Num grande livro, o caleidoscópio Coutinho

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Lançada em 2013, obra organizada por Milton Ohata reúne centenas de textos essenciais para conhecer documentarista. Estrutura assemelha-se à dos trabalhos do diretor

Por Maurício Cardoso, no Retrato do Brasil


Resenha de Eduardo Coutinho
Organizado por Milton Ohata

Editora Cossac Naify / SESC, 2013
704 páginas, R$ 69,90, à venda aqui

Sujeito discreto, avesso à glamorização do próprio trabalho, fumante inveterado aos 80 anos, barba e cabelos brancos, Eduardo Coutinho é o mais importante documentarista brasileiro, não apenas pelo currículo extenso, mas também pelo amadurecimento de um modo de fazer e refletir sobre o registro documental. Diretor do clássico “Cabra marcado para morrer” (1984), de “O fio da memória” (1991), “Santo forte” (1999), “Edifício Master” (2002), “Peões” (2004) e “Jogo de cena” (2007), entre outros, Coutinho começou a carreira nos anos 1960, na efervescência do Cinema Novo, como roteirista e diretor de ficção. Trabalhou também para a televisão, na equipe do Globo Repórter, no final dos anos 1970.

TEXTO-MEIO

Sob coordenação de Milton Ohata, a Cosac Naify e o Sesc lançaram Eduardo Coutinho, uma obra monumental que reúne, em 700 páginas, textos de e sobre o cineasta cujos filmes foram pautados numa relação direta e intensa com os personagens que entrevistou: trabalhadores rurais, moradores de comunidades cariocas, romeiros, religiosos, prostitutas, metalúrgicos, catadores de lixo, velhos, velhos pobres, pobres e pretos, artistas populares, entre uma infinidade de vozes raramente percebidas pelo cinema e pela televisão.

Ohata formaliza, em suas escolhas e na estrutura do livro, o mesmo princípio que rege o trabalho desse cineasta: a disposição para o diálogo, o espaço do encontro, o peito aberto para o inesperado, a busca pelo genuíno e pelo verdadeiro – ou melhor, os verdadeiros de cada um. Assim, Ohata parece disposto a reunir “personagens” do “universo Coutinho”: parceiros, críticos, entrevistadores e as diversas intervenções do próprio cineasta.

No conjunto dos textos, há desequilíbrios, contradições, fragilidades e uma infinidade de pontos de vista, interesses e bases teóricas de interpretação. Ao lado de narrativas memorialistas e afetivas sobre o cineasta-chefe figuram ensaios de análise fílmica assinados por críticos de estatura variada, crítica ligeira de jornal, entrevistas que oscilam do corriqueiro à busca pelos fundamentos do método. Na fatura, porém, o desigual torna-se diferença, ancorada na construção histórica da obra de Coutinho.

Livro de Eduardo Coutinho, organizador  por Milton Ohata da editora Cosac Naify/Sesc

“Edifício Master” e “Babilônia 2000” surpreendem pela pluralidade do uno, o diverso circunscrito, seja em um prédio de Copacabana ou em uma favela da zona sul do Rio de Janeiro. Também no livro de Ohata permanece o diverso no modo de ver e refletir a obra de Coutinho, valorizando o mesmo efeito que seus filmes produzem nos espectadores: o debate, a tomada de posição, o gosto pela investigação e a descrença nas respostas prontas.

O livro está dividido em quatro partes: na primeira, Ohata reuniu os raros escritos do cineasta sobre seu ofício. Nesses textos, o leitor pode vasculhar explicações e conceitos que mobilizam Coutinho em suas escolhas técnicas e estéticas. A parte inicial dessa seção é composta por dois artigos, nos quais o cineasta explicita seu constrangimento e angústia diante do esforço de teorizar sobre o próprio trabalho, em oposição ao prazer pelo debate. Ainda na primeira parte, um conjunto expressivo de críticas de Coutinho publicadas no diário Jornal do Brasil, entre 1973 e 1974, integra uma seção original que, sugere o próprio Ohata, deve surpreender até os especialistas nos filmes do diretor.

A segunda parte do livro é formada pelas entrevistas concedidas entre 1976 e 2012 a uma infinidade de jornalistas e críticos, historiadores e antropólogos, revistas de banca de jornal, imprensa oficial, revistas acadêmicas, periódicos diversos. Fonte inesgotável da memória da sua geração – Coutinho filma desde a aurora sombria do golpe civil-militar de 1964 –, essas entrevistas oferecem um percurso complexo que se tece na urdidura da história ainda mal digerida do cinema brasileiro. A segunda seção é, por excelência, expressão do arco amplo e variado que a obra de Coutinho desenhou ao longo de seis décadas de produção audiovisual.

Na terceira parte encontram-se depoimentos dos colaboradores do cineasta, trançando memória e afeto na construção de uma figura humana de fino trato, a despeito do mitológico mau humor. Nessa seção, a semelhança formal com os filmes de Coutinho é reveladora: narrativas e personagens diversos falam das relações de trabalho com o cineasta. Os “causos” são exemplares, produzem o riso e o nó na garganta. Épico e dramático se misturam na cena narrada, no sujeito que, às vezes, pela primeira e única vez, sobe ao palco e começa: “Eu conheci Coutinho em…”.

A última parte, para deleite dos interessados em crítica cinematográfica, apresenta ensaios inéditos e artigos antológicos publicados na imprensa ao longo das últimas décadas. Aqui a pluralidade não se acomoda no mesmo espírito de confraternização das memórias narradas na seção anterior. Aqui, revela-se um campo de alta tensão, em que interpretações disputam a produção de significados e recorrem a vasto instrumental analítico para compor diferentes modos de ver Coutinho. Cabe ao leitor, assim como ao espectador de Coutinho, a escolha pelo texto exemplar e o encontro verdadeiro ou pelo panorama e o caleidoscópio do “Edifício Coutinho”.

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Maurício Cardoso

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