Imprestável

natal

“Meu dinheiro e o livreto de cheques já eram papel velho, ‘dinheiro de pobre': transpiravam amarrotados, envergonhados de seu corpo. As moedas virtuais, esse sol que não se imagina, já subiam no horizonte”

Crônica natalina de Priscila Figueiredo | Imagem: Linda Gessner, montagem a partir de foto de Clem Onojeghuo (2017)

Fazia meses que eu não ia a um shopping, mas minha impressão, quando fui no começo da semana, era que eu não ia há anos. O fato de estar um pouco doente decerto aumentava minha sensação de distanciamento; em todo caso, as vitrines nunca me pareceram uma coisa tão estranha – e num shopping de padrão mais alto elas são especialmente estranhas. Especialmente porque a última tendência hoje são as lojas que não são lojas, mas uma “experiência” – lembrei da Marina Abramovic, num vídeo preparado para sua exposição no Sesc, repetindo monotonamente, como o Dr. Mabuse, “o que vou te proporcionar é uma experiência”; até gostei do que vi, mas a voz não deixava de me ocorrer agora… Voltando a esse tipo de loja: a gente tem dificuldade de saber que é loja. A Apple teria sido a pioneira nisso que prefere chamar de praça –  um encontro republicano, talvez florentino, às vezes em pátios ensolarados, onde comprar é só o começo, como dizem, daquilo que deve ser também “convivência, aprendizagem, transformação de si”. Talvez seja uma citação ou apropriação de certa noção de cidade, que, como as lojas, vai se tornando também obsoleta. O fato é que, ignorante de que o lugar em que eu estava não era mais um varejo normal  de roupas e acessórios, mas uma… experiência, embora mais modesta, fiquei caçando alguém cujo olhar ou postura corporal me indicasse ser um vendedor (não devia ser mais esse o conceito, claro, mas eu ainda caçava com gato). Achei uma finalmente, depois de ter visto numa bancada dois grandes computadores, de telas finas como folhas, consultados por alguns que para minha surpresa eram clientes. Peguei um par de brincos e alguma outra coisa. Estava sem cartão por causa de um assalto recente, mas perguntei, com uma mistura de ceticismo e imperdoável ingenuidade, se aceitavam cheque. Então a moça responde: Nãaaao, ainda nãaaao. Já tinha pensado que os humanos também parecem meio modificados nesse ambiente, mas com essa resposta só pensei: sua idiota, não é Ainda não, é Não Mais, Não Mais! Depois me ocorreu que, para ter respondido assim, ela, muito jovem, não devia saber mais o que era cheque; ou devia achar que era um experimento ainda a se generalizar. Só pensei, claro, dei um sorriso amável e então resolvi pagar com dinheiro os brincos, aliás bem em conta – a sofisticação do lugar, sua tendência etérea (lá não é propriamente um lugar de trabalho e, como logo saberia, não é propriamente um lugar de compra), ou ainda aquele ar de galeria de arte, contrastava com o preço popular; tem coisa aí evidentemente, a começar pela sequidão de empregados ao menos nessa esfera do negócio, que em outra ponta deve contar com mãos menos escassas que baratas. Então ela me disse que aquela loja era…. e enunciou o conceito em inglês.

O caso era que nada ali podia ser levado, mas se tratava  apenas de um mostruário, um enorme mostruário, em cujas páginas estávamos andando. Eu escolhia e eles me mandavam pelo correio (naturalmente já duvido se foi essa a palavra que ouvi e não algum outro conceito). Que facilidade, pensei! Como eles facilitam a nossa vida. Sim, sei que isso já existiu e ainda existe em certo tipo de serviço artesanal, como alfaiataria, estofamento – mas, assim, de produtos industrializados! Claro, on demand, feito para as massas, mas com uma distribuição selecionada, como se você fosse selecionado. E não era um carro, era um par de brincos bonitos, mas bem vagabundinhos! Meu tutu, meu arame, meus cobres e caraminguás… eram uns inúteis que não podiam trazê-los para as minhas mãos ansiosas, mas eu também não estava disposta a matar uma formiga com um tiro de canhão como parte da experiência. Me vi sem energia, batida. Você pode também encomendar por esse computador, táaaa? Agradeci e fui embora, sentindo um fosso ainda maior entre mim e as mercadorias. Meu dinheiro e o livreto de cheques já eram papel velho, e, do mesmo modo, “dinheiro de pobre”: transpiravam, amarrotados, envergonhados de seu corpo concreto  ocupando a carteira, cujo design, que ainda fora projetado para abrigar as notas esticadas, como num fichário, em muito breve também seria coisa do passado. As moedas virtuais, esse sol que não se imagina, já subiam no horizonte. No caixa para pagar o estacionamento, tremi com o aviso de uma tarja colocada no alto da tela: AGORA sua vida ficou bem mais fácil! Tremi e, para dizer a verdade, quase chorei. Na saída, um hohoho grosso e interminável de um papai-noel virtual me agradecia pelas compras. Quanto mau gosto, mas essa superioridade de gosto estético de nada valia; me senti tão imprestável.

TEXTO-FIM

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Priscila Figueiredo

Priscila Figueiredo é poeta e crítica, professora de Literatura Brasileira na USP, autora de "Em busca do inespecífico" (Nankin, 2001), sobre Mário de Andrade, e "Mateus" -- poemas (Bem-te-vi, 2011).

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