No outro, o otimismo

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“Os Sopranos”: Tony é irresistível porque nos interessa o outro. Só precisamos ter coragem pra não deixar que o medo desse outro nos tiranize

Há algo singular no sucesso que a série “Os Sopranos” fez em todo o mundo. Ela revela o quanto somos atraídos pelos choques culturais e a antropofagia oswaldiana

Por Maria Bitarello

O comediante Hasan Minhaj, correspondente do The Daily Show, é filho de imigrantes indianos muçulmanos. Ele é a primeira geração americana do seu clã. E numa entrevista referiu-se a si próprio como “terceiro culturista”. Sua mãe e seu pai são a primeira cultura, a matriz – a Índia. A cultura americana é a segunda, a que recebe. E ele é a terceira cultura, a crioula. A soma de uma e outra, ou a mistura delas. Sua multiplicação, talvez. Enfim, gostei desse termo, “terceiro culturista”. Faz tempo que pensava sobre isso. Como brasileira e, portanto, mestiça. Como descendente de terceira geração de italianos. Como integrante, em primeira geração, de uma família brasileiro-americana. Como expatriada por um tempo na Europa. Como fã de quatro da série “Os Sopranos”.

Me explico. “Os Sopranos”, pra quem não conhece (!), foi uma série de televisão da HBO sobre uma família da máfia ítalo-americana de Nova Jersey. A ancestralidade italiana é pra eles um traço identitário incontornável, determinante. Eles só se relacionam entre si, em todos os níveis relacionais, têm maneirismos próprios na fala, discutem o negócio da famiglia em cantinas italianas e disputam o poder com outros clãs. Em certo episódio, Tony Soprano, o patriarca e protagonista interpretado pelo falecido James Gandolfini, vai à Itália fazer alguma transação escusa qualquer (esqueci o que). Esse é um dos grandes sonhos de muitos dessa comunidade de Nova Jersey da qual ele faz parte. Poucos já foram ao velho continente. São filhos da “colônia”.

Tony então viaja cheio de expectativas e ilusões que, como é da natureza das ilusões, são frustradas, logo na chegada. Ele não encontra ecos com a cultura “autêntica” (digamos assim, pra fins de clareza). E para os italianos “legítimos”, esses neo-italianos são grosseiros, cafonas, vulgares. Na Itália, ele não passou de um bronco mestiço e deslumbrado, um vira-latas – que, aliás, dizem ser a raça mais longeva e inteligente entre os cães. Enquanto isso, em Nova Jersey, ele é o cara, o chefe do crime organizado.

E nós com isso? Bem, tudo. Uma cultura quando migra, se reproduz, se multiplica vai se acrioulando. Vai se “terceiro aculturando”, pra usar o termo de Hasan Minhaj. Pra manter vivos traços não apenas fenotípicos da matriz, mas também hábitos e costumes, é preciso cultuar e alimentar uma mitologia baseada na “original”, se não tudo se perde. Pode ser através da comida, dos costumes familiares, do idioma, das vestimentas, da religião. Essa é uma angústia própria dos emigrados, a de manter acesa a tradição ancestral. Pertence a Tony, não aos italianos na Itália. Inevitavelmente, com o passar das gerações, o caminho das duas culturas se bifurca, elas se separam. Daí o desencontro que se escancara no velho mundo. Até ali, Tony e os italianos poderiam ser patrícios. Mas não o são.

TEXTO-MEIO

Me pego pensando muito sobre isso recentemente. Sobre esse deslocamento identitário do expatriado. Sobre essa mitologia alimentada pra sustentar uma origem cultural longínqua, no tempo e no espaço. E até sobre “Os Sopranos”, tipo a melhor série de todos os tempos (não é só a minha opinião, mas no fundo não passa de mais uma). Aqui, a escrever, descubro um misto de encantamento e susto, porque ao mesmo tempo em que é evidente que somos todos “terceiro culturistas”, que não existe o puro, o original, o legítimo, que a antropofagia é a lei do mundo; há tanto ódio, tanto medo do que é diferente, de tudo que soma, que pede diálogo.

Na linguística, língua viva é aquela que muda. O frescor e a inovação estão na língua crioula. Sabemos que a língua que pára, morre. Como aconteceu com o latim. Português, catalão, francês, espanhol, italiano, romeno: todas elas vieram do latim, mas do latim vulgar, aquele falado pelo povo, nas ruas, pelos soldados que ocupavam os países incorporados ao Império Romano. Era a língua da geral, da ralé. Não a de César. Do latim erudito hoje restam a escrita e as missas do Vaticano. De tão puro, morreu.

Talvez por ingenuidade, talvez por burrice, mas certamente estimulada pelo sucesso que “Os Sopranos” alcançaram no mundo todo, mantenho-me otimista com a humanidade. Continuo acreditando que, no fundo, Tony é irresistível pra todos nós porque nos interessa o outro. Só precisamos ter coragem pra não deixar que o medo desse outro nos tiranize.

TEXTO-FIM
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Maria Bitarello

Escritora, jornalista e tradutora. Mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro. Outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com

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