No último Coutinho, a arte, técnica e poesia da escuta

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Ao entrevistar jovens estudantes, diretor rompe armaduras para prospectar sinais de humanidade: perfis incomuns, histórias tocantes, frestas, vazios, contradições… vida!

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Duas preciosidades estão entrando nas brechas de nosso mesquinho circuito exibidor. É preciso vê-las antes que sejam ejetadas. Estou falando de Últimas conversas, derradeiro documentário de Eduardo Coutinho, e do turco Sono de inverno, de Nuri Bilge Ceylan, ganhador da Palma de Ouro em Cannes no ano passado. Sobre este último escrevi aqui quando foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Falemos do outro, então, em cartaz no IMS-RJ e em outros cinemas, de diversas capitais.

Coutinho, morto de forma trágica há pouco mais de um ano, aos 80, não terminou de dizer o que tinha a dizer – ou melhor, a escutar, já que esta era talvez sua maior virtude. Suas últimas palavras – ditas e ouvidas – estão neste novo documentário, que ele não chegou a ver concluído. A tarefa de finalizá-lo coube à montadora Jordana Berg e ao cineasta João Moreira Salles, amigos e parceiros criativos de longa data do documentarista.

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Uma das jovens entrevistadas no documentário

Últimas conversas, concebido para ser um diálogo com múltiplos rapazes e moças no final da adolescência, abre com o próprio Coutinho expondo seu legendário pessimismo ranzinza ao falar a seus colaboradores sobre a dificuldade de conversar com jovens, já que estes chegam diante da câmera maquiados, preparados – “armados”, para usar sua expressão. Furar esse bloqueio para chegar a alguma verdade era um desafio que lhe parecia fadado ao fracasso.

Frestas do discurso

Mas, ainda uma vez, Coutinho conseguiu o milagre. As experiências de vida que se expõem em seguida, ainda que a contrapelo ou mesmo a contragosto, são de uma riqueza extraordinária. Da garota religiosa que chora ao falar do padrasto que a assediou na infância, quando ela esperava dele “o amor de um pai”, ao rapaz rejeitado na escola como patinho feio e que, depois de dois anos de terapia, voltou decidido a mostrar arrogantemente sua superioridade intelectual sobre os colegas, tudo é muito vivo e pungente, regado aqui e ali por poemas e canções dos próprios personagens.

Algumas histórias são especialmente tocantes, como a da menina negra que chama carinhosamente de “padrasta” a companheira da mãe. “Ela tirou minha mãe da noite, onde ela maltratava o próprio corpo para poder alimentar os filhos”, diz, com um sorriso encantador.

O mais interessante, contudo, talvez seja justamente o que se desvela à revelia dos personagens, nas frestas e contradições de seu discurso, nas hesitações da fala, nos silêncios. Uma garota mulata afirma, a certa altura, que nunca sofreu preconceito ou discriminação. Logo em seguida, meio rindo, diz que seus próprios irmãos, de pele mais clara, a escondiam dos amigos, mostrando-lhes apenas a outra irmã, que era branca. Também conta que se emocionou às lágrimas ao atuar na escola numa peça sobre navios negreiros.

O silêncio e o vazio

Um caso singular é o de um rapaz que chega totalmente armado de sentenciosos lugares-comuns. A cada coisa que Coutinho lhe diz ele responde com um clichê abstrato de livro de autoajuda, pílula de sabedoria extraída de algum post de rede social. O diretor tenta inicialmente responder na mesma moeda, sugerindo outras tantas frases-feitas, quase como quem lança iscas. Não dá muito certo. O arsenal do outro parece inesgotável. Coutinho ataca então com o silêncio. O garoto se desconcerta, ri de nervoso, murmura algo sobre o constrangimento do silêncio. Seu vazio se revela de modo doloroso. Dá vontade de pegá-lo no colo ou dar-lhe uns safanões.

Em nenhum de seus outros documentários Coutinho falou tanto. Neste, um certo cansaço ou falta de paciência o leva a interromper de quando em quando a fala do entrevistado e até a dar conselhos ocasionais. Não é possível saber se essas intervenções seriam mantidas por ele na edição final. O fato é que estão lá e testemunham o estado de espírito do diretor pouco antes de sua morte inesperada. Penso que os responsáveis pela finalização do filme acertaram em mantê-las, como também em preservar as conversas de bastidores.

A certa altura, por exemplo, ouvimos Coutinho recomendar a uma entrevistada: “Agora você sai sem olhar para trás e deixa a porta entreaberta, pra gente acabar a cena com essa imagem”. Em outro momento, a tomada começa com o diretor de fotografia Jacques Cheuiche, fora do quadro, dizendo a Coutinho: “Você está fumando? Apaga esse cigarro”. O cineasta responde: “Já está acabando. Pode rodar.” Vemos então a fumaça do cigarro entrar em quadro no alto, à direita. Quem conheceu Eduardo Coutinho sabe que a fumaça do cigarro era uma extensão do seu corpo, o que confere a essa imagem um significado quase metafísico.

Últimas conversas termina com um diálogo delicioso entre Coutinho e uma garotinha de seis anos. Mais do que a manifestação de uma “nostalgia de ancião”, como escreveu o crítico Inácio Araujo, essa conversa é, a meu ver, um fecho perfeito para uma filmografia toda dedicada ao encontro de diferentes, à busca da iluminação pelo entrechoque de experiências. Diante da criança, o velho Coutinho desarma a si mesmo, relaxa, manifesta reiteradas vezes seu encantamento diante de uma frase da menina (“Deus é um homem que morreu”) e expressa um desejo infelizmente irrealizado: “Eu devia fazer um filme só com crianças”.

TEXTO-FIM
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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.