Mundo cão e a barbárie à espreita

filme

Previsível demais às vezes, inovador em certos momentos, filme de Marcos Jorge é permeado por nosso tempo, em que parece por um triz a crosta que nos chamamos de civilização

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

No Brasil e no mundo, vivemos tempos ferozes. A animalidade do homem parece estar à flor da pele, prestes a romper, por um nada, a fina crosta de civilização que nos separa da barbárie. Deliberadamente ou não, esse “espírito do tempo” permeia o drama policial Mundo cão, de Marcos Jorge.

Políticos, jornalistas e jogadores de futebol são frequentemente alcunhados (como xingamento ou elogio) de pitbulls ou rottweilers por conta de sua agressividade. No cinema, de Cão branco (1982), de Samuel Fuller, a Amores brutos (2000), de Alejandro Iñárritu, cães raivosos aparecem de quando em quando como signos de loucura e ódio cego.

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O cão como arma

No filme de Marcos Jorge (o diretor de Estômago Corpos celestes), ambientado em São Paulo, os dois personagens que o acaso colocará em confronto têm em comum o universo canino. Um deles, Santana (Babu Santana), trabalha no serviço de controle de zoonoses, recolhendo cães da rua para um canil da prefeitura. O outro, Nenê (Lázaro Ramos), um bandido com obscuras relações com a polícia, cria rottweilers e dobermanns para intimidar e ocasionalmente estraçalhar inimigos.

Embora a narrativa acompanhe ora um, ora o outro, somos levados nitidamente a uma identificação com o personagem de Santana, mostrado como simpático pai de família, torcedor do Corinthians e baterista amador nas horas vagas. É em torno de seu núcleo familiar – a mulher evangélica (Adriana Esteves), o filho criança (Vini Carvalho) e a filha adolescente (Thainá Duarte) – que se desenvolverá o suspense do filme.

Dentro dessa estrutura dramática, digamos, clássica (a família “do bem” ameaçada pelo mal), que em alguns momentos faz lembrar Cabo do medo, de Scorsese, o diretor Marcos Jorge insere porém uma série de surpresas e modulações originais.

O jogo no Pacaembu é uma delas, com direito a um plano de grua que é quase o inverso exato do célebre plano-sequência do estádio de futebol em O segredo dos seus olhos: no filme argentino, parte-se de uma tomada aérea de conjunto para centrar o foco nos personagens na arquibancada; em Mundo cão, abre-se dos personagens para o estádio, com o recuo da câmera. A concepção da cena é melhor que sua realização técnica: quando se mostra o terreno de jogo em plano geral, percebe-se claramente que se trata de um campo virtual, como de videogame.

Alguns diálogos, filmados num campo/contracampo convencional, enfraquecem um tanto o filme. Por exemplo: na cabine da “carrocinha” da prefeitura, logo no início, a conversa entre os três colegas de trabalho explicita de modo desnecessário o tema civilização x barbárie a que aludi acima, atualizando-o para as discussões vigentes sobre “como lidar com os bandidos” e coisas do tipo.

Sutilezas do som

Quando se entrega à narração sem palavras, meramente por imagens e ruídos, Mundo cão cresce sensivelmente, conduzido pela câmera desenvolta de Toca Seabra (diretor de fotografia de O invasor Estômago, entre outros). Pelo fato de uma personagem importante ser surda-muda, o trabalho com o som é sutil e decisivo. A ideia do estúdio com isolamento acústico improvisado em que Santana se exercita na bateria é muito bem utilizada.

No mais, o melodrama familiar, que por vezes parece prestes a descambar, é ironizado e matizado por algumas inversões imprevistas. Tudo é imantado por uma tensão que se desloca entre os personagens, concentrando-se ora num ora em outro, cada um deles flagrado em seus momentos de dúvida e solidão.

No conjunto, com todas as suas eventuais irregularidades, Mundo cão é um digno exemplar de uma vertente de longas-metragens brasileiros que vêm trafegando na fronteira entre o cinema de gênero e o “filme de autor”, de que fazem parte O lobo atrás da porta, de Fernando Coimbra, Quando eu era vivo, de Marco Dutra, e os ainda inéditos no circuito Mate-me por favor, de Anita Rocha da Silveira, e Para minha amada morta, de Aly Muritiba.

Faltou dizer que o elenco principal está perfeito e que a trilha musical é excelente.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.