Luta de classes no Egito

Por Juan Cole, do Informed Comment | Tradução: Bruno Cava

Na manhã de domingo, havia algum sinal das Forças Armadas do Egito assumindo responsabilidades de segurança. Soldados começaram a prender saquadores suspeitos, enquadrando 450 deles. O desaparecimento da polícia das ruas levou à ameaça de saque generalizado, o que virou preocupação dos militares. Outros métodos de controle foram usados. O governo fechou definitivamente os escritórios da Al-Jazeera em Cairo e cancelou a licença dos jornalistas de reportar as histórias, de acordo com tuítes (Al-Jazeera não estava conseguindo transmitir direto do Cairo inclusive antes desta manobra). O canal, baseado no Qatar, é visto pelo presidente Hosni Mubarak como uma tentativa de solapá-lo.

Por que o estado egípcio perdeu a sua legitimidade? Max Weber distinguia entre poder e autoridade. O poder sai do cano de uma arma, e o estado egípcio tem muitas delas. Porém Weber define autoridade como a probabilidade de o comando ser obedecido. Líderes que têm autoridade não precisam atirar nas pessoas. O regime de Mubarak teve de atirar em menos 100 pessoas nos últimos dias, e feriu outras mais. Literalmente, centenas de milhares de pessoas ignoraram o comando de Mubarak para respeitar o toque de recolher. Ele perdeu a sua autoridade.

A autoridade enraíza-se na legitimidade. Líderes são reconhecidos porque as pessoas consentem que existe uma base legítima de sua autoridade e poder. Em países democráticos, essa legitimidade vem da urna eleitoral. No Egito, derivou do papel de liderança das forças militares do Egito, entre 1952 e 1970, em livrá-lo da hegemonia ocidental.

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Essa luta incluía disputar com o Reino Unido o controle sobre o Canal de Suez (originalmente construído pelo governo egípcio e aberto em 1869, mas comprado a preço de banana em 1875 com manobras prévias do sistema financeiro para endividar o país e levá-lo à bancarrota, forçando a operação de venda). Também envolveu aparar tentativas agressivas de Israel em ocupar a Península do Sinai e afirmar influência sobre o Canal de Suez. O líder nacionalista árabe revolucionário Gamal Abdel Nasser conduziu uma reforma agrária extensiva, rompendo com o imenso sistema de hacienda típico da América Central e criando uma classemédia rural. Leonard Binder argumenta que no final dos 1960 essa classemédia rural foi a espinha dorsal do regime de Nasser. O líder nacionalista também implementou, pela via do estado, uma industrialização, que produziu uma classemédia urbana, beneficiada pelas grandes obras de construção civil comissionadas pelo governo.

Desde 1970, Anwar El Sadat levou o Egito numa nova direção, abrindo a economia e se colocando lado a lado com a nova classe de empresários multimilionários. Esta, por sua vez, era ávida por investimentos europeus e americanos. Cansada das guerras infrutíferas entre árabes e israelenses, o povo egípcio era extensivamente simpático ao acordo de paz de 1978, que Sadat firmou com Israel e encerrou o ciclo de guerras. Isto pavimentou o caminho para o desenvolvimento da indústria turística do Egito e para o investimento ocidental, bem como para o começo da ajuda financeira dos Estados Unidos e Europa. Egito movia-se à direita.

Mas enquanto as políticas socialistas de Nasser levaram à duplicação da renda média real no Egito entre 1960 a 1970, de 1970 a 2000 não houve desenvolviment substantivo no país. Parte do problema é a demografia. Se a população cresce 3% ao ano e a economia cresce 3% ao ano, a renda per capita fica estagnada. Desde 1850, Egito e a maior parte dos países do Oriente Médio tiveram um (misterioso) boom populacional. A sempre-crescente população também aumentou a sua concentração nas cidades, onde se oferecem salários mais altos do que no campo, mesmo que sejam na economia informal (ex: vender fósforos). Cerca da metade dos egípcios vivem agora nas cidades, e mesmo diversas vilas se tornaram subúrbios das vastas metrópoles.

Assim, a classemédia rural, conquanto importante, não é mais um apoio de peso ao regime. Um governo de sucesso precisa contar com os números crescentes da população urbana a seu lado. Mas aí, as políticas neoliberais, impostas a Mubarak pelos Estados Unidos desde 1981, não ajudaram. As cidades egípcias sofrem de alto desemprego e relativamente elevada inflação. O setor urbano foi apropriado por uns poucos multimilionários. Muitos trabalhadores ficaram pra trás. O número enorme de graduados do ensino médio e superior produzidos pelo sistema raramente acham emprego à altura de sua formação, ou então não conseguem qualquer tipo de emprego. O Egito urbano tem ricos e pobres mas uma pequena classemédia. O estado cuidadosamente tenta controlar os sindicatos, que poucas vezes conseguem agir de modo independente.

O estado paulatinamente se tornou um estado de poucos. A velha base nas classemédias rurais rapidamente decaiu, na medida em que os jovens mudaram-se para as cidades. Pouco era feito em benefício das classes trabalhadoras e classemédias urbanas. Um estado com uma classe ostentatória de empresários emergiu, profundamente dependente dos contratos públicos e da boa vontade do estado, classe que se reúne em hotéis turísticos suntuosos. Mas as massas de graduados no ensino médio e superior ficaram relegadas a dirigir táxis ou vender tapetes e não se beneficiavam as taxas de crescimento oficiais da década passada.

O regime militar no Egito inicialmente tinha legitimidade popular, em parte por seu sucesso em conter França, Reino Unido e Israel em 1956 e 1957 (com a ajuda de Ike Eisenhower).  Depois dos acordos de Camp David, ao revés, Egito se retirou das grandes lutas do Oriente Médio, e realizou o que se conhece por “paz separada”. A cooperação do Egito com o bloqueio de Gaza pelo exército israelense e a quieta aliança com os Estados Unidos e Israel irritaram politicamente a maioria dos jovens, ainda mais por sentirem as frustrações com a economia. Nos bastidores, é bem sabido que Cairo ajudou os Estados Unidos no Iraque e com suspeitos da al-Qaeda torturados. Pouca coisa é tão desgostosa aos egípcios do que a Guerra do Iraque e a tortura. O estado egípcio foi expropriado da ampla base social dos 1950 a 1960 pela concentração numa pequena elite. Ele passou de símbolo da luta por dignidade e independência de décadas de jugo britânico, a cachorrinho do Ocidente.

O fracasso do regime em ligar-se às classemédias urbanas e trabalhadoras crescentes, e sua inabilidade de prover de empregos às massas de graduados, preparou o terreno para os eventos da semana passada. Diplomados, os trabalhadores de colarinho branco precisam da lei como  moldura para suas atividades econômicas, e o comando arbitrário de Mubarak é visto como um empecilho aqui. Enquanto a economia crescia 5 ou 6% na última década, o ímpeto do governo relacionado a esse desenvolvimento ficou relativamente oculto — ao contrário de seu papel ostensivo na reforma agrária dos 1950 e 1960. Além disso, a renda advinda do comércio crescente concentrou-se numa pequena classe de investidores. Por exemplo, desde 1991, o governo privatizou de 150 a 314 fábricas, mas o benefício das vendas foi para uma fatia delgada de pessoas.

A recessão econômica mundial de 2008-09 teve um efeito horrível e direto nos egípcios marginalizados. Muitos pobres passaram fome. E então a queda dos preços do petróleo e dividendos fez com que muitos trabalhadores no exterior perdessem seus salários. Eles não podiam remeter sua renda aos familiares como faziam, e voltavam para casa humilhados.

O estado nasserista, com todos seus defeitos, ganhou legitimidade porque era visto como um estado de massa dos egípcios, quer internamente, quer na política externa. O presente regime é visto abertamente no Egito como um estado para os outros — para os EUA, Israel, a França e o Reino Unido, — e como um estado para poucos, os emergentes do neoliberalismo.

O islamismo não tem nenhum papel na análise porque não é uma variável independente. Movimentos muçulmanos canalizam o protesto pela falta de responsabilidade do estado, ao não prover serviços e renda. Mas eles são um sintoma, não a causa. Tudo isso explica por que a nomeação por Mubarak de militares a vice-presidente e primeiro-ministro não pode tamponar a crise. Eles, como homens do sistema, não tem mais legitimidade do que o presidente, e talvez até menos.

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Juan Cole

Juan Cole é historiador americano, estudioso do Oriente Médio e sul da Ásia, também é tradutor de árabe e persa. Tem um site: juancole.com