Nas finanças, a origem do declínio norte-americano

Ruínas industriais em Detroit

Ruínas industriais em Detroit. Financeirização e mudança na divisão internacional do trabalho, impedem economia americana de crescer e gerar renda para as camadas médias.

Para enfrentar desindustrialização e desigualdade, seria preciso reverter três décadas de favores à oligarquia financeira. É exatamente o que Trump não fará

Por Valéria Lopes Ribeiro

Em fins dos anos 1970, muitos analistas previam a derrocada da economia americana. as décadas seguintes, no entanto, foram marcadas pela reafirmação da supremacia dos Estados Unidos, com a manutenção de altas taxas de crescimento do país e o vitorioso enquadramento das potências concorrentes Alemanha e Japão. Tal “enquadramento” não foi força de expressão. Os EUA conseguiram fazer com que praticamente todos os países submetessem suas políticas econômicas à política monetária americana, obrigando-os a ajustes recessivos com consequências graves para a maioria das dinâmicas econômicas nacionais dos países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Sabe-se como as mudanças na política monetária americana na época resultaram nessa retomada vitoriosa da hegemonia. Em 1971, Nixon anuncia a Nova Política Econômica (NPE), acabando com o lastro do dólar, bloqueando transações americanas com ouro e estabelecendo, em 76 o fim do regime de Bretton Woods. Ainda assim a inflação interna e as baixas taxas de juros contribuíam para a permanência do déficit e da desconfiança em relação ao dólar. Foi então que, já em 1979, Paul Volcker, então presidente do FED, concluiu o processo de recuperação do papel do dólar como moeda internacional elevando os juros americanos, numa tentativa clara de atrair fundos para ativos denominados em dólar.

É preciso ressaltar que, ao lado dessas medidas no campo econômico, caminhava também um esforço claro por parte do governo americano de adoção de medidas no campo estratégico militar. Os programas armamentistas de alto conteúdo tecnológico, visando dobrar a União Soviética e exaurir a capacidade financeira desse país, foram medidas de grande importância para a recuperação da hegemonia americana.

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As consequências destas medidas, seja no campo monetário seja no campo estratégico-militar, foram de grande importância tanto para a reversão do risco de ruptura da supremacia americana, sobretudo após o término da Guerra Fria, como para a estrutura e dinâmica da economia mundial.

Quatro décadas depois de todo esse processo, em 2016, a vitória de Trump traz novamente as contradições e os problemas enfrentados pelos Estados Unidos.

Uma questão mais de fundo em toda essa discussão pode ser encontrada exatamente na forma como ainda nos anos 70 os Estados Unidos resolveram seus problemas e afirmaram sua hegemonia.

Naquele contexto, a supervalorização do dólar permitiu que o FED retomasse o controle do sistema bancário privado internacional, atraindo os capitais internacionais que haviam migrado para fora dos EUA. Com isso surge a conjuntura do déficit orçamentário e o crescimento exponencial do déficit comercial americano, o que, de fato, não representa nenhum problema, nem naquela época, nem hoje. A economia detentora da moeda de referência mundial não enfrenta limitações estruturais para o déficit comercial, essa é a grande jogada do padrão dólar flexível.

Mas, ainda assim, esta mesma medida alterou profundamente o contexto a partir do qual a supremacia passaria a ser mantida a partir daquele momento, em dois sentidos fundamentais:

Primeiro: o fim do regime de Bretton Woods e o padrão dólar flexível são as bases fundantes da expansão da globalização financeira. Segundo: a política de sobrevalorização do dólar e a estratégia de “importar barato” é a base do deslocamento da produção manufatureira, principalmente para a região asiática.

Estes dois sentidos estão nas raízes dos problemas estruturais americanos hoje.

A criação de um ambiente fortemente propício à expansão financeira criou na economia americana e também no mundo um amplo movimento de alavancagem no mercado de capitais. Surgiram diversos instrumentos financeiros para os quais fluiu o núcleo da riqueza nos EUA e também do resto do mundo, em detrimento da produção e da indústria. Nos anos 90 foi o presidente Bill Clinton quem estimulou ainda mais esse processo, com a desregulamentação do mercado financeiro que beneficiou e vem beneficiando apenas os 1% mais ricos.

A crise de 2008 é o ápice deste processo, por meio qual desregulamentou-se completamente o mercado financeiro, gerando uma bolha especulativa cujas consequências estão sendo pagas por todos até hoje. A crise de 2008 também é o reflexo da dificuldade da economia americana em gerar riqueza através de ganhos salariais e do trabalho, o que resultou na expansão do crédito às famílias com baixíssimos rendimentos, criando as bases para o crash da bolsa.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, na China, tudo mudava justamente a partir daquele segundo sentido que sustentou a hegemonia americana: a política do dólar forte e o deslocamento da produção manufatureira para a Ásia.

Ao contrário das economias latino-americanas, a China não seguiu a orientação neoliberal. Abriu sua economia de forma gradual e sob amplo controle do Estado. Atraiu investimentos diretos e, com política industrial e de investimento público fortes inseriu-se como produtora de artigos manufaturados para o mundo, ampliando o nível de emprego, dinamizando também o mercado doméstico e retirando milhões de pessoas da pobreza, rumo à urbanização. Esta dinâmica não poderia se dar sem o convite das empresas multinacionais e dos Estados — Japão e, sobretudo EUA — tendo como contrapartida não somente os mercados de demanda e oferta de bens, mas também o financiamento do governo e do balanço de pagamentos através, dentre outros, das amplas reservas acumuladas pelo Estado chinês.

Assim, percebe-se que a reafirmação da hegemonia americana, ainda no final do século XX, permitiu aos Estados Unidos manter o dólar como moeda mundial, sua liderança no campo militar e ainda na produção de alta tecnologia de alto valor agregado.

Mas a partir da crise de 2008, quando o país vem crescendo a taxas baixas, as contradições mais profundas aparecem de forma cada vez mais evidente. A forte financeirização e todos seus malefícios em termos de concentração de renda, aliada à mudança na divisão internacional do trabalho, faz com que a economia americana não consiga crescer e gerar renda para as camadas médias, nem de sustentar o sonho americano de ascensão e riqueza. Mais além, o baixo crescimento, com desemprego e inflação remontam à estagflação dos anos 70, condições materiais que ciclicamente voltam a acirrar o conflito distributivo. A classe média americana — a mais prejudicada de todo esse processo —  foi exatamente o grupo que garantiu a eleição de Trump.

Além de todas as notícias tristes em torno da nova era Trump — ascensão do nacionalismo, da xenofobia e do preconceito — resta a certeza de que será muito difícil para o novo presidente superar todas essas contradições e expandir o volume de emprego e renda para a população. Assim como sua oponente, ele não  parece disposto a enfrentar a concentração de renda e a acumulação financeira. Nenhum dos dois poderia enfrentar a China, dada a complexa complementaridade das duas economias hoje, em termos comerciais e financeiros.

Desde uma perspectiva mais realista, nada leva a crer que os Estados Unidos adotarão agora, 40 anos depois, uma estratégia conciliatória para superar suas contradições internas e externas, que estão na raíz da própria hegemonia na economia política mundial mantida nos anos 70.

 

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Valéria Lopes Ribeiro

Valéria Lopes Ribeiro é professora Adjunta do Bacharelado em Relações Internacionais da UFABC

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