O Alemão que perdeu a mão

140322-Alemão

Embora ambicioso, ao tratar conflito polícia versus crime sem maniqueísmos, filme de Belmonte não tem roteiro consistente. Por isso, apela e derrapa

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Mais que atual, Alemão, de José Eduardo Belmonte, é um filme urgente. Nisso reside sua força, mas decerto é também disso que resultam suas fragilidades.

Seu “assunto” – a implantação da UPP no morro do Alemão e, de modo mais geral, a guerra entre polícia e traficantes pelo controle das favelas cariocas – segue frequentando as manchetes e os telejornais. Alguns personagens reais que aparecem no filme – como o governador Sergio Cabral e o ex-presidente Lula (este só em áudio) – ainda são figuras-chave da política brasileira.

TEXTO-MEIO

O ângulo escolhido para entrar nesse verdadeiro cipoal não poderia ser mais interessante: um grupo de policiais infiltrados no morro para colher informações e facilitar a invasão “pacificadora”. Em vez do quadro geral, épico, do bangue-bangue, a tensão claustrofóbica de um punhado de homens encurralados no território do inimigo. Concentração espacial e temporal de tragédia, situação explorada em inúmeros policiais, thrillers e filmes de guerra.

Ao desenvolver esse belo argumento, porém, Alemão patina, redunda e perde o gume em vários momentos, como se não tivesse se preparado adequadamente para resolver as muitas equações que ele mesmo propõe.

Enxugando gelo

A primeira e crucial dessas equações, a meu ver, é a que busca conciliar o filme de gênero (no caso, “de ação”) e uma proposta autoral, isto é, uma leitura pessoal, em termos de estética e intervenção política, do universo abordado.

A perspectiva política está dada já na primeira frase proferida no filme, “enxugando gelo”, do rap homônimo de BNegão que faz parte da ótima (mas utilizada em excesso) trilha sonora. Ao contrário da mitologia maniqueísta propagada incessantemente pela mídia, Alemão não vê a violência nos morros como uma guerra santa entre policiais bons e traficantes malvados, mas como uma luta suja, fratricida e sem sentido, em que os dois lados se misturam, se alimentam reciprocamente e não saem do lugar. É nessa engrenagem perversa que os personagens se debatem, como parafusos tortos, mal encaixados.

A partir dessa premissa, cabia desenvolver uma narrativa que integrasse organicamente ao contexto geral o suspense particular da situação e o drama de cada um dos personagens centrais. É aqui que, a meu ver, Belmonte e seus roteiristas perdem a mão.

Dramas em profusão

Há um número talvez excessivo de focos dramáticos. Há, entre outras coisas: o infiltrado (Marcelo Melo Jr.) que namora a irmã (Aisha Jambo) de um traficante (Marco Sorriso); a ex-namorada (Mariana Nunes) do chefão do tráfico (Cauã Reymond) que está em poder dos policiais; a relação complexa de um policial (Caio Blat) com o pai delegado (Antonio Fagundes); o conflito entre dois infiltrados (Milhem Cortaz e Gabriel Braga Nunes).

Articular esses vários dramas sobrepostos exigiria um roteiro cerrado e uma direção segura dignos de um Howard Hawks, um Billy Wilder, um Samuel Fuller ou, mais modestamente, um Roberto Farias. Citei cineastas tão díspares porque são autores que trafegam pelo cinema de gênero sem perder a pegada pessoal.

Aparentemente inseguro ou tateante quanto às regras do gênero, e sem contar com um roteiro consistente, Belmonte perde o equilíbrio entre as várias histórias e, para manter a tensão, força a mão aqui e ali: na tortura explícita a um policial detido pelo tráfico; na reiteração incessante de palavrões gritados, respiração ofegante e pistolas em riste (um clichê popularizado por Cidade de Deus Tropa de elite); no melodrama pesado da relação pai-filho etc.

Tão forasteiro ao cinema de ação como seus personagens são forasteiros à favela, o cineasta parece ter ficado mais com os cacoetes exteriores do que com a seiva do gênero. Alguém disse maldosamente, mas não sem um fundo de razão, que os atores parecem estar brincando de mocinho e bandido.

Um dos poucos respiros do filme, no meio dessa crispação um tanto artificial, é o personagem Doca (Otávio Muller, cada vez melhor), policial infiltrado que se passa por dono de pizzaria. É ele que introduz o humor, o ritmo mais pausado, o sabor de vida cotidiana necessário para que os momentos de clímax tenham eficácia e façam sentido. E é dele também a frase mais memorável, proferida quase no final.

Gênero e autoria

É muito saudável a tentativa de certos cineastas brasileiros de superar a dicotomia cinema de arte x cinema de entretenimento, ou filme autoral x filme de gênero. O próprio Belmonte, depois de quatro longas radicalmente pessoais e sem concessões (SubterrâneosA concepçãoMeu mundo em perigo e Se nada mais der certo), experimentou a comédia maluca com o irregular Billi Pig.

Trabalhando com o thriller de horror, em Quando eu era vivo o diretor Marco Dutra conseguiu manipular de forma original as regras e clichês do gênero. Por inúmeras razões que não cabe discutir aqui, não teve muito público. Com Alemão, o resultado cinematográfico é menos satisfatório, mas ao que parece a bilheteria vai muito bem, obrigado.

TEXTO-FIM

Sobre o mesmo tema:

The following two tabs change content below.

José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.