Iraque, em chamas, sacudirá o Oriente Médio?

Parte da população deixa Mosul, terceira maior cidade iraquiana, conquistada pelo ISIS. Doze anos após invasão norte-americana, pesadelo do país parece não ter fim

Civis fogem de Mosul, terceira maior cidade iraquiana, conquistada pelo ISIS. Doze anos após invasão norte-americana, pesadelo do país parece não ter fim

Ameaça do ultra-fundamentalismo islâmico pode suscitar aliança surpreendente entre Irã e Arábia Saudita, que transformaria geopolítica da região

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Inês Castilho

Um movimento jihadista, denominado Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Islamic State in Iraq and Syria, ou ISIS, em inglês), acaba de obter uma vitória impressionante e arrasadora ao capturar Mosul, terceira maior cidade do Iraque, ao norte do país. Suas forças prosseguiram para o sul, em direção a Bagdá, e tomaram Tikrit, cidade natal de Saddam Hussein. O exército iraquiano parece ter desabado, tendo inclusive cedido Kirkuk aos curdos. O ISIS também aprisionou diplomatas e caminhoneiros turcos. Ele agora controla efetivamente um grande pedaço do Norte e do Oeste do Iraque, bem como uma zona contígua no Nordeste da Síria. Comentaristas têm rotulado esta zona transfronteiriça de Jihadistão. O ISIS tenta restabelecer um califado numa área tão grande quanto possível, com base numa versão particularmente estrita da lei islâmica, a sharia.

O choque e o medo que os sucessos deste movimento têm provocado podem levar a grandes realinhamentos geopolíticos no Oriente Médio. Geopolítica é uma arena de frequentes surpresas, na qual conhecidos antagonistas repentinamente reconciliam-se e transformam sua relação naquilo que os franceses chamam de frères ennemis, inimigos fraternos. O exemplo mais famoso do último meio século foi a viagem de Richard Nixon à China para reunir-se com Mao Tsé Tung, uma viagem que serviu fundamentalmente para rever os alinhamentos dentro do sistema-mundo moderno e desde então serve de apoio à relação China-Estados Unidos.

Há tempos, a mídia global enfatiza a profunda hostilidade existente entre a Arábia Saudita e o Irã. Uma reconciliação parecia improvável. Mas, considerando-se que nos últimos meses tem havido encontros secretos entre os dois países, pode-se perguntar se uma surpreendente inversão geopolítica não é iminente.

Sempre que essas reviravoltas ocorrem, a questão a ser respondida é o que os dois lados ganham com isso. É necessário que haja interesses comuns que superem as bases conhecidas de hostilidade. Comecemos pondo de lado um argumento dos analistas para explicar o antagonismo. Trata-se do fato de que o governo do Irã é controlado por imãs xiitas e a Arábia Saudita, por uma monarquia sunita. Isso é verdade, naturalmente. Mas lembremo-nos de que, até 1979, Irã (sob o governo do Xá) e Arábia Saudita (sob a mesma monarquia sunita de hoje) foram aliados geopolíticos próximos, e trabalharam juntos na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em todas as questões relacionadas ao preço de petróleo – uma preocupação central na economia de ambos os países. Só a partir de 1979 o Irã mudou sua política e teve início o antagonismo público entre os dois, mas só então.

O ponto fundamental da disputa pública entre Arábia Saudita e Irã foi a competição pelo domínio geopolítico na região. O que poderá mudar isso agora é precisamente o levante do ISIS, que representa grave ameaça a ambos os Estados. O interesse comum aos regimes da Arábia Saudita e do Irã é a necessidade de uma relativa estabilidade dentro de seus estados e na região como um todo.

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Claro que ambos os regimes são assaltados por divisões internas entre elementos “liberalizantes” da classe média urbana e defensores de uma versão estrita e conservadora do Islamismo tradicional. Mas a ameaça que o ISIS representa para ambos os grupos, em ambos os países, poderia levá-los a aquietar outros tipos de luta. Existem atualmente lutas entre diversas forças, que não a do movimento ISIS, acontecendo na Síria, Líbano, Iraque, Bahrein, Iêmen e outros lugares.

Há, além disso, outros elementos pressionando por esse tipo de reconciliação. Ambos os regimes compartilham certa consternação a respeito das intervenções, incertas porém contínuas, dos Estados Unidos e países europeus em sua região. Os sauditas perderam a fé na confiabilidade de alianças passadas, e estão chegando mais perto da visão iraniana de que o Ocidente deveria permitir que as forças regionais resolvessem suas próprias diferenças. Ambos os regimes estão também descontentes com o papel constante e um tanto imprevisível do Qatar na região. E estão descontentes com os impasses que impedem a criação de um Estado Palestino significativo. Ambos os regimes lançam um olhar atento sobre o regime militar secular agora estabelecido no Egito. E, finalmente, os dois querem ver algum tipo de resolução política dos conflitos no Afeganistão.

É uma longa lista de interesses comuns. Em síntese, eles têm mais em comum do que os analistas externos frequentemente acreditam. Além disso, se chegarem a firmar um acordo histórico, o novo arranjo pode atrair um apoio considerável – antes de tudo da Turquia, mas também, em seguida, dos curdos, do Magreb, da Jordânia, do Paquistão e da Índia, da Rússia e da China, e até mesmo de dentro do Afeganistão. Claro, isso é especulação, mas não especulação ociosa. A realidade é que os regimes, tanto da Arábia Saudita como do Irã, estão preocupados com sua sobrevivência em meio à crescente desintegração do Oriente Médio. Manter a tendência atual provavelmente não os ajudará a sobreviver. Eles podem avaliar que é hora de mudar de rumo.

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Immanuel Wallerstein

Immanuel Wallerstein é um dos intelectuais de maior projeção internacional na atualidade. Seus estudos e análises abrangem temas sociólogicos, históricos, políticos, econômicos e das relações internacionais. É professor na Universidade de Yale e autor de dezenas de livros. Mantém um site onde publica seus textos (http://www.iwallerstein.com/).