Ler Primeiro: “Sou feliz na Augusta, encho a cara no Arouche”

La_femme_au_chien(Picabia)
“As mesas estão do lado de fora e as almas, do lado de dentro, eternamente trancafiadas. Não tenho as chaves”
Um conto de Lédia Barreto | Imagem: Francis PicabiaLa Femme au Chien
Nasci pobre. Sempre fui pobre. Nasci no mato, no sertão de Pernambuco e nunca gostei do que lá se oferecia. Minha ideia de felicidade é um hotel na Suíça com carpetes felpudos, papéis de parede coloridos e florais, abajur lilás (por que não?), neve, muita neve lá fora. São contáveis os dias de minha vida, talvez contáveis nos dedos das mãos, provavelmente contáveis nos dedos de uma única mão, os totais de dias em que minha carteira esteve com uma quantidade de dinheiro comparável à quantidade de dinheiro provável da carteira de uma pessoa rica, dessas que passam por mim em carros conversíveis e reluzentes ou com sapatos lustrados em barulhento galope. Claro, entretanto, que as pessoas ricas têm bem mais, bem mais bens, ou dinheiro em conta que eu, que tenho somente uns vestidos velhos, duas únicas saias, calcinhas com elásticos frouxos, uns sapatos gastos, óculos de sol para os dias de sol e um guarda-chuva transparente para os dilúvios desta cidade tropical. Ah, sim, nem se quisesse conseguiria esquecer, a conta do aluguel que, invariavelmente, aproximadamente dia sete de todo mês, mesmo sem que eu queira, escorrega para debaixo da porta do quarto que alugo, sem trazer alegrias ou expectativa de satisfação.
 Sou uma travesti em São Paulo. Não importa se é dia ou noite, frequento as praças e ruas sempre citadas como referência para meu ofício, o de puta. Aquele ou aquela (neste caso aquele) — biblicamente condenável, ouvi dizer, e me importo tão pouco — que vende o corpo. Depois da rotina cavalar, que sempre se mostra torturante para aquele menino que saiu do sertão pernambucano sonhando fazer desfiles, letras de canções populares ou espetáculos teatrais transformistas, que encantariam muitas e muitas pessoas, tento encontrar espaço para diversão, o que quase nunca tenho conseguido: esta cidade está infectada, digo sem afetação: i n f e c t a d a. As mesas estão do lado de fora e as almas estão do lado de dentro, ao que me parece, eternamente trancafiadas. Entretanto, não tenho as chaves e todos têm seus próprios corações. E eu pergunto, de que valem todos esses corações, se bem poucos conseguem sobreviver fora do peito?
Já não quero mais respostas. Tenho vinte e sete anos e estou nesta cidade, digo nesta vida, a de puta, há nove, nada mais vai mudar meu existente e descoroado reinado. Porém, agora, tudo está trancado e eu rememoro meu passado e todos os dias que vivi até aqui. Acontece que, mesmo quando a vida traz surpresas, ela não tem motivos ou razões para ser menos contundente do que aquilo que pode ser previsto. Os acontecimentos da minha infância, a casa de Dona Helena, minha mãe, Dona Anita, mãe dela; a semana em que antecedeu minha primeira vinda ao suposto paraíso, aqui, o sul-maravilha, a convite dela, minha quase prima-irmã por adoção, Carla: olhos pequenos e saltitantes, feito macaquinhos amestrados. Seios grandes, cabelos aconchegantes e pele morena jambo-brilhante.
Preparamos tudo, tudo. Ela quem veio primeiro, me trouxe depois, meses depois. Nossos sonhos de infância, as roupas dela com as quais me vi pela primeira vez, aos nove anos, como pertencentes ao sexo oposto, ou ao sexo que eu confusamente, algumas vezes contrariadamente ou não, julgo pertencer. Nada foi tão simples. Crescemos naqueles quintais, cheirando a merda de cabra, bebendo água malsã, alimentando galinhas. Éramos crianças que brincavam, comiam, dormiam e se descobriam juntas. Não temos nada consanguíneo. Vizinhávamos.
Nossas mães são bordadeiras. Bordadeiras, cozinheiras ou costureiras, à espera de qualquer ocasião. Naquele sertão resta pouco, a não ser partilhar, partilhar muitas vezes tudo, do quase nada que temos naquela vida seca, estúpida, contraditória, feliz. O fato é que eu estranhamente, ainda aos oito anos, me apaixonei por ela. Um amor infantil, doce, carregado de adoração, de dedicação, de necessidade, que fluiu como uma espécie de escravidão divertida em que eu percebo, sem arrependimentos, que entrei na dança, jurando a ela o meu precioso amor. Suas roupas foram ficando minhas roupas, seus cigarros, os primeiros de nossa adolescência, meus cigarros; nossos inesquecíveis primeiros baseados. Suas maquiagens, os restos que ela conseguia com suas amigas – as amigas que eu odiava sempre –, minhas também. Seus namorados não eram meus também. Eu apenas estava lá, e contribuí com horas de audição sobre os problemas dela com eles, que se tornaram sofridamente meus problemas também. Seu coração e seu amor, não. Nunca, eles nunca, nem por um instante, não como eu sonhava, foram meus, e eu fui deixando de ser um menino, não consigo precisar com a evidente clareza o que sinto, para satisfazer uma necessidade minha ou profusa e simplesmente dela?
Não é que ela me rejeitasse. Ela rejeitava algo que estava em mim, que eu fui e que eu totalmente não via e tudo então assim estava sob o controle. Não quero ser santa, fui puta esses anos todos e vi paus bem enormes, maiores do que pudesse imaginar. E olha, muitas vezes, gostei. Fui feliz em quartos de motel, em escadarias de prédios, embaixo de marquises, pontos de ônibus vazios, construções, caçambas de caminhão, peruas Kombi, boates, banheiros de hospital-maternidade (juro!), arquibancadas de estádio de futebol desertas, tendo apenas um céu nublado e sem lua como miserável testemunha. Não é isso! É que resta uma dolorida inocência perdida. Um berro que não se cala. Algo um pouco maior que um coração partido e um sexo castrado. E não houve nem nunca haverá culpados (quem são as pessoas que nos querem culpados?).
Também não houve equivalência naquele amor que nos acompanhou até aqui. E se houve equivalência, não houve compatibilidade, olhando atentamente para o formato com que esse amor se deu. Não só por isso, está manhã, neste sábado, no quarto dela, alugado em um bonito flat na também bonita e arborizada região de Higienópolis, nesta cidade que nunca foi minha, e jamais será, acabei com a glória do amor. Enquanto todos os idiotas, para os quais eu não dediquei sequer uma ínfima dose de amor, circulam por aí com finas correntinhas douradas nos pulsos e gargantilhas que enobrecem o fim de semana de sol, ela, a quem amei tanto, sob todos os aspectos da enormidade do que ela representou em minha vida, para meu silêncio e surpresa, fiz dela então uma mulher mortal.
Lédia Barreto, 48 anos, advogada, escreve contos que retratam um universo urbano degenerado ao qual ela diz ter acesso somente pela janela de seu apartamento no Centro Velho da cidade de São Paulo. Gosta de Robert Crumb e poesia marginal dos anos 70. É viuva, tem três filhas e programa para breve o lançamento de um livro de contos


Vale a pena ler primeiro é seção de Outras Palavras dedicada à literatura. Foi criada e é editada por Fabiano Alcântara. Jornalista especializado em cultura, repórter de Música do portal Virgula, e colaborador de diversas publicações – como Valor Econômico e os sites das revistas TRIP e TPM –, Fabiano é também músico, baixista das bandas Mercado de Peixe e Lavoura e curador de festivais.Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.

TEXTO-FIM

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Lédia Barreto

Lédia Barreto, 48 anos, advogada, escreve contos que retratam um universo urbano degenerado ao qual ela diz ter acesso somente pela janela de seu apartamento no Centro Velho da cidade de São Paulo. Gosta de Robert Crumb e poesia marginal dos anos 70. É viuva, tem três filhas e programa para breve o lançamento de um livro de contos

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