O “filme europeu” de Jorge Furtado

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Em “Real Beleza”, diretor gaúcho rompe corajosamente com vivacidade travessa de seu passado para voltar-se a antagonismos mais abstratos, em clima de melancolia serena. Será virada momentânea?

Por José Geraldo Couto, no blog IMS

De um filme de Jorge Furtado o espectador acostumou-se a esperar uma hábil mistura de humor, crítica social e metalinguagem, ou ao menos uma brincadeira esperta sobre os (des)caminhos entre o real e sua representação. Pois bem: Real beleza, seu novo rebento, tem pouco ou nada de tudo isso.

A história de João (Vladimir Brichta), fotógrafo em crise que percorre o interior do Rio Grande do Sul em busca da jovem modelo ideal, é o que se poderia chamar de drama outonal, de ritmo cadenciado, luz oblíqua, cores esmaecidas. É, de certa forma, o “filme europeu” de Jorge Furtado, e não por acaso traz à memória (pelo menos à minha) obras crepusculares como Identificação de uma mulher, de Antonioni, e Beleza roubada, de Bertolucci. A paisagem da serra gaúcha contribui para essa atmosfera.

Tensões amortecidas

O enredo é simples: depois de testar centenas de adolescentes, o fotógrafo encontra no interior a garota perfeita (Vitória Estrada), que mora numa casa rural com os pais, um velho intelectual cego (Francisco Cuoco) e uma mulher delicada e muito mais jovem (Adriana Esteves).

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O pai reluta em autorizar a filha a seguir carreira, uma atração amorosa nasce entre o fotógrafo e a mãe da garota. Dessa situação, o diretor poderia ter explorado vários conflitos possíveis: o drama do adultério, a vontade da filha de livrar-se do pai, um eventual ciúme entre mãe e filha. Mas tudo isso, de certo modo, é abortado, ou ao menos amortecido, esvaziado de atrito, de fricção – como se toda tensão tivesse se esgotado, ou tido sua catarse, no acesso de fúria da sequência de abertura.

Adriana Esteves e Vitoria Strada em cena de Real Beleza | Fabio Rebelo/Divulgação

Fugacidade e permanência

Jorge Furtado parece mais interessado em jogar com alguns antagonismos mais abstratos ou lógicos, por assim dizer: o fotógrafo e o intelectual cego (que no entanto guarda na memória, “borgianamente”, toda a cultura); a casa-biblioteca no meio do mato; o homem que sabe tudo e não produz nada; a fugacidade e a permanência; o ver e o lembrar. A bela cena em que o velho descreve ao fotógrafo, com uma minúcia quase inverossímil, uma foto célebre de Cartier-Bresson sintetiza um pouco tudo isso.

Desse modo o filme se tinge de uma melancolia serena, quase exangue, muito distante da vivacidade travessa da filmografia anterior do cineasta, seja no cinema ou na TV, no documentário ou na ficção. Não deixa de ser um gesto de coragem essa virada, esse abandono da chamada “zona de conforto” de uma obra estabelecida e reconhecida. Resta saber se se trata de uma mudança definitiva de rota – fruto de maturidade ou cansaço – ou se é apenas um desvio momentâneo. Estou curioso para ver o próximo.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.
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