Ler Primeiro: Tá perguntado

cred carlos alvarez insua

E nessa pose, eu saio melhor? Se pienso ergo no soy, quero escrever: “llevame bailando hasta el final de las minhas convicciones”. 

Por Juliana Frank | Imagem: Carlos Alvarez Insua

Por que os jornalistas rasuram a imagem dos escritores que eles acham que são pops ou, como eles gostam muito de falar: escritores jovens? a juventude é tão linda e improdutiva, né, moço? E se eu responder a entrevista com sangue de menstruação, bem lindo assim, sangue puro adolescente, o moço editor fica bonzinho, emocionado… será que põe tudo o que eu disse ou só a cabecinha? Vai saber, literatura louca deve ser só literalidade. Até porque não é possível ter um terceiro olho, ser escritor,  se está louco, se está cego e não enxerga proustinamente as coisas, entende? não tem mirada. Daí não rola, impossível, tudo cagado e errado, mal falado, mas cometido, né, publicado!

Vai vê eles editam a nossa fala para que a gente pareça mais simpático, né, moço? Sim, para que nossa fala seja mais falável! São bonzinhos! São sádicos mas não são covardes, cê num acha? É só sadismo de profissão. É um tipo de psicopatia-social-festiva-brasileira. Nada a ver com o que você pensou, sabe? Tá tudo bem, né? sim, tudo bom, e você? a gente tem que ser divertido, né? me diz uma coisa, pensar aí no rio de janeiro é ser filósofo de sunga? ah, não esquece de mandar pombo-correio, caneta azul e farofa, senão não brasileiriza o txt, tá, tio? falar assim “txt” é bonito, também te ensinaram na redação? E nessa pose, eu saio melhor? Se pienso ergo no soy, quero escrever: “llevame bailando hasta el final de las minhas convicciones”. fica mais bonito ou eu deixo o original, porque a palavra amor, quero dizer, bailar até o final do amor é algo admirável, né?  Eu preciso dizer o que penso, preciso dizer que te amo? tenho que pensar que penso ou só fingir que penso que penso, fazer simulacro, o que te parece mais, sei lá, mais impactante? Fico mais bonita assim ou quer que eu abaixe a calcinha? A curva irônica do lacan tá estampada na minha cara de cachorra… ah, ainda não? Então fotografa meus peitinhos, por favor?

Só o impresso impressiona! De onde veio tanta festa se a gente escreve quietinho, escondido, tipo criminoso famoso desses que matam pra sair na televisão? mas bonito mesmo é fazer as literaturas das nossas vidas, dos amores, das cidades esquecidas até pelos pombos dos mágicos, não? Melhor ser escritor que ser pombo de mágico, né? Já pensou  pará-choque de chevette?

Eu aprendi a escrever porque tava numa maca, curando um carcinoma, só que depois era só furúnculo. O dotô disse que não era nada mais que um furúnculo, mas eu fiquei tantos dias ali cansada de me masturbar e olhar as quatro paredes! daí lia, lia e escrevia, nunca te contei? Você fugiu prum livrinho porque a mamãe não cuidou, não deu travesseiro?

TEXTO-MEIO

Já sei! você lia machado porque queria ser ela, a mentirosa, ninguém sabe se era, é um pergunta (?) mas você queria ser infiel, né? Queria ser ela? Por que não fala?  Você precisa gostar mais de mim ou mais do meu livro?  Eu sou a obscuridade do meu presente e o meu livro é o que eu matei, você disse, mas eu não acredito, eu conheço os paradigmas velhacos. Vamos concordar pelo menos agora. Tudo mentira isso aí, né?  Cunversê pesado. Mesmo assim ainda você gosta de mim? Você me lê? O que difere um escritor (adjetivo que ilustre melhor a palavra melhor) de um escritor?  Por que uns parecem ser mais profundos… Tão óbvio, né?  É feio ser óbvio, sei lá, fica feio numa escritora, mas também tem que ser feia, né, que se passar base na cara, blush e tudo isso fica mais pra palhaça, não pra mim…eu não penso assim. São eles.

O humor parece leviano por que é feio rir, tio? coisa de cavalo? mulher boa não ri, né? tem dente só pra comer, mastigar, deglutir. Só sopa todo dia enjoa…daí que mulher boa come sopa e não ri. São bonitas elas, né? mais que poodle de madame? Ainda bem, graças a deus que nasci escritora e não poodle de madame, né? Por que o negócio é ser militante da tristeza, senão é literatura fútil, o que você acha? É possível escrever sem profundidade, sim. Eu só faço de soberba, porque também sou exibicionista e vaidosa, daí eu escrevi só de sacanagem um txt em que eu trepava com deus e com o diabo, eu escrevei assim no título: é merlot uisquecer, porque foi estupro, tá? deus e diabo violentaram minha personagem. Daí essas violências não é bom lembrar, a gente bebe e deixa pra lá. Só que escrevi bem bem fútil, te juro! Depois comprei uma piscina rasa, de bolinhas coloridas, cê não acha bonito?  Os gregos quando faziam humor estavam brincando com a co-existência da condição humana ou eram apenas idiotas.Nós somos todos muito engraçados?  Tá. E se eu escrever mas também usar ou não usar este chapéu? Este azul com pena lateral, new york, inverno, clássico? Não, melhor uma coisa mais europa, sei lá, um cinza plástico. Um chapéu de plástico? Sei lá, só escrever não tá bom, né?  Foda-se o ego, quero enlouquecer, quero parecer ser. me encanta a artificialidade. Sou o que sou seja o que for. Tem coragem de escrever isso aí? Napoleão era corajoso?  Você pode lamber minha lágrima pra saber que eu chorei ontem? Foi porque rasgaram meu caderninho. Homem não podia chorar. E escritor, pode, deve, tem que ou sei lá mais o quê. tem que chorar pra todo mundo vê, na tv, pra todo mundo sabê, né tio? e fazê rima assim, fica parecendo estúpido? seu cu ardia mais que o sol do meio dia? O escritor é só um técnico da selvageria, que frase, hein? parece até verdade! já pensou?  Ninguém se importa se escrevemos ou não, então, somos inúteis.? Para isso aqui dar certo eu preciso fazer culto ao precário, esse culto pasmaceiro ao fracasso? Ser fracassado é dono de fabrica de chupeta que faliu ou jogar duas páginas fora? E vocês pensam o quê?  Pras pessoas, é muito mais emocionante pegar uma estrada de ferrari do que ler um livrinho.  Há uma multidão na sua janela ou na minha gritando e implorando por um texto, por acaso? Estão todos fazendo $$, pensando em $$ ou juntando $$ para representar o mundo com catarses automobilísticas ou viagens alucinantes ou tá tudo deturpado? Quem se importa com uma linha ou duas bem escritas, conhece alguém? Tolos narcisistas? Uma escritora, hoje, não é nada, uma gótica chata encerrada em si mesma e sem um centavo para dar opinião.  Eles sempre te dizem: você é um gênio, compartilham seu poema e voltam a fabricar $ e emoção, sempre? Eles convidam escritores para festas chatíssimas e hypes, apenas para que tenha um néscio da corte pós moderna decorando o ambiente, ué, eles são assim. Eles te amam? Eles sofismaram o amor? Ah, nem sabem o que quer dizer. Podem dizer por eles mesmos ou precisam de nós? Não se importam conosco, sejamos apenas narcisistas, não idiotas, né? Ah, e se eu quebrar o espelho, sair na rua, dizer oi pras pessoas, sei lá, chupar o pau do mendigo, ainda posso escrever, não, né? Melhor não, mas um looongo “claro que não” ou quem sabe assim sei lá, talvez?  Posso ler meu horóscopo este mês e ser escritora, o sinhô deixa?  E comprar uma rendinha, produzir beleza, fazer sexo com chiclete? E com chupeta? Se eu fizer, ainda posso escrever também? Ah…nossa grandeza é fazer tipo? Claro que eu adoro fazer tipo, não sabia? Eu até finjo que danço mordendo escopeta, quer ver? Posso escrever mais pra direita? Assim, mais pra esquerda? Tá bom? Assim mais pra esquerda só que com a mão desse jeito, prefere? Ah, verdade já sei! Nossa grandeza é ser irrelevante, você disse, né? Que frase, hein? E aí, me diz… esquerda, com a mão assim desse jeito como o sinhô mandou só que irrelevante, pode?

Autora da Meu Coração de Pedra-Pomes (Companhia das Letras), nascida em 1985, Juliana Frank já disse que suas tias influenciaram o humor de suas obras, carregadas ao mesmo tempo de sexualidade aflorada e uma dose de tragédia. Como em Hitchcock, seus personagens fazem amor como se estivessem morrendo e morrem como se estivessem fazendo amor.

Atualmente, vive entre Rio de Janeiro e São Paulo. É roteirista, adaptou “Pornopopeia”, de Reinaldo Moraes, para o cinema. As filmagens estão previstas para o segundo semestre. “Não tenho isso de só escrever de cabelo molhado ou só ao lado de um macaco albino, ou só de bobs pela manhã. Meu único ritual é não forçar, não arrancar a coisa do limbo. Espero as ideias se formarem no tempo delas, que nem sempre é o tempo cronológico.”  Juliana edita o blog www.doraliciaembuenosaires.blogspot.com


Vale a pena ler primeiro
é seção de Outras Palavras dedicada à literatura. Foi criada e é editada por Fabiano Alcântara. Jornalista especializado em cultura, repórter de Música do portal Virgula, e colaborador de diversas publicações – como Valor Econômico e os sites das revistas TRIP e TPM –, Fabiano é também músico, baixista das bandasMercado de Peixe e Lavoura e curador de festivais.Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.

TEXTO-FIM
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