Individualismo e misticismo

Em 2011, “A Árvore da Vida”, “Melancolia” e “Another Earth” decidiram dar à crise individual uma dimensão planetária.

Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.

 

Eis que o ano 2011 chega ao fim com uma quantidade significante de filmes que misturam o intimismo ao misticismo. Melancolia, dirigido por Lars Von Trier, relacionava a depressão da protagonista com o fim do mundo, marcado pela presença de um planeta em rota de colisão com a Terra. A Árvore da Vida, realizado por Terrence Malick, inseria a típica família americana (casal belo, filhos, ideal de guerra e bravura, quintal e jardim) nas origens do ser humano no planeta, desde o Big Bang. À sua maneira, Another Earth efetua a mesma relação ao relatar a culpa de uma adolescente que acidentalmente matou duas pessoas num acidente de carro, evento que coincide com a aparição de uma segunda Terra no céu.

Em comum, esses três filmes usam o cosmos para falar do indivíduo, ao invés de inserirem o indivíduo num universo infinito. Sai de cena a ideia religiosa de que “o homem é apenas um grão num mundo superior”, entra a era do individualismo, na qual os astros interessam unicamente pela capacidade a ilustrar o estado de espírito de cada personagem. Nenhuma das três produções constitui uma ficção-científica propriamente dita, porque os dados relativos à ciência servem apenas como metáfora psicológica, e não como possibilidade física. O cosmos reflete a psiquê, os planetas representam a complexidade interna de cada um. A metonímia se inverte : o mundo é uma parte ínfima do indivíduo.

TEXTO-MEIO

Como diferença essencial, existe o orçamento, e portanto as proporções de cada projeto. Tanto Melancolia quanto A Árvore da Vida constituíam produções imensas, longas, lideradas por diretores prestigiosos. Another Earth é feito com pouquíssimo investimento, com câmera digital de baixa qualidade, produzido e escrito pelas mesmas duas pessoas, Mike Cahill (também diretor) e Brit Marling (também atriz principal). Enquanto as duas primeiras produções pretendiam retratar o aspecto visualmente grandioso do universo, esta outra ficção se contenta de uma segunda Terra colada no céu, em grande proporção, aparecendo do dia para noite, sem explicações.

Assim, fica difícil pensar que o aspecto cósmico poderia ter qualquer outra importância além do retrato (megalomaníaco no tema, minimalista nas imagens) de culpa da protagonista, Rhoda. Isto vale não somente para este segundo planeta misterioso, mas também tudo que cerca a garota: seus pais, o marido cuja esposa morreu no tal acidente, todas as pessoas existem unicamente para refletir os sentimentos de uma única pessoa. Quando Rhoda liga a televisão, o rádio ou seu computador, a notícia diz sempre respeito à nova Terra, e a frase apresentando a notícia está pertinentemente começando. Quando ela entra em casa, seus pais perguntam: “Você viu a nova Terra?”. Tudo que circunda Rhoda parece não existir, a garota dá a impressão de estar cercada de seres de papelão, acessórios, um mundo que espera o “ação” do diretor para respirar, se mexer e fazer alguma referência ao outro planeta – algo que lembra, finalmente, mais O Show de Truman do que as outras produções metafísicas citadas acima.

Enquanto isso, a câmera de Mike Cahill treme com gosto, aproxima-se e afasta-se em zooms violentos, ajustando o foco durante a cena, de maneira brutal, o que talvez signifique uma das duas possíveis intenções do diretor: ou a de dizer “perceba o dispositivo, isto aqui é só um filme” ou então “perceba o dispositivo, isto aqui é realista como uma reportagem amadora que se passa na televisão.”. Talvez a segunda opção seja a mais adequada. Neste mundo em que planetas aparecem no céu como uma bolha na superfície da água, a câmera e a trama pretendem mesmo assim ser realistas, verossímeis e sentimentais. Rhoda se envolve com o marido de sua vítima, esconde-se da sociedade trabalhando na limpeza de uma escola (onde ela esfrega cada parede como se expiasse sua pena, livrando-se ao martírio) e encontra mesmo velhos indianos com ares de Messias, que comunicam-se em frases de efeito sobre o bem-estar e a auto superação.

Não estamos no terreno da autoajuda, já que Rhoda não aprende a superar seu trauma, e sim no terreno de uma constante melancolia, desta que fecha seres frios em casas frias e silenciosas, ne penumbra, em meio à sujeira e à desorganização, a fim de mostrar que suas vidas são realmente miseráveis. Ao tentar combinar elementos tão diferentes quando o minimalismo da atuação da protagonista e os tremeliques exagerados da imagem, ou o melodrama da culpa individual e o drama mundial da descoberta cósmica, Another Earth se demarca justamente por uma inadequação, uma heterogeneidade. Trata-se da dificuldade em retratar a grandiloquência do cosmos no interior de uma casa-cenário de produção precária, ou a de retratar a pequenez do conflito de sua protagonista como um elemento capaz de mover sozinho a trama, o espectador, todos os personagens ao redor e mesmo os astros no espaço.

Another Earth (2011)
Filme norte-americano dirigido por Mike Cahill.
Com Brit Marling, William Mapother, Matthew-Lee Erlbach.

TEXTO-FIM

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.