Na disputa pelo Oscar, dois filmes desiguais

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Em “Carol”, delicadeza da fotografia e efeitos cromáticos incomuns realçam solidão do indivíduo no cenário urbano. Já “A Grande Aposta” pouco informa, entretém ou emociona

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Dois “filmes do Oscar”, ambos perfeitamente assistíveis, nenhum deles plenamente satisfatório, ao menos para mim: Carol, de Todd Haynes, e A grande aposta, de Adam McKay. Comecemos por Carol.

A história, baseada no romance O preço do sal, de Patricia Highsmith, e ambientada na Nova York da virada dos anos 1940 para os 50, tem algo de déjà vu: o envolvimento amoroso entre uma ricaça casada e mãe (Cate Blanchett, luminosa como sempre) e uma jovem vendedora de loja e aspirante a fotógrafa (Rooney Mara).

Toda a tensão dramática provém do descompasso entre esse amor e o mundo ordenado e coercitivo em que ele se desenvolve, no qual os papeis sexuais e sociais têm uma definição precisa. Uma breve alusão, logo no início, ao Comitê de Atividades Antiamericanas faz a ponte entre a paranoia anticomunista do macarthismo e a defesa feroz da tradicional família americana.

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O divórcio social se traduz de forma aguda no iminente divórcio particular entre Carol, a burguesa casada, e seu marido rico (Kyle Chandler), conservador e autoritário como convinha a um chefe de família de sua classe. No centro do conflito, a filhinha do casal.

Estética do descompasso

O que eleva o filme do mero melodrama militante a uma outra coisa é, justamente, sua estética. A delicadeza e a elegância da direção de arte e da fotografia, muito mais do que cumprir um papel decorativo, de embelezamento, criam uma atmosfera que constitui a obra e a justifica. Uma atmosfera ao mesmo tempo suave e pungente.

Falou-se da proximidade estética do filme com a pintura de Edward Hopper, e o próprio diretor de fotografia Edward Lachman disse que sua principal referência foi o fotógrafo de imagens fixas Saul Leiter (1923-2013), um pioneiro no uso estético da cor na captação de cenas urbanas. Vidros molhados ou embaçados pelo vapor, reflexos, luz refratada ou oblíqua, tudo isso aparece, com forte efeito emocional, nas fotos de Leiter – e no filme de Todd Haynes.

A aproximação com Hopper se dá não apenas em termos puramente cromáticos (as cores esmaecidas, em que a emergência pontual de um vermelho ou um amarelo adquire pungência dramática), mas sobretudo na ambiência de aquário, na atmosfera melancólica que acentua o escoar do tempo e a solidão do indivíduo no cenário urbano. Um desacerto análogo ao que as protagonistas experimentam com seu tempo e lugar.

O subtema da fotografia, atividade que a jovem amante pratica lindamente diante dos nossos olhos, assume eventualmente o primeiro plano; fundo e figura se confundem.

Mas é um filme que se presta a leituras equivocadas ou frustrantes. O admirador de filmes anteriores de Todd Haynes, como Velvet goldmine e Não estou lá, em que era mais evidente a inquietação criadora – e provocadora – do diretor, podem ver em Carol uma rendição ao cinema mainstream. O espectador mais ingênuo ou desatento pode considerá-lo apenas mais um melodrama (exangue, amortecido) sobre “o amor que não ousa dizer seu nome”. Paciência. Um filme é tantos filmes quantos são seus espectadores.

A grande aposta e o MacGuffin

Filmes sobre o mundo intrincado da especulação financeira já formam quase um gênero à parte no cinema norte-americano, engendrando desde melodramas maniqueístas como Wall Street, de Oliver Stone, até um ensaio sobre a insanidade e o vício do dinheiro como O lobo de Wall Street, de Scorsese.

Em casos assim, geralmente os meandros do mercado e seu incompreensível funcionamento são, no fundo, meros pretextos, gatilhos para o desenvolvimento dramático e o delineamento dos personagens. Aquilo, em suma, que Hitchcock chamava de MacGuffin. Para quem não conhece o conceito, aqui vai a explicação que o cineasta deu numa palestra de 1939: “Poderia ser um nome escocês, tirado de uma história sobre dois homens num trem. Um deles diz: ‘O que é esse embrulho no bagageiro?’ O outro responde: ‘Ah, é um MacGuffin’. O primeiro pergunta: ‘O que é um MacGuffin?’ ‘Bem’, diz o outro homem, ‘é um aparelho para aprisionar leões no norte da Escócia’. O primeiro homem diz: ‘Mas não há leões no norte da Escócia’, e o outro replica: ‘Bom, então não é um MacGuffin’. Ou seja, um MacGuffin não é coisa alguma.”

Fecha parêntese. Em A grande aposta, ao contrário, a artificial bolha imobiliária que estourou nos Estados Unidos em 2008, desencadeando uma crise econômica internacional, não é mero MacGuffin, pois boa parte da narrativa do filme busca explicar o que estava acontecendo no mercado, e os personagens praticamente só falam e agem em função disso.

É inevitável que o espectador leigo no assunto, como eu, se perca um pouco naquele cipoal de hipotecas, ISDA, CDOs etc. O que fica disso tudo é que alguns visionários perceberam antes de todo mundo que o castelo de cartas da especulação imobiliária estava prestes a desmoronar. Destacam-se, entre eles, os consultores de investimentos (ou seja lá como se chama o que fazem) Michael Burry (Christian Bale) e Mark Baum (Steve Carell), cada um no seu canto, sem conhecer as investigações do outro.

Heróis ambíguos

São personagens que você já conhece de outros filmes, sejam eles policiais ou aventuras de ficção científica: aqueles outsiders, vistos como esquisitos, frequentemente escarnecidos por suas ideias heterodoxas, e que no fim provam estar certos.

As “novidades” nesse aspecto são duas. Primeiro, trata-se de personagens ambíguos, que ao mesmo tempo desejam alertar para o desastre e tirar proveito dele. Segundo, sua clarividência não conduz a um final feliz, uma vez que o sistema político-financeiro absorve a crise de maneira a fazer os pobres pagarem a conta, como sempre. (E aqui não se trata de nenhum spoiler, ao menos para quem sabe minimamente o que se passou neste planeta nos últimos anos.)

Outra característica distintiva de A grande aposta é sua mistura de ensaio e ficção, que se converte em metalinguagem quando algum personagem – em especial o cínico investidor Jarred Vennett (Ryan Gosling), do Deutsche Bank – fala diretamente para a câmera comentando a ação ou o que está por trás dela. Não se trata propriamente de uma novidade, se lembrarmos a introdução didática de Cassino e as interpelações do personagem de DiCaprio aos espectadores em O lobo de Wall Street, ambos de Scorsese.

Nada disso, em si, é um problema, nem tampouco uma solução. A questão, a meu ver, é que a articulação entre essas várias instâncias – a radiografia da crise, a crítica ao sistema, o drama dos personagens – nem sempre se dá de forma orgânica, isto é, de modo a entreter, informar e emocionar o público. Pelo menos comigo isso não aconteceu. As histórias pessoais de personagens como Burry e Baum soam como ganchos dramáticos artificiais e frágeis. E confesso que, em termos de compreensão do mercado financeiro, saí do cinema quase tão obtuso quanto entrei. Mas isso, claro, é um problema meu.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.