Morte aos que pedem paz

Movimento pelo fim da guerra ao narcotráfico no México passa a ser afetado pelo mesmo mal que lhe originou — a violência

Por Tadeu Breda*
@tadeubreda

Pelo menos três integrantes do Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade, que pede o fim da guerra ao narcotráfico no México, foram executados nos últimos três meses. O caso mais recente aconteceu na terça-feira (6), quando sujeitos encapuzados sequestraram e mataram o líder comunitário Trinidad de la Cruz Crisóforo. Poucos dias antes, em 28 de novembro, a violência já havia batido às portas de Nepomuceno Moreno Muñoz. E, em outubro, caía a primeira vítima dos pistoleiros entre os pacifistas: Pedro Leyva, encurralado no dia 7.

Dos três assassinatos, um aconteceu no Estado de Sonora, no norte do país, onde vivia Nepomuceno. Don Nepo, como era conhecido, tinha 56 anos e ingressara no Movimento pela Paz para denunciar o desaparecimento de cinco jovens, entre eles seu filho, cujo paradeiro está desconhecido desde julho de 2010. Nepomuceno participou das caravanas que percorreram o país de norte a sul para denunciar o aviltante número de mortes em decorrência dos enfrentamentos — já passam de 50 mil — e exigir o fim da militarização do país.

Embora a polícia tivesse se mostrado negligente em investigar o rapto de seu filho, Don Nepo havia descoberto fortes evidências de que membros da própria polícia haviam sido os autores do sequestro. E fez públicas suas suspeitas. Por isso, passou a ser ameaçado. Quando integrou a mesa de diálogo entre as vítimas da guerra e o presidente Felipe Calderón, em 14 de outubro, alertou pessoalmente o chefe de Estado de que estava jurado de morte. Pediu-lhe proteção, porque só o que estava fazendo era buscar alguma pista que esclarecesse o sumiço repentino de seu filho. Não adiantou. Enquanto dirigia seu carro no centro da cidade de Hermosillo, um veículo emparelhou com Don Nepo e, lá de dentro, uma rajada de tiros foi disparada. No chão foram encontrados sete cápsulas calibre 40 milímetros.

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As outras duas execuções aconteceram no Estado de Michoacán, que fica na região central do país, banhado pelo Oceano Pacífico. Lá pereceram Pedro Leyva e Trinidad de la Cruz. Não por coincidência, ambos atuavam como líderes da comunidade de Xayakala, habitada por indígenas da etnia náhuatl e seus descendentes. Don Pedro, como era conhecido, comandava a polícia comunitária local — instituição bastante comum no interior do México, sobretudo em localidades de maioria indígena. Foi assassinado a queima roupa dentro de casa, pelo próprio primo, que havia recebido a seguinte proposta: ou matava seu parente distante ou teria os quatro filhos executados.

Quando foi atingido, Don Pedro se preparava para integrar o diálogo com o presidente Felipe Calderón, que aconteceria apenas uma semana depois. Foi o mesmo encontro em que esteve presente Don Nepo, o mesmo em que pediu a proteção do Estado contra as ameaças que vinha sofrendo.

A última vítima da violência dirigida aos membros do Movimento pela Paz também vivia em Xayakala. O corpo de Trinidad de la Cruz foi encontrado nesta quarta-feira (7) no município de Aquila, a poucos quilômetros de onde fora raptado. O assassinato de Don Trino, como era conhecido, coincidiu com a realização — e o de Don Pedro, com a convocação — de um plebiscito em que os moradores de Xayakala deveriam decidir se permaneceriam em suas terras ou deixariam o local em troca de indenizações. O local sofre forte pressão econômica de conglomerados empresariais turísticos e de mineração, mexicanos e estrangeiros. Sem contar o acosso dos cartéis da droga, que disputam a região devido à sua localização geográfica — mar e montanha, próxima à capital.

Aqui duas lutas sociais se misturam: o Movimento pela Paz, mais recente, e a centenária resistência dos povos indígenas e camponeses para fazer cumprir os títulos fundiários (ou cédulas reais) que lhes foram outorgados pela Coroa espanhola ainda durante a época da colonização. Mesmo em posse dos documentos, muitas comunidades foram, pouco a pouco, despojadas de suas terras. Até que resolveram reagir e recuperar o que sempre foi seu por uso e costume — e que também é seu por direito.

O analista Jaime Avilés escreveu no diário mexicano La Jornada que a resistência do povo de Santa María Ostula — onde se localiza Xayakala — já provocou 26 assassinatos desde 1967, quando a situação começou a se agravar. Foi devido à escalada de violência, atesta Avilés, que os moradores locais resolveram criar uma polícia comunitária. Com o tempo, a milícia popular mostrou-se eficaz também para dificultar a ação dos narcotraficantes na região.

“Os motivadores do plebiscito são as famílias Fox [do ex-presidente Vicente Fox, sucessor e aliado de Calderón], Bribiesca e os empresários hoteleiros espanhóis, assim como empresas de mineração, que planejam construir um ferroduto, ou seja, uma tubulação para transportar o ferro das montanhas de Jalisco até Xayakala, onde pretendem instalar um porto de grande calado e, assim, exportar o metal para a China, que está logo ali, do outro lado do Pacífico”, explica.

As palavras de Jaime Avilés ganham força porque, três dias antes do sequestro e morte de Trinidad de la Cruz Crisóforo, o analista já previa que mais sangue correria em Michoacán por causa da consulta pública. “Quando, desesperados pela violência dos cartéis e de todos os endinheirados com interesses na região, os dirigentes de Ostula foram a Morelia, capital de Michoacán, pedir ajuda ao governador, este se desculpou, envergonhado, dizendo que não poderia fazer nada”, escreveu Avilés. “Então solicitaram ajuda da Marinha e do Exército. Nada mudou, mas o risco de que a realização do plebiscito provoque uma nova onda de assassinatos persiste, e as autoridades têm a obrigação legal de evitá-la.”

Não evitaram. O Movimento pela Paz, que havia mandado representantes para observar a realização do plebiscito em Xayakala, publicou uma nota de repúdio ao mais recente atentado contra seus integrantes. O documento afirma que os assassinatos “demonstram a falta de implementação das medidas recomendadas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e, com isso, a falta de compromisso do Estado em proteger os defensores e defensoras dos direitos humanos, o que nos preocupa ainda mais devido ao clima de violência generalizada e à emergência nacional que vivemos no país”.

Além de Don Trino, Don Nepo e Don Pedro, pelo menos outras duas pessoas que lutavam por justiça e dignidade foram brutalmente assassinadas em dezembro de 2010 e fevereiro de 2011. Não são contabilizadas como membros do Movimento pela Paz porque, naquele então, a organização ainda não existia como tal. Foi só em março, com a morte de Juan Francisco Sicilia, filho do poeta Javier Sicilia, que toda a indignação dispersa pelo país — e o cansaço com a guerra — reuniu-se e institucionalizou-se. A luta dos “pais órfãos de filhos”, porém, começou junto com a militarização do país.

Marisela Escobedo talvez seja o maior símbolo do desespero que vivem familiares e amigos dos mais de 50 mil mortos pelo enfrentamento entre narcotráfico, polícia e forças armadas. Seu caso é escandaloso. Marisela foi executada em frente ao palácio de governo do Estado de Chihuahua, norte do México, quando tentava pendurar um cartaz em protesto à impunidade que recaiu sobre o assassino de sua filha, Rubí, morta em 2008, aos 16 anos. Diante das repetidas negativas da polícia em elucidar o caso, Marisela havia investigado o crime sozinha. Como Don Nepo, estava sendo ameaçada e havia pedido proteção policial. Disse que, diante da injustiça, só descansaria se a matassem — o que aconteceu no dia 16 de dezembro, em plena luz do dia, descaradamente, nas barbas do poder público.

Dois meses depois, no Estado de Durango, seria a vez do empresário Leopoldo Valenzuela ser executado. Don Polo havia visto seu filho ser sequestrado por criminosos. Ao receber o pedido de resgate, seguiu as instruções dos sequestradores e não denunciou o caso à polícia. Pagou a quantia exigida pela quadrilha, porém os bandidos não entregaram seu filho. Leopoldo, então, resolveu denunciar o crime às autoridades. E, assim como Marisela, deparou-se com uma enorme passividade. Mas não desisitu. Correu atrás das evidências e detectou algumas irregularidades na investigação.

Então decidiu ir a público. “Durante várias semanas”, diz o jornal La Jornada, “o empresário falou sobre sua inconformidade com o governador Jorge Herrera Caldera, criticou o desempenho da polícia e sugeriu que havia cumplicidade” com o sequestradores. Como resultado, no dia 6 de fevereiro um grupo entrou em seu estabelecimento e tentou raptá-lo, como haviam feito com seu filho. Don Polo resistiu e foi executado.

Não é a toa que, no final de novembro, a Corte Penal Internacional, com sede em Haia, na Holanda, recebeu uma denúncia contra o governo mexicano por crimes de guerra e de lesa-humanidade perpetrados pelo governo Felipe Calderón e pelos chefes do narcotráfico (como Joaquín Guzmán Loera, conhecido como El Chapo, que dirige o cartel de Sinaloa) no contexto da guerra contra as drogas. Mais de 23 mil pessoas assinam o documento, que é a maior ação civil recebida pela Corte em toda sua história.

O advogado mexicano Netzaí Sandoval, um dos autores da petição, disse ao jornal espanhol El País que o clima no México é de impunidade absoluta. “Nem a guerra dos Estados Unidos contra o Afeganistão provocou tantas mortes. O Estado mexicano assume que é legítimo assassinar criminosos e utiliza o exército para cumprir funções policiais”, explica. “Os cartéis, por outro lado, aproveitam os vazios de um sistema legal que ignora os crimes de guerra ou de lesa-humanidade.”

A oito meses do pleito presidencial, Felipe Calderón incluiu em seus discursos a seguinte frase: “A violência está colocando em risco a democracia mexicana.” É curioso ouvir tal afirmação da boca de alguém que assumiu o poder após vencer umas eleições sobrecarregadas de indícios fraudulentos. Mas Calderón não é o único a adotar o bordão. José Luís Vargas Valdez, titular da Promotoria Especializada em Delitos Eleitorais, também afirmou que “a violência é a maior ameaça para a democracia no México”.

Cabe perguntar — como faz a articulista Magdalena Gómez, no La Jornada — se o presidente esqueceu ou pretende esquecer que a mortandade é resultado direto de sua principal política de governo.

(*) Tadeu Breda é autor do livro O Equador é Verde — Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento (Editora Elefante)

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Tadeu Breda

Tadeu Breda, jornalista, é autor de Memória Ocular (2016) e O Equador é verde: Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento (2011), ambos publicados pela Editora Elefante.