Líbano: o caso Hariri

Por Robert Fisk, do The Independent | Tradução: Coletivo VilaVudu

Uma gravação terrivelmente embaraçosa, na qual se ouve Saad Hariri, o primeiro-ministro que acaba de perder o posto no Líbano, acusando os sírios de serem responsáveis pelo assassinato de seu pai; uma ameaça, por aliados do Hezbollah, de acusar Hariri por prática de corrupção; e o medo – que todos, todos, sentem no Líbano – de que o Tribunal do Conselho de Segurança da ONU para o Líbano tenha indiciado membros do Hezbollah por participação no atentado que resultou no assassinato de Rafiq Hariri em 2005 converteu em pesadelo a atual crise política.

Mas estamos no Líbano, e sempre há elementos da mais pura farsa, a sugerir que as televisões locais, praticamente todos os políticos libaneses, iranianos, norte-americanos, israelenses e sírios – além de parte significativa da mídia mundial – nada fizeram além de mentir descaradamente, para conseguir afogar o país num banho de sangue.

Já há meses, jornalistas estrangeiros e políticos libaneses só fazem avisar que o Tribunal da ONU estaria “na iminência” de acusar vários membros do Hezbollah pelo assassinato de Hariri sênior, também primeiro-ministro.

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De fato, o procurador do Tribunal da ONU já encaminhou a peça acusatória, para a revisão legal antes de encaminhá-la oficialmente, ao pré-juiz Daniel Franson. Mas o pré-juiz pode discordar dos argumentos que ler, pode adiar o encaminhamento e pode até – parece que sim – aceitar a peça construída pela acusação, sem ter de revelar os nomes dos acusados.

O conteúdo daquela peça acusatória foi “revelado” primeiro pela revista Der Spiegel – conhecida por receber matérias de fontes israelenses (23/5/2009), e depois foi divulgado também pelo Wall Street Journal – que também, não raras vezes, recebe material de fontes israelenses – antes de um jornal israelense citar o nome de um dos acusados, que seria parente do também assassinado comandante da inteligência do Hezbollah (pró-Irã), Imad Mughniyeh (Wall Street Journal, 8/10/2010: [o nome que apareceria na peça acusatória seria o de] “Mustafa Badreddine, alto comandante militar do Hezbollah e cunhado de Imad Mughniyeh”. O Hezbollah não gostou. Diz que a prisão de vários funcionários de uma empresa de telefones celulares no Líbano prova que Israel grampeava vários telefones no dia em que Rafiq Hariri foi assassinado – Dia dos Namorados de 2005 – e que aquelas quatro “falsas testemunhas” que cometeram perjúrio ante a ONU, elas sim, deveriam já estar presas.

Informações dadas por aquelas quatro falsas testemunhas foram usadas para prender quatro generais da segurança do Líbano, mantidos presos por quatro anos sem qualquer acusação formal – até que a ONU, terrivelmente embaraçada, foi obrigada a mandar libertá-los. – E agora a rede de televisão libanesa New TV apareceu com uma fita gravada, em que se ouve Saad Hariri, em conversa com Muhamed Zuhair Siddiq, uma daquelas “falsas testemunhas”, e um funcionário da ONU. Naquela fita, ouve-se a voz de Hariri, que diz que “estamos todos convencidos de que os assassinos [de Rafiq Hariri] são os sírios”, ao que Siddiq responde “Se vocês querem insistir nisso, devem começar por responder aos que contaram essas mentiras, especialmente entre os Estados árabes…”

Numa resposta confusa, Hariri, que ainda permanece oficialmente como primeiro-ministro do Líbano, explicou que a frase foi extraída do contexto, que a fita deve envolver serviços de segurança, e que falou “há muitos anos, em circunstâncias políticas que todos conhecem”.

A fita foi gravada em 2005, e Hariri depois expressou “desculpas pessoais a todos os amigos mencionados naquelas conversações”. Deve-se presumir que aí esteja incluído o alto governo sírio, cujas relações pessoais com Hariri estão perfeitamente recompostas. Para piorar, o ex-general Michel Aoun, um estranho apoiador cristão de Hassan Nasrallah secretário-geral do Hezbollah, disse que Hariri mereceria perder “seus direitos civis” por prática de “corrupção massiva” – em outras palavras, que deveria ser preso, bem como os deputados do “Movimento 14 de Março” da maioria, se continuassem associados a Hariri.

Ninguém precisa entender todas as nuanças desse autêntico teatro libanês – muitos libaneses também não entendem –, para perceber que muita gente está dizendo quantidades imensas de sandices, como, dentre outros, a secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton, que continua a repetir que o Tribunal da ONU tem de “ser respeitado”, mesmo agora, que a maioria dos libaneses só deseja fugir para o mais longe possível daquele tribunal. Mas o Hezbollah derrubou o governo Hariri ao retirar-se do gabinete, e Nasrallah está compreensivelmente preocupado – não estivesse, não estaria chamando de “traidores” todos os que cooperem com a ONU; e muitas “falsas testemunhas” estão muito mais preocupadas que ele.

A ONU, claro, está fazendo papel de idiota. Parece que alguém já sabe quem matou Rafiq Hariri. Multidões de libaneses prendem a respiração, querendo nunca saber.

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Robert Fisk

Robert Fisk é um premiado jornalista inglês, correspondente no Oriente Médio do jornal britânico The Independent. Fisk vive em Beirute há mais de 25 anos. Considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio, Fisk contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Fisk também entrevistou Osama bin Laden, líder da rede terrorista Al-Qaeda (em 1993, no Sudão, em 1996 e em 1997, no Afeganistão).