Líbia: teste para a al-Qaeda reformada

Por Syed Saleem Shahzad*, Asia Times Online | Tradução Coletivo Vila Vudu

No levante líbio, que rapidamente vai se convertendo em guerra civil, é muito evidente e clara divisão da sociedade líbia, entre o oeste do país com o bloco pró-Muammar Gaddafi, e os “rebeldes” do leste, reunidos em Benghazi e região.

A raiz do levante é intrinsecamente liberal e secular – como já aconteceu no Egito e na Tunísia – e deixa bem pouco espaço no qual as forças políticas islâmicas possam operar.

Nesses tempos turbulentos no mundo árabe, a al-Qaeda tem-se mantido como espectadora; mas sempre pronta a saltar, à primeira oportunidade que surja para participar da ação na Líbia.

De certo modo, a al-Qaeda está em posição idêntica à dos países ocidentais, alguns dos quais se posicionam para intervir ativamente na Líbia, no mínimo para impor uma zona aérea de exclusão [orig. a no-fly zone], para proteger os rebeldes do ataque dos jatos de combate e bombardeiros de Gaddafi.

O mais poderoso cluster da Al-Qaeda na Líbia, o Grupo de Combate Islâmico Líbio, al-Jamaa al-Muqatilah, teme estar sendo marginalizado, segundo informam à Asia Times Online fontes no campo de militantes líbios na área tribal no Waziristão Norte, Paquistão.

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Ali, os militantes entendem que a al-Qaeda teria de já estar agindo, na direção de acrescentar algum conteúdo ideológico à oposição armada contra Gaddafi, e para impedir que a situação acabe por ser controlada pelos agentes pró-ocidente, sobretudo agentes das capitais ocidentais, todas em busca de qualquer arranjo que lhes permita promover forças seculares e liberais, mesmo que mediante intervenção militar direta.

A maioria dos membros do grupo al-Jamaa al-Muqatilah são originais da área de Benghazi. Entre esses, estão alguns dos mais prestigiados comandantes da al-Qaeda no Afeganistão. Por exemplo, Abu Laith al-Libi, morto em ataque por avião-robô dos EUA em 2008, que comandou tentativa de golpe contra Gaddafi em 1994. O golpe fracassou, e Libi moveu-se para o Afeganistão, onde comandou várias grandes operações, entre as quais o ataque à base Bagram, nos arredores de Cabul em 2007, durante visita do vice-presidente Dick Cheney dos EUA.

Contatos do jornal Asia Times Online nos campos de militantes dizem que Abu Yahya al-Libi [a expressão “al-Libi”, no codinome, indica a naturalidade líbia (NTs)], ideólogo e estrategista militar, trabalha hoje para mobilizar quadros da al-Qaeda na Líbia, para fazê-los embarcar rapidamente naquele trem desgovernado. Al-Libi, nascido em Benghazi e autor de vários livros, desempenhou papel importante na mobilização da al-Qaeda no Iêmen e na Somália, enquanto viveu nas áreas tribais do Afeganistão e Paquistão.

Al-Libi escapou da prisão dos EUA na base de Bagram em 2005 e recentemente foi promovido a um dos principais postos de comando da al-Qaeda; na ausência de Osama Bin Laden e de seu representante direto Dr. Ayman al-Zawahiri, Al-Libi comanda as reuniões da shura (conselho), nas quais se tomam as principais decisões.

A agitação que se observa entre os quadros da Al-Qaeda, na direção de se engajarem em papel mais ativo na Líbia aparece na contramão de decisão já tomada, de o grupo manter-se afastado das agitações, quando os movimentos começaram no Norte da África e em toda a região, no início do ano. A al-Qaeda decidiu então que trabalharia aliada a partidos islâmicos, para reforçar posições contra as forças liberais e seculares. Agora, em situação de guerra civil iminente na Líbia, a al-Qaeda teme ser marginalizada.

De importante, contudo, que, se a al-Qaeda tentar ter papel mais ativo na Líbia, será sempre em aliança com partidos islâmicos e nos movimentos de massa – e está decidido que não incorporará as operações de terror que caracterizaram a ação do grupo nos últimos anos, sobretudo no Iraque.

Essa decisão marca mudança fundamental na filosofia da al-Qaeda. Essa mudança começou ano passado, quando um dos seus ideólogos, Sulaiman Abu Ghaith, publicou suas “Vinte orientações para a Jihad”, divulgada numa página pró al-Qaeda na Internet (Uma revisão crítica da al-Qaeda pela al-Qaeda, 9/12/2010, Syed Saleem Shahzad; orig. Asia Times Online). Ghaith questionou a política de ação solitária da al-Qaeda; criticou os ataques de 11/9 aos EUA; e criticou a decisão de romper todos os contatos com movimentos islâmicos internacionais. Esses erros estratégicos, escreveu Ghaith, resultaram em desconexão absoluta entre a al-Qaeda e as sociedades muçulmanas.

Esse discurso crítico alcançou o auge quando Saif al-Adil (ou Saiful Adil) publicou artigo na mesma página Internet, em janeiro passado, no qual conclama a al-Qaeda a apoiar partidos políticos islâmicos no mundo árabe; e exige que intelectuais muçulmanos moderem as críticas àqueles partidos. Os dois ideólogos destacam a urgente necessidade de a al-Qaeda buscar inserir-se no mundo muçulmano, e organizar-se para ouvir as vozes dos diferentes grupos ativos na sociedade, de seus serviços de inteligência e dos movimentos islâmicos.

A al-Qaeda retoma a via das reformas

Os ideólogos do mundo muçulmanos jamais conseguiram justificar os ataque de 11/9 contra os EUA, que resultaram em vítimas entre os civis e andaram na direção oposta dos princípios básicos de qualquer luta muçulmana contra a usurpação. A al-Qaeda contra-argumentou que aquele teria sido o único meio possível de iniciar uma resposta muçulmana contra a hegemonia do ocidente, no quadro político criado depois do fim da Guerra Fria, no início dos anos 1990s. Mas permaneceu o problema de haver governos muçulmanos aliados aos EUA.

Depois da invasão do Afeganistão pelos EUA no final de 2001 e do Iraque em 2003, a al-Qaeda continuou focada no objetivo de fortalecer a polarização nos estados de maioria muçulmana, para levar as populações à revolta contra a influência do ocidente e de países apoiados pelo ocidente no mundo muçulmano.

Mas a Al-Qaeda perseguiu tão agressivamente esse objetivo, que o resultado acabou por prejudicar seus próprios aliados, tanto a Fraternidade Muçulmana quanto o Hamás, em Gaza, e os grupos de militantes paquistaneses, Jamaat-e-Islami e  Lashkar-e-Taiba, mesmo quando se recusaram a apoiar as lutas da al-Qaeda em estados muçulmanos.

Alguns eventos ocorridos quando a al-Qaeda enfrentava diretamente as potências mundiais no Afeganistão e no Iraque, inclusive a recessão mundial e os levantes “do Pão” ocorridos no Egito em 2008, incendiaram a imaginação de alguns líderes da al-Qaeda. Convenceram-se de que as operações militares da al-Qaeda haviam conseguido tais vitórias, que os EUA já estariam à beira da exaustão, sem recursos, nos teatros de guerra no Afeganistão, Paquistão, Iêmen e Somália. Assim sendo, a capacidade dos EUA para manobrar mediante a injeção de dinheiro nos países de maioria muçulmana estaria limitada.

As dificuldades econômicas e a polarização política aconteceram, mas a limitada estrutura da al-Qaeda impediu-a de intervir na situação política: as circunstâncias exigiam movimentos políticos consistentes e ação de massas, não, evidentemente, operações terroristas.

Assim, depois que o Irã libertou vários de seus altos comandantes e estrategistas, no início de 2010, e todos se abrigaram no Afeganistão, iniciou-se ali um debate de alto nível sobre as “Vinte orientações para a Jihad” de Sulaiman Abu Ghaith.

Afinal, todo o alto comando da al-Qaeda acertou o passo numa nova direção. Por isso, há algumas semanas, Zawahiri – que, antes, sempre encontrava justificativa para argumentar a favor de ataques terroristas contra civis –, fez declaração que marca mudança absoluta nas políticas da al-Qaeda e indica a chegada do grupo à luta política no mundo muçulmano.

“Algumas operações têm sido atribuídas, acertada ou erradamente aos mujahideen, nas quais se atacam muçulmanos em suas mesquitas, mercados, locais de reunião. Eu e todos os meus irmãos na al-Qaeda nos afastamos daquelas operações e aqui declaradamente as condenamos” – disse Zawahri em mensagem distribuída por fita de áudio. Na mesma mensagem, Zawahiri declarou que falava por orientação direta de Bin Laden.

“Conclamo todos os mujahideen a obedecer à lei islâmica [Sharia] e considerar os interesses dos muçulmanos, antes de pensar em qualquer operação de Jihad [luta pela justiça]” – disse Zawahiri, na mesma gravação. E acrescentou: “Membros da al-Qaeda não devem participar de ataques, nem contra muçulmanos nem contra não muçulmanos”.

Apesar disso, a Al-Qaeda se manterá ao lado dos Talibãs no Afeganistão, para dificultar o mais possível o avanço dos EUA, na sangrenta preparação para a ‘retirada’ prevista para começar em julho próximo.

Simultaneamente, os quadros da al-Qaeda no Oriente Médio e em todo o mundo passarão a trabalhar em aliança política com partidos islâmicos, até que o processo das khuruj (revoltas) completem o ciclo até mudanças radicais – o que, para a al-Qaeda e outros grupos islâmicos significa revolução islâmica, com criação do califato global.

A al-Qaeda inicia o processo de reconectar-se com partidos políticos islâmicos. A Líbia pode ser o ponto de partida para mudanças ainda maiores.

 

 

Syed Saleem Shahzad é chefe do departamento Asia Times Online no Paquistão e autor do novo livro Inside Al-Qaeda and the Taliban, beyond 9/11, publicado pela Pluto Press, Reino Unido. Ele pode ser contatado pelo [email protected]

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Syed Saleem Shahzad

Syed Saleem Shahzad é chefe do departamento Asia Times Online no Paquistão e autor do livro "Inside Al-Qaeda and the Taliban, beyond 9/11", publicado pela Pluto Press, Reino Unido.