Ler Primeiro: Os seis dias em que teve lepra

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Todos estavam mais preocupados em descobrir o ainda encoberto, exatamente como a camisa escondia a marca que carregava no peito

Por D.L Benette | Imagem: Paul Klee, Duas Cabeças

A luz natural  é outra ali no corredor da máquina de expresso. Ela entra pelos extremos e deixa aquela passagem sempre um tanto escura, como o café amargo e a angústia de quem pára ali, bem rapidinho, e joga uma conversa fora, bem de dentro e para o outro que nem sempre pega a essência da informação que recebeu e a deixa ali no lixo do chão de borracha. A doçura de quem destila o fel da contradição de ser o que não pratica se perde no tempo.

Na grande sala sem janelas, de teto alto e forro baixo, as luzes ficam acesas ininterruptamente por mais de vinte horas por dia, todos os dias da semana, todas as semanas do mês, todos os meses do ano, todos os anos da vida. As coisas que vão acontecendo em nada se transformam.

Existir é continuar dando os passos, algo como continuar continuando embrenhado na selva de coisas que esperam ganhar forma a partir da interferência de um indivíduo que nomeie. Isto é isto que não é aquilo que, assim, chegará aquele, modificado por isto, dentro disso que veio daquilo, por intermédio do outro que, quando aqui passou, buscou para os que viéssem o que no momento não tem.

As dores chegam ao corpo para dizer-lhe do que vive somente na mente. É uma busca frenética para dissipar o abismo entre a concretude de sua existência. A pele se enruga simetricamente nos extremos de seu lábio superior. É só a primeira ruga, já que outras virão  como vieram no mesmo lábio do pai.

TEXTO-MEIO

As dores, apesar de no corpo, não eram físicas. Já havia quebrado o braço, cortado o queixo, a cabeça, as mãos e o dedão. Todos com gesso ou ponto. Já teve gases e dor de estômago. Já distendeu o músculo da coxa num chute na bola. Mas não era nada, nada dessas dores, perto da dor que o corpo já expressava, mas nada sentia. Era a dor da ausência aquela ali. Dor de ser informação = em (in) fôrma (forma) insossa, ininterrupta, eternamente contínua (ção). Dor de querer um nome e, assim, passar a ser. Isso, ser! Ser é a chance ao outro de reagir, agir, fugir, fingir, tingir. É a chance de  não ser eterno.

Mas naquele café, ali naquele corredor, ninguém queria saber de nada. Saber seria acolher o que já foi conhecido e todos estavam muito mais preocupados em descobrir o que ainda estava encoberto, exatamente como a camisa escondia a marca que carragava no peito, há algumas horas e para todo o sempre.

Era marca, não etiqueta, não produto industrial. Embora aquela marca enquadrasse-o numa classificação, igualando-o (apesar de ser diferente) a outros que deram de si à história. Poderia ser o emblema, caso fosse ele uma peça, mas sendo homem, aquela marca, ali, sobre o coração, era mesmo um vestígio sobre a pele que envolve os tecidos dos seus nervos. Um estigma concretizado ao longo da história da ignorância que puxaria na memória do espectador referências elencadas ao longo de uma existência imbecil. Mas não havia como escapar. Ali, cravado, está um sinal, uma indicação, uma nota. É fato indicativo de limites, delineador de fronteiras, divisões de diferentes e, naquele instante, a percepção era indicativa de que haveria um caminho a ser transposto entre onde estava e para onde ia, algo como a passagem saudável/doente.

A fronteira, neste binômio, é a ponte sobre abismo desconhecido cravado na ruptura de um universo. Lá do alto, no meio da ponte, de um lugar impossível de se ficar, amedrontador para voltar, terrível para continuar, a ponte une a passagem, mas é só caminho, a caminhada, solitária. Não caminhar, voltar, ir, pular, agachar e ficar ali, emudecido, eram atitudes previsíveis. Esperar uma mão a levantar-lhe e sugerir a travessia da inércia da fronteira sem nacionalidade, era uma esperança.

Nem doente, nem saudável, a fronteira é campo neutro entre os extremos da existência. Até agora, ao menos, ninguém é da fronteira, que é um não-lugar, porque todos somos de algum lugar, de um dia, com nome, origem, tradição. Não dá para ser de lugar nenhum, pois sendo de lá, lá na hora vira lugar algum. Da fronteira, é de passagem para se fixar de um ou outro lado.

A marca, cravada no peito, era só a representação de algo além dela e indicativa de limites. Ao perceber a marca, partes do cérebro se ativam em processos que conjugam idéias ligadas a sistemas emocionais. Ao contrário das griffes, que marcam roupas, perfumes e coisas, aquela ali despertava o que nem sabia que tinha adormecido em si já que não se tratava de uma dessas marcas de nascência, da qual nem questionamos. É marca da representação do invisível aos olhos colonizando o universo de um corpo de Homem que traduz-se na conjugação interativa com a mente.

Escondida sob a camisa, a marca no peito dele não existia. Nada existe se não se tornar existência, a questão era saber se se tornaria. Ou não. Se já era um existente no corpo ou não. Se existia só na sua cabeça. Da sala de espera, avistava a médica, a passos largos, sorriso no rosto, contemplando um minúsculo pedaço do seu peito dentro de um frasquinho. Um pedacinho dele rumo à biópsia.

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D.L.Benette é jornalista e diplomado com o mestrado de Comunicação e Semiótica. Mora em Sorocaba-SP. Gosta de ler, de filmes no cinema, de jogar tênis em quadra de saibro e jogar xadrez no celular. Gosta de ver jogo do São Bento no campo e do Palmeiras na TV. Gosta de comer e tomar uísque. Gosta de conversar e trocar mensagens por emails ([email protected]). Não gosta de intolerância.


Vale a pena ler primeiro é seção de Outras Palavras dedicada à literatura. Foi criada e é editada por Fabiano Alcântara. Jornalista especializado em cultura, repórter de Música do portal Virgula, e colaborador de diversas publicações – como Valor Econômico e os sites das revistas TRIP e TPM –, Fabiano é também músico, baixista das bandas Mercado de Peixe e Lavoura e curador de festivais.Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.

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D.L Benette

É jornalista e diplomado com o mestrado de Comunicação e Semiótica. Mora em Sorocaba-SP. Gosta de ler, de filmes no cinema, de jogar tênis em quadra de saibro e jogar xadrez no celular. Gosta de ver jogo do São Bento no campo e do Palmeiras na TV. Gosta de comer e tomar uísque. Gosta de conversar e trocar mensagens por emails ([email protected]). Não gosta de intolerância.

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