Ler Primeiro: Entre com cuidado no amarelo piscante

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“Acreditávamos livremente em nossas próprias mentiras. Uma das meninas nos ofereceu chicletes. Alguém quer? Todos aceitamos, sem pausa para hesitação”

Por Fábio Minhão | Imagem: Roy Lichtenstein

Bem que poderíamos começar com uma silenciosa contagem regressiva: 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0… Nem um foguete subiu ao céu sideral. Nem uma bomba de nêutrons explodiu. Não houve nenhum duelo ou disparo de arma de fogo. Apenas uma contagem. Como se alguém forçasse a aceleração dos segundos, urgente, urgente!- para uma fuga, um desespero, uma salvação. A liberdade absoluta, em alta potência da voracidade juvenil. Ou como se alguém que contasse o tempo, para silenciar, para ter sangue frio, e não explodir. Engolir a seco, e dizer não à bomba H guardada no coração da alma e criada pelo rancor e pelo ódio nosso de cada dia.

Não vivíamos sob um sol negro, ao contrário do que pudesse ter suposto alguma sociedade secreta nazista e ariana. Era um sol, distante, tímido, melancólico, de final de inverno, que amarelava nossas fuças e faces, e aquecia os últimos instantes de nossa juventude iluminada. Estávamos vivos e isso era em princípio a nossa verdade.

Entretanto, em algum lugar dentre tantos desta contagem mágica, o carro seguia suave e veloz, e com nossos sorrisos tímidos, e piadas medíocres, nós recomeçávamos a nos reconhecer. Nossos rostos estranhos se tornavam aconchegantes e começavam a nos parecer confiáveis e nos sentíamos sinceros, como nunca éramos com nossos pais, irmãos ou colegas de trabalho, de insuportáveis empregos quase sempre temporários e/ou mal pagos. Acreditávamos livremente em nossas próprias mentiras. Uma das meninas nos ofereceu chicletes. Alguém quer? Todos aceitamos, sem pausa para hesitação. Estruturando de forma correta a ilusão e união febril da noite. Eu jurei ter visto um maço de cigarros azul-cintilante, imaginei uma possível marca popular, brasileira, atrás do encosto do banco de passageiros. Apalpei, procurei e não encontrei.

Era somente um cupom fiscal, alterava o que eu desejoso intencionava ter visto. Olhando atentamente o cupom fiscal, observei melhor. Um de meus amigos comprara um novo comando de válvulas e, atento, vejam vocês: o que parecia pouco provável ao olhá-lo dirigindo, com toda atenção voltada para as conversas e comentários ao redor, trocara o óleo do motor. Alguém me ofereceu cigarros da inusitada marca Fortuna, nunca antes vista por mim.  Muito estranha a pedreiragem, camaradas, a que universo paralelo isso pertence?…(as gargalhadas gerais saíam amplificadas). Um cigarro aromático colombiano…! Responderam cantando como se assoviassem o tema principal do filme cantando na chuva ou aquele que diz que devemos sempre olhar para o lado brilhante da vida. Não pude conter uma nova gargalhada barulhenta. Colombiano?

TEXTO-MEIO

Nunca imaginei que a Colômbia fosse pródiga em desenvolver cigarros, sua fama era outra, guerrilha armada, sequestro, assassinatos, narcotráfico, cocaína boa, como esquecer, futebol; cigarros? Não, nem muito menos aromáticos, e afinal, qual aroma?

Senti um gosto de alumínio, chumbo, como se tragasse alguma coisa metálica, olhei, de olhos bem abertos e li: sabor Café Mentol. Tudo se iluminava. Não levei a sério, nem estaria disposto a levar qualquer coisa a sério, apostei que nem seria ruim tragar profundamente e aquecer os pulmões, a noite chegava fria. Eu queria ouvir meu coração bater mais forte, alongar meus pensamentos, distender a exaustão. Furtar algo da vida que sempre estivera ao meu lado, passo a passo, como um animal de estimação e que nunca tivera sido minha como eu pressentia. Onde conseguiram? Perguntei, desacreditando dos cigarros que via, mais finos, uma embalagem toda preta, menor que a dos maços convencionais, com diversos naipes de baralho coloridos, flores havaianas ao redor de uma caveirinha prateada, em alto relevo, que se apresentava sorrindo (como se risse da cara Maria-mingau estampada em cada um de nós), canastrona, maléfica, com um cigarro no cantinho da boca, preso entre os dentes. Por instantes, achei que piscava um dos olhos. Não, ela não piscava, apenas sorria e exibia dois buracos no lugar dos olhos. Não deixava de ser cômica, além de irremediavelmente ridícula. Comprei em uma banca de jornais, na Avenida Paulista, doze paus o maço com quinze cigarros, caro, carinho, mas, sei lá, achei exótico, o Alziro esclareceu. A Ottília a minha frente, olhando para trás, sorria. Um riso constante. Havia uma festa de espíritos puros. Havia alguém sorrindo, um riso cheio de reinado, a nuca encostada no vidro lateral no banco de trás, sentado no lado oposto ao que eu estava sentado. Havia também duas garrafas de whisky. HUUUMMMMM! E cervejas, muitas cervejas. Ao meu redor, olhei atentamente todos os rostos, eles sonhavam também.

Se tivéssemos feito um retrato fotográfico precário daquele momento, de lá à idade em que estaremos todos cansados e velhos o bastante para tentar recordar, na porta de nossas casas litorâneas; ou sentados nos nossos leitos, aguardando os instantes da contagem final; babando, tremendo, cheirando azedo, sendo ridicularizados por crianças zombeteiras como velhos gagás e asmáticos, qualquer coisa que tivéssemos sido naqueles dias, inglórios também, afirmo, estejamos certos! Surgiria algo bem diferente, distante do que imediatamente passará a ocorrer. Salvo lucidez absurda, pouco provável aos nebulosos retratados. O mais indicado é: nós nos retrataríamos mais deturpados, achincalhados e escarnecidos do que, com todo tipo de afeto, tento evitar fazer agora.

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Fábio Minhão é paulistano. curte rock inglês e não somente. Toca guitarra com algumas bandas não-renomadas e, como trunfo ou justificativa, alega ter sido mod ou punk. Já teve uma infinidade de trabalhos pouco úteis e que lhe renderam sustento precário e sofrível. Tem 39 anos e atualmente trabalha em um escritório da administração pública, vivendo o pesadelo do ar-condicionado, como definiu. Busca concluir seu primeiro romance. Mora sozinho em Desalento, bairro da zona sul da capital, convivendo bem com um certo grau de esquizofrenia paranoide. O texto publicado aqui é a abertura do seu romance inédito “Entre Com Cuidado no Amarelo Piscante”.   


Vale a pena ler primeiro é seção de Outras Palavras dedicada à literatura. Foi criada e é editada por Fabiano Alcântara. Jornalista especializado em cultura, repórter de Música do portal Virgula, e colaborador de diversas publicações – como Valor Econômico e os sites das revistas TRIP e TPM –, Fabiano é também músico, baixista das bandas Mercado de Peixe e Lavoura e curador de festivais. Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.

TEXTO-FIM
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Fabio Minhao

Fábio Minhão é paulistano. curte Rock Inglês e não somente. Toca guitarra com algumas bandas não-renomadas e, como trunfo ou justificativa, alega ter sido mod ou punk. Já teve uma infinidade de trabalhos pouco úteis e que lhe renderam sustento precário e sofrível. Tem 39 anos e atualmente trabalha em um escritório da administração pública, vivendo o pesadelo do ar-condicionado, como definiu. Busca concluir seu primeiro romance. Mora sozinho em Desalento, bairro da zona sul da capital, convivendo bem com um certo grau de esquizofrenia paranoide. O texto publicado aqui é a abertura do seu romance inédito "Entre Com Cuidado no Amarelo Piscante".

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