No Cairo, com milhões, antes do golpe

130704-Egito

Impressões de jornalista brasileira, às vésperas da queda de Mosri. Ela destaca: “austeridade” imposta pelo FMI destroçou apoio ao presidente

Por Carolina Linhares | Tradução: Gabriela Leite*

Os protestos de 30 de junho foram largamente anunciados nos muros de Cairo. Pôsteres convidavam as pessoas para tomar as ruas em protestos contra o governo de Mohamed Morsi, da Irmãdade Muçulmana, que completa um ano exatamente nesta data.

Enquanto isso, os turistas relaxavam e tomavam banho de sol em barcos que cruzam o Nilo, de Aswan para Luxor, sem ligar muito para a situação política do país. Mas era precisamente a falta deles uma das maiores indicações de que o governo não estava indo bem.

O turismo é uma das atividades econômicas mais importantes e emprega cerca de 80% da população das cidades de Aswan e Luxor, de acordo com o Hussien Abdelhamed, que trabalha como um guia na região. No país inteiro, 2,83 milhões de pessoas trabalham no ramo.

TEXTO-MEIO

Desde a revolução que derrubou a ditadura militar de Hosni Mubarak em 2011, a instabilidade política do Egito intimida turistas convencionais e deixa os famosos templos faraônicos muito mais vazios do que o comum. Na verdade, de cada oito barcos enfileirados e ancorados em Luxor, apenas dois estavam em operação. Os outros não tinham tripulação alguma.

“Os jovens não têm emprego e a diferença entre pobres e ricos é demasiadamente grande. Em um ano, Morsi não começou a fazer nada para melhorar nossa situação”, diz Abdelhamed.

Postos de gasolina em Luxor e Cairo tiveram uma grande fila e empurrões para conseguir combustível, que está faltando há dias. “Mais uma razão para protestarmos”, diz Abdelhamed. Certamente, os egípcios têm muitas.

Ainda falando sobre a economia, as medidas de austeridade foram impostas para garantir o empréstimo de 4,8 bilhões de dólares, feito pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A libra egípcia é seguidamente desvalorizada, e as reservas em moeda estrangeira são baixas.

Além disso, de acordo com a análise de Ahram Online, durante o primeiro ano de Morsi, o Egito encarou uma piora nas questões de direitos humanos e de acordo com o Financial Times, os assaltos à mão armada cresceram de 233 em 2010 para 2.807 em 2012. Há casos relatados de cidadãos que, diante da ausência da polícia, praticam por conta própria capturas e torturas de pessoas acusadas de roubo.

Com a promessa de grandes protestos pelo país, e a incerteza de o que está por vir nos próxiimos dias, a embaixada norte-americana removeu parte de seus funcionários e pediu às pessoas que evitassem viajar ao Egito. Existem cartazes no centro de Cairo e da Praça Tahir contra o governo dos EUA e acusando Morsi de agir de acordo com seus interesses.

Desde sexta-feira passada (20/7), a Praça Tahir está cheia de pessoas carregando bâneres e bandeiras vermelhas com as frases “saia”. “Revolução” e “Pão, Liberdade e Justiça Social” são outros gritos comum.

Os egípcios também acusam o governo de autoritarismo e pedem um governo secular, enquanto a Constituição, concluída em dezembro, suscitou o papel do Islamismo e foi apoiada por um referendo público.

No sábado, a Praça Tahir estava calada. Famílias e crianças levantaram bandeiras e alguns homens trabalharam como guardas de segurança, bloqueando a praça para a entrada de automóveis. No metrô, um manifestante colou um poster listando as empresas de posse da Irmãdade Muçulmana, pedindo boicote.

No domingo, a multidão encheu a praça e não havia nenhum relato de conflitos, apesar de, como é comum, já terem sido reportados trinta casos de assédio sexual, de acordo com o portal Ahram Online. O mais seguro para as manifestantes mulheres era estar nas ruas do centro, e até a um quiilometro de Tahir ainda era possível ouvir os gritos de protesto, buzinas e muitas pessoas caminhando, levando bandeiras e faixas.

Milhões de manifestantes também reuniram-se em frente ao palácio presidencial no distrito de Heliopolis. Perto do local, na cidade de Nasr, centenas de milhares de apoiadores do presidente estavam reunidos na Mesquita Rabaa Al-Adawiya.

No Cairo, duas pessoas foram mortas em um ataque às sedes da Irmãdade Muçulmanda, num subúrbio da capital. Em Alexandria, tumultos entre manifestantes anti e pró-governo deixaram oitenta feridos e um fotógrafo norte-americano foi morto. Em Beni Suef, uma pessoa foi morta; na cidade de Assuit, no Alto Egito, trẽs pessoas foram mortas e em Fayoum, um adolescente de 18 anos foi morto após ter levado um tiro na cabeça. O ministro da saúde egípcio diz que haviam 613 casos de feridos em Cairo, Alexandria, Daqahliya, Gharbiya, Menoufiya e Beheira Beni Suef.

O exército, que participou dos protestos contra Mubarak, avisou na segunda-feira (1º/7) que iria intervir novamente, se houvesse violência. Na verdade, algumas pessoas defendem o antigo governo militar, que pelo menos tinha controle sobre o país

Ao contrário da ditadura anterior, o governo de Morsi tem um grande número de apoiadores. Foi eleito democraticamente por uma diferença mínima: 51,7% contra 48,3% para Ahmed Shafik, o último primeiro ministro de Mubarak. Portanto, pessoas estão com medo de um surto de guerra civil no país.

Enquanto o grupo de oposição Taramond (Rebelião) dava até terça-feira para o presidente deixar o posto, a Presidência anunciou que está aberta a diálogo e lembrou que os protestos pacíficos são um direito garantido pela constituição.

Ninguém sabe o que vem a seguir, mas continuamos seguindo os capítulos da história do Egito, muito antigamente conhecida pelo grande império faraônico e pelo patrimônio monumental, e agora escrita nas ruas pelo povo.


* O texto original foi redigido pela autora em inglês

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.