O ano em que o teatro carioca zombou da crise

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“Salina – a última vértebra”: simbológica, sem limites nacionalistas  (Foto: Daniel Barbosa)

Breve balanço da temporada 2015: nem recessão econômica, nem decadência política, impediram ousadia estética, fusão com outras linguagens, verdade sem disfarces

Por Wagner Correa de Araujo

A decadência política, a crise econômica e a incredulidade no que vem por aí, não foram capazes de tirar o brilho de um ano de plenitude em realizações cênicas na dança, na ópera e no teatro especialmente.

Um variado panorama enriquecido não só por textos além-fronteiras, mas pela revelação de uma dramaturgia doméstica de transcendente força, em impactantes e descortinadoras montagens.

Fica difícil, apenas, enumerar tantos espetáculos de qualidade, sem correr o risco de não se dar o devido destaque, por muitos merecido, neste ligeiro rascunho em forma de resenha. Sem haver, aqui, qualquer intenção de delimitá-los na classificação dos melhores do ano, assaz presente nas inúmeras listas postadas.

Pensamos, então, na seleção inclusiva de alguns, nunca por categoria, por gêneros ou temáticas, mas por sua impulsividade estética. Tendência constante e de marco revelador nos palcos cariocas no ano que se encerra. Através do ambiente multifacetado entre a linguagem teatral e outros universos artísticos. Entre o texto ensaiado e o linguajar coloquial. Entre o imaginário e o metafórico. Ou na denúncia, pelo realismo cru e pela verdade sem disfarces.

"Salina - a última vértebra" (Foto: Nana Moraes)

“Krum”: absoluta independência de concepção e inventividade (Foto: Nana Moraes)

Lembrando, ainda, certos títulos simbológicos, sem limites nacionalistas, numa absoluta independência de concepção e inventividade, tais como A Floresta Que Anda (Christiane Jatahy), Krum (por Márcio Abreu) e Salina – A Última Vértebra (Cia Amok).

Caracteres estilísticos extensivos à exponencial proposta/performance de obras autorais como O Narrador (Diogo Liberano), Caranguejo Overdrive (Pedro Kosovski), Projeto bRASIL (Márcio Abreu), todas com provocativo referencial de “work in progress”.

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Além de inusitadas surpresas cenográficas em torno da solidão virtual, da incomunicabilidade e dos preconceitos, explicitadas no despontar de novos criadores em Para Os Que Estão em Casa (Leonardo Netto), Mantenha Fora do Alcance do Bebê ( Sylvia Gomez) e BR-Trans (Silvero Pereira).

"Caranguejo Overdrive": realismo cru, num claro "work in progress" (Foto:  Elisa Mendes)

“Caranguejo Overdrive”: realismo cru, num claro “work in progress” (Foto: Elisa Mendes)

Sem deixar de lado, as retomadas conceituais de consistente teor crítico com Daniel Herz, O Pena Carioca, na interiorização plástica de Inútil a Chuva (da Armazém Cia de Teatro), no intimismo confessional de Em Nome do Pai (via Guilherme Leme/Vera Holtz) e na visceralidade da proposta de Abajur Lilás (por Renato Carrera).

Enquanto o musical a la Broadway teve sua culminância no classicismo do Kiss Me Kate- O Beijo da Megera (da dupla Botelho/Moeller), O Beijo no Asfalto – O Musical ( segundo João Fonseca) replicou horizontes brasileiros além do desgaste das visões biográficas.

E que, assim, diante dos palcos constatados, continue em 2016, este, cada vez mais audacioso pensar dramatúrgico e esta inquietante criação cênica, para o bem de todos e para a felicidade geral da nação teatral brasileira.

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Wagner Correa de Araújo

Jornalista especializado em cultura, roteirista, diretor de televisão, crítico de artes cênicas. Dirigiu os documentários "O Grande Circo Místico" e "Balé Teatro Guaíra 30 Anos" . Participou como critico e jurado de festivais de dança e cinema, no Brasil e na Europa.