No poder, Hezbollah enfrenta desafios no Líbano

Por Franklin Lamb, da Al-Manar TV (Beirute) | Tradução: Coletivo Vila Vudu

Esse jornalista observador corta o cabelo aproximadamente a cada quatro meses, precise ou não. Mas hoje ganhei mais que umas tesouradas nas melenas, do meu amigo barbeiro e soldado do Hezbollah, de nome Abass ibn Ali, irmão de Hussein, nomes de dois mártires e heróis de uma batalha épica, em 680 a.C., entre muçulmanos, a Batalha de Karbala, cidade que, hoje, está em território do Iraque. A Batalha de Karbala simboliza, para os seguidores do Hezbollah e muçulmanos xiitas em geral, a vitória do bem sobre o mal e a disposição para sacrificar a própria vida na luta por justiça e pelo maior bem da família, da comunidade, da Ummah. O motivo pelo qual falo disso, é que meu barbeiro estava hoje em estado de graça, em êxtase. Disse que seu partido estava vivendo um “momento Karbala”!

Respondi que a frase podia ser interpretada de vários modos. Afinal, muitos combatentes da resistência morreram em Karbala. Abass insistiu:

“Quero dizer é que nós, o Hezbollah, somos conhecidos por espantar sionistas para bem longe do Líbano, mas o partido parece que está aprendendo também a operar na política do Líbano e da região. É bom para nosso povo que nós criemos programas sociais e governo honesto, sem corrupção, pela primeira vez na história do Líbano. Você concorda? Não acha que estamos começando a fazer bem feitas as coisas, também no jogo político no Líbano?” Concordo. Concordo.

Em movimento político cuja velocidade surpreendeu muitos no Líbano e com visão para superar as barreiras sectárias, o Hezbollah e seus partidos aliados derrubaram o governo Hariri, sem golpe, por medidas absolutamente previstas e autorizadas pela Constituição, e impuseram o início de consultas parlamentares para formar novo governo. Não foi golpe. O Hezbollah fez funcionar os mecanismos previstos pela Constituição e conseguiu converter sua minoria constitucional em maioria constitucional, e vice-versa.

TEXTO-MEIO

O Hezbollah é reconhecido por dar extrema atenção aos temas políticos, que são atentamente analisados dentro do partido; é reconhecido também pela agilidade e pela flexibilidade, quando o ritmo dos eventos exige.

Há duas semanas, quando o Partido da Resistência retirou seus 11 representantes no governo Hariri apoiado pelos EUA, o plano era indicar Omar Karami para substituir Hariri.

Karami foi duas vezes primeiro-ministro, é fortemente pró-Síria, apoia a Resistência e defende o direito de o Hezbollah conservar suas armas. Também jamais viu qualquer possibilidade de o Tribunal Especial para o Líbano conduzir investigações sérias, isentas de influências políticas; e também não aceita que aquele tribunal indicie, sem provas e com depoimentos de testemunhas reconhecidamente falsas, quatro, talvez mais, altos membros do Hezbollah, acusando-os de terem participado no atentado que matou Hariri-pai, então primeiro-ministro.  Já próximo dos 80 anos, Karami é ativo e teria assumido o posto, se indicado formalmente. De fato, chegou a pensar que já estava lá, mas na rápida sequência de eventos, o Hezbollah optou por outro nome, Nigib Mikati, sunita, bilionário, educado nos EUA, que enriqueceu nos negócios de telecomunicações e mais ainda quando vendeu sua empresa a um megaempreendedor da África do Sul. Mikati não é próximo do Hezbollah e com certeza jamais esteve entre seus aliados. De fato, o Hezbollah, os sauditas e cada vez mais os EUA apoiam Mikati porque é tecnocrata do Banco Mundial, mais ou menos como o ex-primeiro ministro do Líbano Fuad Siniora ou Salam Fayyad na Palestina, e todos esperam que trabalhem, não para ignorar, mas ajudar a limpar a impressionante e sempre crescente corrupção dentro dos seus respectivos governos. Makati, indicado pelo Hezbollah, é conhecido como homem de posições pró-ocidente, mas moderado, eleito deputado em 2009, na lista eleitoral de Hariri, apoiado pelos EUA. Os EUA o apoiariam declarada e abertamente, se não tivesse sido indicado, antes, pelo Hezbollah, com apoio de sírios e sauditas.

Alguns dos que se sentiram ou vencedores ou derrotados nas primeiras 48 horas depois do que o Movimento 14 de Março e o Departamento de Estado dos EUA ainda insistem em chamar de “o golpe”:

Saad Hariri e seu “Movimento Futuro” apoiado pelos EUA: São dois dos atores políticos mais claramente derrotados hoje, mas Saad Hariri ainda tem algumas alternativas importantes. Ao longo dos últimos quase dois anos, Saad Hariri ouviu, da Embaixada dos EUA, que Washington desejava que “se mantivesse firme” e não criticasse o Tribunal Especial para o Líbano.

Os EUA conceberam e construíram o Tribunal Especial dentro do Conselho de Segurança da ONU, para manter a Síria fora do Líbano e Bashar Assad fora de Damasco depois do assassinato, no Valentine Day de 2005, do primeiro-ministro Rafik Hariri e 22 outros mortos no mesmo atentado. Saad fez o que o mandaram fazer e isso, agora, custou-lhe o cargo de primeiro-ministro.

O Hezbollah advertiu-o várias vezes de que não seria mantido como primeiro-ministro, se não se manifestasse sobre o Tribunal Especial o qual, do ponto de vista do Hezbollah, jamais passou de embuste criado por EUA-Israel, para destruir a resistência no Líbano.

Quando a oposição parlamentar liderada pelo Hezbollah decidiu a favor do fim do Gabinete Hariri, dia 12/1/2011, Saad sabia que teria de lutar para conservar o emprego. “Mas foi traído pelos EUA e pelos sauditas que o apoiavam, além de alguns de seus amigos mais próximos e aliados políticos que também o traíram” – segundo fonte do Movimento Futuro.

Ambos, a Arábia Saudita e o governo Obama perceberam que Saad não receberia os 65 votos parlamentares necessários para manter-se como primeiro-ministro (e acertaram: Saad Hariri só teve 60 votos), e decidiram aceitar o nome indicado pela Síria, Nigab Maliki, amigo pessoal do presidente Bashar Assad. Omar Karami, embora escolhido como primeira opção, teve de ser trocado, porque também não obteria os 65 votos necessários à eleição e seu passado inclui contatos íntimos com o Irã. Os EUA e a Arábia Saudita decidiram que melhor ter a Síria outra vez com capacidade de influir no gabinete libanês, do que correr o risco de entregar todo o controle do governo diretamente ao Irã.

Saad Hariri sente-se, pois, traído pelo próprio Makati, membro de sua aliança de governo, eleito ao Parlamento em 2009 na lista eleitoral do próprio Saad Hariri. O encontro entre os dois ontem durou apenas 11 minutos e foi frio, gelado como pedra. Quando um jornalista perguntou a Hariri se trabalharia com o novo governo de Makati, Hariri respondeu: “E de que me servirá participar do novo governo?” Horas mais tarde, o Movimento 14 de Março informou Makati de que não participaria de seu governo. Mas é possível que Hariri e o 14 de Março mudem de ideia.

Os sauditas continuam insistindo com Saad Hariri, incitando-o a engolir o orgulho ferido e a cooperar com o próximo governo. Os EUA farão aproximadamente a mesma coisa, depois de superarem o susto e engolirem a pílula amarga: Jeffrey Feltman estará reunidos com líderes europeus, da França inclusive, nesse final de semana.

Hoje pela manhã, tudo faz crer que Saad Hariri continue inconsolável, depois de reunião privada, ontem à tarde, com a maternal embaixadora dos EUA, Maury Connelly. Repetiu hoje que não participará de governo “indicado pelo Hezbollah.” Mas seu grupo, o Movimento 14 de Março tenta obter alguma vantagem da desistência de Hariri e tenta forçar o primeiro-ministro designado Makati a assinar compromisso escrito de que seu governo, sob nenhuma circunstância aceitará a condição da “resposta dos três Não” que o Hezbollah está impondo [NT. o Hezbollah exige, como compromisso do novo governo, que o governo libanês (1) não continue e financiar o Tribunal Especial; (2) não forneça juízes para o Tribunal Especial; e (3) não continue a cooperar com o Tribunal Especial, cancelando o Memorando de Entendimento assinado entre a ONU e o Líbano, segundo o qual poderão ser presos e extraditados os indiciados pelo Tribunal Especial].

O grupo de Saad Hariri ainda insiste que o preço para que participem do novo governo é que o governo apoie o Tribunal Especial e passe a controlar as armas do Hezbollah. Já se sabe que nada conseguirão, porque em nenhum caso o Hezbollah aceitará essas exigências.

Se Saad Hariri ficar fora do governo de Maliki, tentará converter-se em paladino do Tribunal Especial, mas perderá apoio dentro do próprio Movimento 14 de Março, a cujos membros muito interessa assumir o controle de alguns dos bons empregos no Gabinete. O Movimento 14 de Março, via Fuad Siniora, líder do bloco no Parlamento, fala muito contra as armas do Hezbollah, mas está evidentemente tentando uma barganha da qual, no momento certo, espera obter bons postos no Gabinete e no governo.

O Movimento 14 de Março joga pesado, pela batura de Jeffrey Feltman, diplomata norte-americano, um dos arquitetos da “Revolução do Cedro”, em 2005, que faz essa semana sua 62ª visita à Região, para que todos sejam informados de que “o governo dos EUA respeita a soberania, a liberdade e a independência do Líbano”, embora ninguém saiba o que significariam essas palavras, se se analisa a atuação dos EUA na Região.

Ontem, em Paris, Feltman repetiu que “EUA e França persistem gravemente preocupados com o golpe que derrubou o governo Hariri, com ameaças e intimidação”. E insistiu em que os EUA e aliados devem pressionar para a imediata implementação das resoluções n. 1.701 do Conselho de Segurança (desarmar o Hezbollah) e 1.757 (indiciar e condenar o Hezbollah).

Jeff até poderia ser perdoado por sentir-se meio como Saeb Erekat quando, dia 21/10/2009, o hoje em breve ex-negociador “da paz”, da Autoridade Palestina, lamentou, em reunião com George Mitchell, que “A Região está escapando como grãos de areia entre nossos dedos”. Feltman, e não é a primeira vez, está sob forte pressão de Washington e Telavive para “fazer alguma coisa!”

Há muitos boatos, entre os quais que a Embaixada dos EUA seria fechada se, como se espera, os EUA e Israel lançarem campanha planetária de difamação contra o Líbano e o Hezbollah, para abrir caminho para que o Tribunal Especial divulgue os indiciamentos que Washington tem certeza de que incluirão altos comandantes do Hezbollah.

O Hezbollah tem controle pleno e direto sobre o governo libanês, inclusive no Parlamento, nos cerca de 30 votos no Gabinete e na burocracia. Ao contrário do que dizem EUA e Israel, o partido não está ‘excitado’ com a possibilidade de chegar ao governo. O Hezbollah vê-se como movimento de resistência, primeiramente, essencialmente e sempre; e muitos no partido não querem que esse “mandato limpo” seja contaminado pelas práticas nem sempre éticas e nem sempre limpas de um governo difícil como o do Líbano.

O Hezbollah trabalhará agora para implementar sua agenda de governo limpo e anticorrupção e dar àquela agenda a forma de leis, mas o partido prefere deixar a outros o trabalho sempre difícil de acomodar um vasto conjunto de seitas autocentradas e autorreferentes e seus líderes políticos. Em vasta medida, o Partido da Resistência operará através de deputados aliados, que não são membros do próprio Hezbollah. Há planos de começar a trabalhar imediatamente para aprofundar soluções para ‘as quatro grandes questões’ que todos os libaneses querem ver imediatamente equacionadas e resolvidas: água, eletricidade, poluição e tráfico, além de outras, como criar empregos e educar para a preservação do meio ambiente.

O Hezbollah quer ser visto como partido que também trabalha pelos pobres, ao mesmo tempo em que constroi o movimento de resistência. Prepara-se para abrir sua agenda legislativa doméstica, que incluirá quase todas as dez iniciativas “do bom governo” que Nabib Berri, presidente do Parlamento e aliado do Partido da Resistência entregou ontem a Makati.

O bloco de 12 membros do Hezbollah disse ao novo primeiro-ministro que favorece um governo de “parceria nacional”, nas palavras do deputado Mohammad Raad, que alertou a mídia: “O Hezbollah não impôs pré-condições [ao governo Mikati] e não aceitaremos qualquer imposição que se assemelhe a chantagem. Não pedimos cargos nem ministérios especiais e esperamos que transcorra normalmente o processo normal de formar novo governo.”

O Irã obteve os maiores ganhos políticos até aqui, porque continua a ganhar espaço para movimentar-se pela região, sempre com olhos na Palestina.

Os EUA continuam a perder espaço e prestígio na região, vistos cada vez mais, sobretudo depois da divulgação dos “Documentos da Palestina” [NT. informações vazadas a respeito das negociações secretas entre Israel e a Autoridade Palestina], como inimigos de árabes e muçulmanos.

TEXTO-FIM
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Franklin Lamb

Franklin Lamb é pesquisador na American University of Beirut.

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