Os negócios da China

Se houvesse eleições na China, ganhariam os comunistas. País cresce muito, mas tem muitos problemas. Novo governo conseguirá implementar mudanças?

Por Roberto Sávio, Other News | Tradução: Daniela Frabasile

Uma previsão recorrente dos políticos ocidentais diz que a China, com o crescimento econômico, se transformará inevitavelmente em uma democracia. No entanto, depois de cinco semanas de viagem pelo país, não tenho a menor dúvida de que, se houvesse eleições, o Partido Comunista Chinês (PCC) ganharia com ampla maioria.

A profunda influência do confucionismo, que exalta o respeito à autoridade e a obediência como fundamentos de uma sociedade harmoniosa, tem sido reforçada pela dramática experiência da Revolução Cultural (1966-1976), na qual toda a dissidência foi duramente reprimida. Uma sociedade profundamente feudal foi transformada, em 1949, em uma sociedade com absoluta igualdade e severa austeridade, para passar, em 1979, para uma fase de capitalismo galopante, sempre sob a direção do PCC, que manteve todo o poder neste processo de crescimento econômico acelerado.

Este sistema econômico é, fundamentalmente, uma importação de modelos ocidentais, e a ideia da democracia obviamente também entrou no país. Antes dessa virada, a reação dos jovens consistia em um total individualismo e um desenfreado consumismo. Segundo pesquisas recentes, as pessoas que se interessam por política não são mais que um milhão… em um país de 1,3 bilhão.

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Acrescente-se a isso o terror de que essa gigantesca sociedade comece a se dividir, quando a unidade é imprescindível para sustentar o crescimento. Graças ao fato de que, a cada ano, pelo menos 8 milhões de chineses saem da pobreza, o fracasso dos Objetivos de Desenvolvimento das Nações Unidas para o Milênio (reduzir a pobreza, aumentar a educação, melhorar a condição das mulheres etc.) parece menos estridente.

Na China, desde a primeira dinastia Qin (221 a.C.), os imperadores eram destituídos se falavam em suas funções como ponte entre a harmonia celeste e a terrestre, evidenciadas por escassez ou desastres naturais. O PCC obteve sua legitimidade de um processo de crescimento ímpar, que cria esperanças em cada cidadão de que seu nível de vida irá melhorar. Só se esse processo entrar em crise a legitimidade será questionada.

Esta é a base do governo do PCC e ao mesmo tempo é uma camisa de força. Para que continue a redução da pobreza, faz-se necessário um ritmo de crescimento anual de pelo menos 8%. Uma alavanca para atingi-lo é o chamado Capitalismo de Estado. A economia dos cidadãos colocada nos bancos recebe juros negativo; se por exemplo a inflação for de 6%, obtém-se apenas 3%. O Estado emprega a diferença para financiar obras de infraestrutura mediante créditos mais baratos a investidores que compartilharem os lucros com as estruturas estatais.

O processo é difícil de controlar. O governo havia destinado 448.900 hectares para construir estradas, ferrovias e outros projetos para 2011, mas as autoridades locais estão utilizando mais de um milhão. A terra na China é do Estado. As autoridades locais fazem acordos com investidores para financiar as obras públicas. Deste modo, as autoridades locais aumentam sua arrecadação e asseguram o cumprimento do Plano Quinquenal. Mas a terra arável diminui, desprezando milhares e milhares de camponeses em meio a uma grande corrupção.

Um problema fundamental é que o PCC atual é muito diferente do de Mao Tsé Tung. Em seu interior, coexistem várias posições e interesses regionais, e isso debilita seu controle sobre os poderes locais. Teoricamente, os quadros locais devem aplicar as decisões de Pequim, mas só o fazem quando lhes é conveniente. Esta é a razão do desastre ecológico que chegou a uma dimensão dramática, já que as normas não são seguidas e proliferam investimentos especulativos que agravam os problemas ambientais e de sustentabilidade.

O modelo de Capitalismo de Estado está criando mais problemas que soluções, segundo vários economistas chineses, que aconselham: reduzir a especulação, aumentar os empréstimos a pequenas e médias empresas, expandir o mercado interno, adotar uma política ambientalista firme, reduzir as desigualdades e aumentar os fundos para pesquisa e desenvolvimento, que são de apenas 1,2% do Produto Interno Bruto, em oposição a 2,5% que são investidos por outros países asiáticos. Com exceção de algumas empresas como Haier, primeiro produtor mundial de eletrodomésticos, Lenovo, em produção de computadores pessoais, e Huawei, em equipamentos de telecomunicações, a China até agora se aproveitou do baixo custo do trabalho para exportar mercadorias baratas. Com a crise dos mercados ocidentais e o encarecimento da mão de obra, este modelo de economia de exportação entrará em crise.

No entanto, em apenas três anos, a China se converteu no país líder em energia solar e eólica porque o Estado, alarmado pela deterioração ambiental causada pelo emprego excessivo de carbono, considerou-os setores estratégicos.

Portanto, a China tem a possibilidade de mudar de rumo, e o último Congresso do PCC indicou claramente que a classe política chinesa tem consciência do problema. Mas a passagem do capitalismo de Estado para um verdadeiro capitalismo, acompanhada de medidas para diminuir o déficit social, é politicamente arriscada. O governo atual está perto de concluir o mandato e um novo assumirá em 2012. Será que esse novo governo irá querer ou saber manejar uma reforma com implicações tão profundas?

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Roberto Sávio

Roberto Sávio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS) e publisher de Other News.