algo que é com certeza de mérito dos realizadores, mas não apenas. O cinema iraniano tem se tornado cool, um certo alívio burguês ao espectador que, ao se deparar com Fireworks Wednesday, acha que: 1) Agora ele conhece a situação lá fora, o que vai alimentar seus temas de discussão com os amigos, como diria Bourdieu, 2) É bom/importante/louvável assistir a esses filmes, para ajudar a economia iraniana e/ou a visibilidade desta temática, 3) Estes filmes são ainda melhores porque foram feitos em condições precárias, de modo que a qualidade é condicionada à dificuldade e à coragem dos diretores.

O nome de cada diretor e a maneira como cada tema é abordada tornam-se fatores secundários. O fato de o filme ser iraniano e mostrar o Irã faz dele uma atração em si. Talvez por isto os franceses tenham feito pôsteres e trabalhos promocionais praticamente idênticos para todas estas obras (vide imagens abaixo), que não estão sendo vendidas por sua singularidade, e sim pelo conjunto. Logicamente, o problema não é o fato destes excelentes filmes serem vistos, mas a maneira como são vistos. A onda comercial iraniana corresponde a este desejo de boa consciência de um espectador cujas ideias pessoais não necessariamente se traduzem em uma abertura de espírito às culturas e políticas mediterrâneas.

Chega a ser irônico que este fenômeno de público ocorra no momento de todas as crises econômicas, políticas e da guinada de praticamente todos os países europeus à direita repressiva e xenofóbica. A situação iraniana é um espetáculo que se admira de longe, justamente pela distância segura que garante que os conflitos não chegarão ao solo europeu. Entre o fetichismo da alteridade e o caráter circense de admirar as culturas distantes, A Separation, Fireworks Wednesday, About Elly, The Circle e outros criam um nicho efêmero no cinema, um efeito de moda. Como dizem alguns países africanos a respeito da ajuda europeia para o combate à fome: “Não nos ajudem, deem-nos as ferramentas para que nós mesmos nos ajudemos.”

O mesmo se passa com os produtos culturais iranianos em países ricos, de direita. Não admirem este conflito pela distância cultural que ele representa à sua cultura, e sim pelo interesse enquanto filme, e pela possibilidade futura de se sensibilizar a esta causa. Com Fireworks Wednesday, não consuma o Irã, não consuma a informação, e sim um filme, uma discussão moral, ética, estética. Pode ser improvável, mas espero que o Irã continue bem representado nas telas francesas. Acima de tudo, que estes filmes sejam apreciados por sua singularidade, sem menções publicitárias ao calvário dos diretores, sem vitimação nem miserabilismo. Que se ultrapasse o selo de qualidade “filme iraniano” para se discutir o que estes filmes iranianos têm a dizer e mostrar.

Fireworks Wednesday (2006)
Filme iraniano dirigido por Asghar Farhadi.
Com Hedieh Tehrani, Taraneh Alidousti, Hamid Farokhnezhad, Pantea Bahram.

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.