Kandahar à espera do ataque

Por Barakwal Myakhel e Charles Recknagel, no Asia Times
Tradução de Caia Fittipaldi / Vila Vudu

Os cidadãos de Kandahar vivem numa cidade antiga, vibrante, que, com Cabul, alimenta vigorosamente o coração cultural, político e econômico do Afeganistão. Mas é cidade furiosamente disputada e há muitos anos não conhece vida normal.

Durante o dia, a metrópole de meio milhão de habitantes está sob o comando de Ahmad Wali Karzai controverso irmão do presidente afegão, Hamid Karzai. A corrupção é feroz, os moradores reclamam de haver “intermediários” de negócios por toda a parte, inclusive no comando das delegacias de polícia.

À noite, vários distritos são comandados pelos Talibã. São frequentes os assassinatos e sequestros de pessoas acusadas de cooperar com o governo.

Apesar de tudo isso, o que os moradores mais temem em Kandahar é o grande ataque à cidade, anunciado pelo exército da OTAN para o próximo verão. Ninguém sabe quando a operação começará. O que se sabe são pequenos detalhes que, volta e meia, vazam de declarações de militares. Tudo leva a crer que acontecerá em junho. Mas ninguém sabe que tipo de operação os militares planejam. No máximo, generais dos EUA têm sugerido que não será ataque direto à cidade, a ferro e fogo, mas “uma maré crescente de segurança”.

À falta de informação de melhor qualidade, os moradores de Kandahar esperam o pior. E não alimentam qualquer ilusão de que alguma nova campanha militar – por mais cuidadosamente planejada que seja – resolverá, algum dia, os problemas da cidade.

Abdul Ahmad Mohamadyar, escritor nascido em Kandahar, verbaliza as preocupações de muitos residentes na cidade. “Tivemos operações militares constantes nos últimos nove anos, no Afeganistão: para nós, não há surpresa nem novidade. Nessas operações, sempre iguais, quem sofre é o povo”, diz ele. Relembra, como mau exemplo, a operação militar nos arredores da província de Helmand, quando as forças da NATO expulsaram os Talibã da área de Marjah.

“Basta lembrar as operações em Helmand. O povo sofreu, todos perderam casas, todos ficaram ainda mais furiosos contra os exércitos da ocupação”, diz Mohamadyar. “Não acredito que o ataque anunciado contra Kandahar, ainda que seja parte de alguma nova estratégia, leve a qualquer resultado positivo que resolva os problemas de falta de segurança, ou que enfraqueça as forças que se opõem ao governo.”

TEXTO-MEIO

Medo e fuga

Apesar de os militares norte-americanos garantirem que os tiroteios contra civis não se repetirão em Kandahar, são frequentes as comparações entre o próximo ataque e o que se viu em Marjah – onde houve intenso tiroteio nas ruas. O principal comandante dos EUA e OTAN no Afeganistão, general Stanley McChrystal, disse que não há “Dia D” ou “Hora H”.

Essas expressões aplicam-se em ataque contra inimigo entrincheirado, como aconteceu em Marjah em fevereiro. Mas parte importante das explicações dos militares são perdidas na tradução, sobretudo porque as pessoas preocupam-se, sobretudo, com a segurança da família e dos amigos.

Uma das explicações para isso são os refugiados. Milhares de pessoas deslocaram-se para Kandahar, fugindo de Helmand e do ataque dos EUA e OTAN contra a cidade, na operação em Marjah. Muitos desses continuam vivendo em campos para refugiados nos arredores da cidade. Têm medo de voltar para suas casas, porque a região foi pesadamente minada pelos Talibã, depois do ataque. E os refugiados temem que os Talibã, ativos em Helmand, promovam ataques de retaliação contra os que fugiram.

Diariamente, várias famílias estendidas chegam à cidade de Kandahar vindas do interior da província de mesmo nome, onde houve operações da OTAN ao longo do ano passado. Esses recém-chegados sentem-se mais seguros no centro de uma grande cidade do que em suas vilas de origem, onde se esperam os ataques dos exércitos dos EUA e OTAN, previstos para as cidades e arredores, no próximo verão.

Para muitos moradores de Kandahar, o único modo de estabilizar a cidade seria constituir governo mais ativo, que consiga atrair os Talibã para a mesa de negociação. “Enquanto não houver administração pública, não conseguimos nos aproximar efetivamente da população”, diz Ahmad Shah Spahr, líder da “Caravana da Paz”, movimento de cidadãos na cidade. “Ninguém pode obrigar as pessoas a fazer alguma coisa, ou impor-lhe atitudes que não entendem e com as quais não concordam. Ninguém pode governar de pistola em punho. É preciso conquistar os corações e as mentes das pessoas. Se há governo que conquiste corações e mentes, até os inimigos confiam no que seja negociado e acertado. Então, se poderá pensar em iniciar conversações de paz.”

Pesquisa recente feita por ordem do Exército dos EUA, que ouviu quase 2 mil residentes de Kandahar chegou a resultados bem próximos disso. O estudo mostrou que os moradores são favoráveis a negociar com os Talibã, em vez de combatê-los com armas, numa proporção de 19 para 1. E quatro, de cada cindo entrevistados, dizem que os Talibã deporão armas, se houver empregos. A pesquisa foi feita pelo instituto Glevum Associates, de Massachusetts, em dezembro passado.

Objetivo das negociações

Apesar de a maioria dos habitantes de Kandahar querer mais espaço para buscar soluções políticas, esse espaço encolhe mais a cada dia, à medida em que se aproxima a data prevista para o ataque militar. Em 19 de abril, pistoleiros assassinaram o prefeito, Azizullah Yarmal, quando rezava ajoelhado numa das principais mesquitas da cidade. Só se pode avaliar o efeito político desse crime quando se sabe que Yarmal era um dos políticos mais admirados e respeitados em Kandahar, sobretudo por sua honestidade. O crime provocou revolta e desalento em todos quanto ainda têm esperança de reconstituir a normalidade da vida na cidade. Porta-voz dos Talibã declarou aos jornais, depois do atentado, que Yarmal foi justiçado porque trabalhava com “o governo fantoche” da cidade.

Altos oficiais da OTAN, dos EUA e do exército afegão esperam, com o ataque previsto para o próximo verão, enfraquecer os Talibã e acabar com esses atentados. Imaginam também que, depois de enfraquecidos, os Talibã concordem em se reunir com as forças da ocupação, para negociar.

Para conseguir isso, ninguém duvida de que EUA e OTAN atacarão maciçamente. Carl Forsberg, pesquisador do Institute for the Study of War, em Washington, analisou em detalhes o quadro em Kandahar. Em entrevista à Radio Free Europe/Radio Liberty, disse que estima que o ataque mobilizará cerca de 25 mil soldados em toda a província de Kandahar.

“Em números totais, incluindo tropas de apoio, haverá entre 12 mil e 15 mil soldados da OTAN e mais entre 10 mil e 12 mil soldados do exército afegão”, disse Forsberg. “No total, não menos de 25 mil soldados, das forças da OTAN e do exército afegão”.

Presença permanente”

O mesmo especialista não duvida de que, depois, a maior parte desses soldados permanecerão na província durante meses. “Será presença permanente”, diz Forsberg. “Não entraremos para sair. Estamos entrando para ficar, montar bases com a população local e, possivelmente, permanecer por muito tempo, até que as forças de segurança afegãs possam assumir as missões de segurança. Por isso, creio que o número de soldados que participarão do ataque deve ser semelhante ao número de soldados que permanecerão em Candahar por, no mínimo, mais um ano.”

Só se considerará a possibilidade de retirada dos soldados depois que a polícia de Kandahar for considerada apta para manter a segurança da cidade – o que absolutamente não ocorre hoje. Para Forsberg, o processo implicará “uma limpeza” dos efetivos policiais, para que se erradique a corrupção e se estabeleçam cadeias claras de comando, hoje inexistentes.

Mudanças profundas, como trazer os Talibã para a mesa de negociações, erradicar a corrupção e instalar “boa governança” no país, é tudo com que sonha a população de Kandahar. Mas, depois de anos de espera, os moradores merecem ser compreendidos, se já não acreditarem em coisa alguma do que ouvem. Não é culpa deles se só anteveem com medo e ira – o ataque anunciado contra sua cidade, pelos soldados e generais dos EUA e da OTAN.

Barakwal Myakhel é correspondente da Rádio Afeganistão Livre, da rede RFE/RL, em Kandahar.

Charles Recknagel trabalha em Praga.

Richard Solash
, da Rádio Washington Livre, da mesma rede, contribuiu para essa matéria.

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