Líbano: vergonhas do esquife de Hariri

Por Sami Moubayed*, no Asian Times Online | Tradução: Coletivo Vila Vudu

O ano começou com graves problemas para o primeiro-ministro do Líbano Saad al-Hariri. Primeiro, 11 ministros renunciaram e deixaram seu governo, ao mesmo tempo em que lhe criaram o embaraço extra de derrubar seu Gabinete, no momento em que, na Casa Branca, Hariri estava reunido com o presidente Barack Obama.

Hariri pisou no Salão Oval como primeiro-ministro; saiu de lá como ex-ministro em desgraça. A queda coincidiu com o colapso da iniciativa Síria-sauditas para o Líbano, que há meses tentava superar o impasse entre Hariri e a oposição liderada pelo Hezbollah.

Então aconteceram os “Hakika-Leaks” ou “vazamentos-verdade” pela televisão, quando a rede NewTV do Líbano divulgou encontros privados e supostamente confidenciais entre Hariri e os procuradores do Tribunal da ONU sobre o assassinato, em 2005, de Rafik al-Hariri. O escândalo “Hakika-Leaks” – como tem sido chamado, nome derivado de WikiLeaks –  ressoou fortemente no Líbano, comprometendo gravemente a credibilidade de Hariri, seja entre seus eleitores seja para o grande público libanês e árabe em geral.

As gravações foram feitas no verão de 2007, mais de dois anos antes de Hariri tornar-se primeiro-ministro. Aparece lá como figura tímida, tenso, vacilante e extremamente rude. Numa das gravações, Hariri conversa com Mohammad Zuhair al-Siddiq, cidadão sírio, criminoso condenado em tribunais sírios e libaneses, que cometeu crime de perjúrio na audiência em que foi ouvido como testemunha pelo Tribunal da ONU para o Líbano.

Siddiq, uma das várias falsas testemunhas ouvidas no caso Hariri, forneceu informação falsa e tentou envolver membros do Hezbollah e altos funcionários da Síria no crime de 2005. Apesar de, antes, Hariri ter dito que não conhecia o homem, as gravações provam o contrário: havia longo relacionamento entre os dois; e relacionamento que, além de existir comprovadamente, não era relacionamento social ou formal.

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Siddiq literalmente grita com Hariri em vários pontos da gravação. Reclama que lhe telefonou e enviou-lhe mensagens por SMS, e Hariri não lhe deu qualquer resposta. A relação entre os dois, portanto, era suficientemente próxima a ponto de Siddiq usar o número do celular pessoal de Hariri. Participavam da mesma reunião o principal assessor de segurança de Hariri, coronel Wissam al-Hasan, que Siddiq trata com intimidade, pelo primeiro nome, “Wissam”.

Hasan foi o primeiro acusado pela morte de Hariri-pai, porque, principal encarregado da segurança pessoal de Hariri-pai, não se apresentou para trabalhar no dia do atentado fatal, em fevereiro de 2005. Alegou que fora chamado para um exame na universidade, no mesmo dia e hora, o que explicaria que seu celular estivesse desligado no momento em que Hariri era morto em violenta explosão na avenida que acompanha a praia, em Beirute. Os juízes do Tribunal da ONU consideraram fraco o álibi do guarda-costas de Hariri-pai e recomendaram que ele fosse interrogado e tratado como “principal suspeito”. Essas orientações, adiante, foram deixadas de lado pelos investigadores da ONU, depois que Hassan assumiu o posto de chefe da segurança de Hariri-filho.

Na segunda fita divulgada no escândalo dos “Hakika-Leaks”, ouve-se a voz de Hariri-filho, que fala com o juiz investigador da ONU sobre as circunstâncias que levaram ao assassinato de seu pai. Falando em tom leviano, superficial, que os libaneses identificam facilmente como tom ‘de filhinho-de-papai’, Hariri acusa várias figuras públicas, que, segundo ele, viveriam à volta de seu pai tentando arrancar-lhe dinheiro, entre os quais estaria o respeitado jornalista libanês Talal Salman, editor de as-Safir, jornal diário de grande circulação.

Diz também que, em 1999, seu pai teria custeado o tratamento hospitalar do então ministro de Relações Exteriores da Síria, Farouk al-Shara, no American University Hospital em Beirute. A Síria protestou imediatamente, e provou que os custos daquele tratamento hospitalar foram pagos pelo governo sírio, não por Hariri-pai.

O jovem primeiro-ministro também lançou dúvidas quanto à lealdade de um dos principais assessores de seu pai, Nihad Mashnouq, e disparou uma saraivada de insultos contra outro jornalista libanês Charles Ayyoub. O então presidente Emile Lahhoud e Jamil al-Sayyed, chefe da segurança, disse ele, eram os culpados por a relação entre Hariri-pai e o presidente Bashar al-Assad da Síria ter-se deteriorado.

“Eles odiavam meu pai” – diz Hariri-filho na gravação divulgada –, “e o Hezbollah e Nabih Berri [presidente do Parlamento] queriam por fim àquele relacionamento [entre Hariri-pai e a Síria].” Insultou também o ex-primeiro ministro Najib Mikati – hoje um dos nomes cogitados para o posto de primeiro-ministro –, do qual disse: “Eu o fiz primeiro-ministro [em 2005] e ele apunhalou-me pelas costas”.

Hariri tampouco poupou o bilionário saudita príncipe Alwaleed Bin Talal, o qual, para Hariri-filho, ambicionaria ser primeiro-ministro do Líbano, cargo ao qual faria jus por ser neto de Riad al-Sulh, um dos patriarcas da independência do Líbano.

Exposto e sem poder negar que tivesse dito o que todos ouviram, não restou outra saída a Hariri-filho, além de apresentar-se como vítima de uma “conspiração dos serviços de inteligência” patrocinada pela rede de televisão New TV, que teria relações com a oposição liderada pelo Hezbollah. Embaraçado, Hariri desculpou-se, em nota distribuída por seus assessores de comunicações, a todos os que insultou na gravação de 2007, que teria sido evento acontecido em tempos muito difíceis, em tudo diferente do que transpirou depois de ter-se tornado primeiro-ministro em 2009.

As gravações confirmam além de qualquer sombra de dúvida vários fatos que provavelmente comprometerão o futuro político do primeiro-ministro.

Primeiro, que é homem de duas palavras – diz uma coisa no privado e outra em público. Segundo, que conhecia a saga das “falsas testemunhas”, cuja existência a oposição denuncia já há dois anos.

A gravação de conversas entre Hariri e Siddiq – uma das falsas testemunhas, como já o reconhecem todos, inclusive os juízes do Tribunal da ONU – confirma a versão circulante segundo a qual o próprio Hariri-filho arquitetou a ação das falsas testemunhas e, depois, as manteve sob sua proteção pessoal por mais de cinco anos.

Isso provavelmente explica por que o Hezbollah tanto insiste em que a ação das falsas testemunhas e seus depoimentos ao Tribunal da ONU sejam investigados, antes de que se possa cogitar de construir qualquer acordo entre a oposição e Hariri. Os vazamentos também confirmam que, apesar de ainda se recusar a abandonar o cargo de primeiro-ministro do Gabinete deposto, são novamente muito baixas as chances de que Hariri volte a ser primeiro-ministro de algum futuro Gabinete.

Há vozes no Líbano que dizem que, se Hariri for derrotado e afastado do poder – e, como estão as coisas hoje, cercado de escândalo e em desgraça – pelo Hezbollah, é provável que seja convertido em herói nacional dos libaneses sunitas. Para os que raciocinam nessa direção, a queda de Hariri nesse momento e sob as atuais circunstâncias não interessa à oposição. Se for obrigado pelo Hezbollah a deixar o governo, o resultado só favorecerá Hariri. Será como um segundo presente, capaz de impulsionar sua carreira política, só comparável, para o mesmo efeito, com o assassinato de seu pai em 2005.

Via mais produtiva para desacreditar Hariri seria deixá-lo ser primeiro-ministro e dar tempo ao tempo, até que ele próprio consuma toda a própria base de prestígio e votos com que conta em Beirute.

Se for empurrado para a oposição, Hariri estará protegido. Na oposição, os erros jamais são graves e jamais custam caro. Sem erros, reunirá à sua volta as massas que sempre tendem a cercar políticos sem responsabilidade de governar, que podem prometer o que as massas queiram ouvir, e jamais são acusados pelos erros e fracassos de quem esteja no governo. Vale também para a história de Hariri-pai, cuja popularidade sempre foi baixa enquanto esteve no poder (1992-1998), mas alcançou patamares jamais sonhados ao tempo em que esteve na oposição, em 1998-2000.

Além disso, muitos, na oposição, preocupam-se com a evidência de que, por mais que queiram ver no Líbano um primeiro-ministro pró-ocidente, os EUA preferirão ter lá, em vez de Hariri, alguém pró-ocidente à maneira de Omar Karameh – que ativamente impedirá qualquer investigação que o Tribunal da ONU tente, e que será mais facilmente pressionável, isolável e chantageável, contra o Líbano e os libaneses.

Todas essas variáveis consideradas, o que está em jogo sempre, nos três possíveis cenários, é o futuro político de Hariri, à espera do que resulte do encontro Síria-Turquia-Qatar sobre o Líbano. Pelo que já se sabe, os turcos entendem que Hariri deve ser mantido como primeiro-ministro.

Várias ideias circulam em Beirute sobre como ‘salvar’ Hariri: ele poderia voltar, se se separasse oficialmente do Tribunal da ONU, se declarasse que se trata de corte politizada, não neutra, e se aceitasse que um comitê conjunto de juízes turcos e do Qatar avaliasse a peça final da acusação e as sentenças do Tribunal da ONU, antes de que sejam divulgadas oficialmente.

Essa e outras que se discutem são tentativas para salvar, sendo ainda possível, não Hariri, mas o Líbano.


* Sami Moubayed é analista político sírio.

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Samy Moubayed

Samy Moubayed é um historiador e analista político da Síria. Seus artigos sobre o Oriente Médio aparecem em uma série de publicações.

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