Iêmen: a revolução ignorada

ONU não se importou com assassinatos num país sem reservas petrolíferas e cujo ditador apoiava a “guerra contra o terror”

Por Mónica Prieto, Periodismo Humano | Tradução: Gabriela Blanco

O ditador do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, deixou a presidência do país após firmar um acordo com os demais líderes políticos da Península Arábica. A cerimônia que marcou a renúnica de Saleh—e o fim de um regime de 33 anos—aconteceu no dia 23/11, na capital da Arábia Saudita, Riad, sob os olhares atentos do rei Abdullah, maior aliado do governo iemenita na região. 

O documento assinado por Saleh estabelece que o ex-ditador deverá repassar o poder para seu vice-presidente Abdrabuh Mansur Hadi, num prazo de 30 dias. Isso já foi feito. Em troca, Saleh ganhou uma ampla imunidade jurídica, o que lhe livrará de futuros julgamentos sobre excessos cometidos durante seu governo e, principalmente, na repressão aos protestos pacíficos que tomaram as ruas do país em janeiro. 

Outro ponto do acordo é que o novo presidente deveria convocar eleições em, no máximo, três meses—ou seja, até fevereiro de 2012. Quatro dias após assumir o poder, Hadi nomeou o líder da oposição iemenita, Mohammed Basindwa, para assumir o cargo de primeiro-ministro. Supeita-se, porém, que Saleh continuará dando as cartas no governo do país. Pelo menos até que saia do Iêmen. Faz parte do acordo assinado em Riad uma viagem à Nova York para tratamento médico. 

Na reportagem abaixo, a repórter espanhola Mónica Prieto explica as intrincadas relações de poder existentes entre Estados Unidos, Arábia Saudita e Iêmen, e lança olhares que ajudam a entender como Saleh aproveitou-se do fanatismo religioso da Al Qaeda para obter ajuda militar de Washington e, assim, perpetuar-se no poder. Ao entrevistar membros destacados da resistência, a reportagem também conta como a revolução uniu os iemenitas e porquê os cidadãos deste empobrecido país recusaram-se a pegar em armas e empreender uma guerra civil contra o regime opressor. (Tadeu Breda)

TEXTO-MEIO

O máximo que a comunidade internacional dedicou de atenção para a revolução social que mobiliza centenas de milhares no Iêmen desde janeiro foram dois minutos. Cento e vinte segundos desperdiçados pelo Conselho de Segurança da ONU no dia 21 de outubro para debater como reagir perante a repressão armada contra uma população que se colocou massivamente nas ruas para acabar com 33 anos de ditadura, a ameaça de que o conflito armado entre o regime e as tropas desertoras degenere em outra guerra civil, e a crise humanitária — admitida pelas próprias Nações Unidas — que atinge o país e se agrava dia a dia.

“Somente dois minutos. E sabe o que faziam as tropas do presidente Ali Abdullah Saleh nestes precisos dois minutos? Disparavam contra os manifestantes”, explica, recostado em uma poltrona de um café central de Beirute, no Líbano, Farea al Muslimi, um dos mais destacados ativistas iemenitas e um dos mais ativos nos meios de comunicação do exterior.

Farea não se surpreendeu que o Conselho de Segurança despachasse o dossiê iemenita com mais prontidão do que se solicita a janta em um restaurante. No diário das sessões, a resolução 2.014 sequer é identificada com o nome do país: simplesmente se refere a ela como “Resolução sobre Oriente Próximo”. Mais indignante ainda é seu conteúdo, mil mortos e 19.000 feridos depois do início das manifestações sociais. “Em Human Rights Watch, nos sentimos decepcionados por um texto que é contraditório”, explica com certo assombro Christophe Wilcke, pesquisador da ONG humanitária para o Iêmen, contatado por telefone. “Por um lado, pede que todos os atores respondam pelos seus crimes, e nós opinamos que isso inclui a Ali Abdullah Saleh; por outro, respalda a iniciativa do Conselho de Cooperação do Golfo [que media o conflito entre o regime e a população sem nenhum êxito] que outorga imunidade a Saleh”.

Ou, o que significa a mesma coisa, o Conselho de Segurança presenteou Saleh com uma licença internacional para matar. Enquanto se votava a primeira resolução sobre a atual crise no Iêmen, os disparos soavam pela capital, Sana, para desespero dos cidadãos. Horas depois, o balanço em sangue aumentava, segundo a imprensa local, para 20 mortos no contexto da guerra interna que mantém Saleh com o general desertor Ali Mohsen, seu primo-irmão, seu antigo aliado e agora seu principal inimigo, que mostra a cara ao ditador no comando da I Divisão do Exército e, em teoria, ao lado dos manifestantes.

“Há uma semana os disparos e os bombardeios são quase diários”, explica por telefone desde Sana Atiaf al Wazir, responsável pelo blog Women from Iemen (Mulheres do Iêmen) e outro dos rostos públicos da revolução. “As tropas do regime atacam os desertores, fortes em Hasaba e Sofan [feudos do poderoso líder tribal Ahmed Ahbar, que também abandonou o ditador] e tememos um aumento dos enfrentamentos. Mas isso não tem nada a ver com o acampamento pacífico que levamos a cabo desde fevereiro”, continua, também pelo telefone. “Saleh conseguiu que os meios de comunicação coloquem o foco nos combates, mas eles são um detalhe muito pequeno se comparado com a revolução”, insiste Farea, que tem 21 anos e é estudante de Ciências Políticas.

Revolução? Que revolução? A ausência de informação sobre o Iêmen é gritante. Desde janeiro, suas marchas são multitudinárias. Rios de homens e mulheres revestem ruas inteiras proferindo gritos de mudança, liberdade e dignidade. Sua luta é a mesma que qualquer outra nação árabe submetida à ditadura, e seus mortos também caem abatidos por balas dos soldados que deveriam defendê-los: “No Iêmen, investem-se milhões de dólares em um Exército que nunca nos defendeu de uma agressão externa”, resume, abatido, Faria. O país árabe mais pobre, mais instável, o segundo lugar do mundo com mais armas por cabeça — 15 milhões, 61 por cada 100 habitantes — depois dos Estados Unidos e um dos mais instrumentalizados por potências estrangeiras, desde os EUA até a Arábia Saudita, passando pela Al Qaeda, carece de atenção internacional. E cada minuto de silêncio trai a um povo que desafiou o medo e a impunidade para empreender uma revolução pacífica que desemboque em democracia.

Em janeiro e fevereiro, as primeiras marchas de dezenas de milhares de pessoas se transformaram em acampamento permanente junto à Universidade, que foi batizada de Praça da Mudança. Jovens e crianças, homens e mulheres, urbanos e membros de tribos, que meses atrás nunca se relacionaram uns com os outros, instalaram-se sem uma única arma para exigir a saída de Saleh, que pretendia entregar em herança a Presidência ao seu filho, perpetuando um sistema militar, corrupto e ditatorial baseado no medo. Configurava-se, assim, um milagre: “No ano passado toda essa gente não teria se conhecido pessoalmente, salvo se estivessem empunhando armas. Pela primeira vez nas últimas décadas, nós, iemenitas, nos unimos. Saleh nos fez pensar durante anos que éramos serpentes, dizia que governar Iêmen era como dançar sobre cabeças de serpentes, mas esta revolução nos serviu para olharmos uns aos outros. E descobrimos que não somos maus nem temíveis, mas que somos pessoas e que podemos conviver juntos”.

Farea al Muslimi se emociona recordando uma cena que presenciou há um mês na Praça da Mudança de Sana, antes de abandonar o Iêmen para retomar seus estudos em Beirute: “Apareceu um jovem de bermuda e com uma toca, o típico rapaz do Facebook, e se sentou para conversar com um homem mais velho, membro de uma tribo, adornado com a roupa típica. E começaram a discutir sobre a conveniência de se usar véu. O rapaz lhe dizia que isso não figurava no Corão, o outro argumentava que era o islamicamente correto. É uma conversa impensável há algum tempo atrás. Esta revolução rompeu com a lacuna geracional e algo mais. Antes, somente nos olhávamos cara a cara para combatermos, agora o fazemos para construir algo pacificamente”. O certo é que para os iemenitas sobram-lhes motivos para promover uma revolução, como detalha o jovem universitário: “50% do país é pobre, uma quinta parte da população morre por falta de alimentos, sete milhões vão para a cama com fome. Nos meus 21 anos de vida vivi sete guerras, nunca tivemos paz, nem igualdade, nem liberdade… Ou existimos ou não existimos. Ou saímos à rua ou aceitamos morrer em silêncio. Podemos morrer de fome ou morrer lutando pela nossa dignidade e a dos nossos”.

E escolheram a segunda opção. Saleh começou então um jogo de promessas não cumpridas que somente lhe serviam para ganhar tempo e obter silêncio internacional. Primeiro, prometia reformas, depois, que não entregaria o poder ao seu filho, mais tarde, que não voltaria a optar pelo poder. Finalmente, que abandonaria seu cargo quando recebesse garantias que nunca lhe pareciam suficientes. Enquanto isso, ordenava a suas tropas atacar com fogo real e gás lacrimogêneo os manifestantes desarmados, que já ocupavam as principais praças e ruas de todo Iêmen, desde Taiz até Aden, de Sana a Mukalla. Uma insuportável enxurrada de mortes que quase alcançam já o milhar. Mesquitas convertidas em hospitais de campanha, bairros evacuados por seus habitantes por temor aos disparos. E o efeito contrário ao desejado. Como ocorreu com o resto das ditaduras, cada morte civil arrastava mais gente para as ruas. As dezenas se converteram em centenas e aos líderes iniciais somaram-se responsáveis religiosos, como Sheikh Abdul-Majid Al-Zindani, muitas tribos do país até os independentes do sul ou os houthis, os rebeldes zaidis que combatem no norte contra a discriminação de sua comunidade.

Alguns se preocuparam quando viram passear entre suas fileiras o familiar rosto do general Ali Mohsen, conhecido por seus desmandes ao lado da família Saleh: “É certo que sua presença nos dividiu”, confessa Atiaf, uma das ativistas que participou na redação dos princípios da revolução. “Não saímos às ruas para substituir Saleh por Ali Mohsen. Queremos um Estado de Direito, um Governo que nos represente, um Estado civil baseado na democracia”, incide Farea. “Ali Mohsen não representa nenhuma mudança, foi um sanguinário e corrupto amigo de Saleh, o mesmo que [o líder tribal mais influente do país] Ahmar”, insiste Atiaf al Wazir. “Mas não podemos impedir que se somem à revolução”. Tampouco se pode impedir que tomem as armas para defender os manifestantes dos disparos do regime, convertendo Sana em uma cidade militarizada e começando os combates que hoje em dia paralisam a cidade: “Há checkpoints por todos os lugares, alguns amigos contaram quantos há do centro ao aeroporto: somam 16. Alguns são dos desertores, outros de Saleh”, detalha Fatima Saleh, outra ativa tuiteira iemenita envolvida na revolução social.

Como demonstra a ambígua resolução 2.014, as vidas humanas valem barato no Iêmen. Décadas de guerras e a mais recente aparição da Al Qaeda estigmatizaram o país mais pobre do mundo árabe, sem recursos energéticos que inquietem os dirigentes ocidentais: “Iêmen não tem importância para a comunidade internacional. Carece de petróleo e não tem Israel em suas fronteiras, assim não afeta os interesses regionais”, avalia Hakim al Masmari, direto do diário Yemen Post, em conversa telefônica desde Sana. “Saleh é como qualquer outro ditador: sente-se forte porque não se sente questionado, mas em qualquer momento pode descobrir sua debilidade. Continuará com sua agenda porque pensa que ninguém pode lhe tirar do poder”.

Tanto Al Masmari como Wilcke, assim como Ataif al Wazir e outros ativistas, respondem de forma automática o que se poderia fazer para parar o ditador. Sanções econômicas, proibição de viajar para ele e os seus — das forças a cargo de seu filho e seus sobrinhos depende seu poder militar —, congelamento de bens no estrangeiro, asfixia econômica… “A revolução iemenita foi abandonada diferentemente de outras revoluções principalmente pelos EUA e Arábia Saudita”, explica Noon Arabia, pseudônimo da autora do blog Notas de Noon e uma das tuiteiras mais ativas e influentes em relação com o Iêmen. “Saleh foi complacente com a política saudita no Iêmen, foi um servidor leal e também um aliado americano na chamada guerra contra o terror, permitindo-lhes atacar com drones [aviões não tripulados] o território iemenita quando o desejem, em troca de receber ajudas militares. Ambos os países desejam manter o status quo pese a sua retórica sobre a necessidade de que abandone o poder. E, dado que os meios de comunicação principais são financiados por esses países, faz-se vista grossa sobre o que se passa no Iêmen”.

Para os grandes meios de comunicação, Iêmen é Al Qaeda. Para os iemenitas, Al Qaeda é uma mera anedota em uma vida de sofrimentos. Mas, desde que Saleh vendeu o espaço aéreo para Washington em troca de ajuda militar, essa anedota custa vidas e condena famílias inteiras. O assassinato de Abdul Rahman al Awlaqi foi um ponto de inflexão. No fim de setembro os EUA se parabenizava publicamente por assassinar, mediante um bombardeio aéreo, o seu pai, Anwar al Awlaqi, cidadão americano-iemenita e um dos comandantes locais da Al Qaeda. Em 14 de outubro, a população se comovia após saber da morte de seu filho, Abdul Rahman, de 16 anos, um adolescente fã de livros de Harry Poter e da série Crepúsculo, em outro ataque aéreo. Sua família sustenta que foi bombardeado enquanto participava de um churrasco com seus amigos. “Era um rapaz que ia à escola e que não podia ser mais distante da luta de seu pai. Seu único delito foi estar junto a ele. Se falam tanto de promover a democracia, o mínimo que deveriam fazer seria prendê-los e levá-los a julgamento, ao invés de executá-los”, disse Atiaf com raiva.

Al Qaeda é um espantalho que emprega Saleh para conservar suas alianças. Sobretudo desde que o grupo terrorista tentou assassinar um dos príncipes mais influentes da Arábia Saudita, o ultraconservador Nayef, ministro do Interior, e muito provavelmente o novo herdeiro do trono wahabi, após a recente morte do príncipe Sultan por um suicida forrado de explosivos em agosto de 2009. Iêmen desempenha um papel central nas ações da Al Qaeda desde sua fundação, mas ganhou peso nos últimos anos, estendendo suas ambições até os Estados Unidos, onde organizou alguns atentados com escasso êxito. Sua força radica, pelo julgamento dos ativistas iemenitas, na estratégia clandestina do regime de Saleh.

“O regime engana o Ocidente dizendo-lhe que, ao manter-se no poder reduzirá a influência da Al Qaeda, mas meu acompanhamento das notícias do Iêmen me faz pensar que o regime distribuiu armas para alguns grupos divididos das forças de Segurança para intimidar o Ocidente. É uma mensagem que diz ‘olha o que pode acontecer se o regime cai’”, aponta Fatima Saleh. É um temor difundido na sociedade iemenita: “Durante anos, Saleh jogou com o extremismo”, menciona Atiaf. “Ele os usa, prende, liberta, deixa escapar, serve-se deles para conseguir seus objetivos políticos”. E enquanto isso, a população sofre com os bombardeios americanos, com os quais Washington tira sarro da legalidade internacional que exige dos demais: “Em Abiyan os bombardeios deixaram 90 mil desabrigados”, lamenta Atiaf. “As pessoas foram instaladas em escolas, mas isso deixou sem colégio a todas as crianças da região. Tudo isso cria um enorme ressentimento em relação aos Estados Unidos”. No total, as diferentes formas de violência resultaram em uns 300 mil desabrigados em todo o país, gente que vive em condições subumanas.

Farea, fiel aos seus estudos universitários, interpreta a presença da Al Qaeda no Iêmen — onde tem sua base na Península Arábica, o AQAP, uma das principais plataformas da organização de Bin Laden em todo o mundo — como resultado da política da ditadura: “O Governo não nos defende da Al Qaeda. Não existe um contrato social em meu país, por isso prosperam organizações fanáticas. A desigual distribuição de recursos afeta inclusive às pessoas mais preparadas, ninguém tem esperanças porque a corrupção impede de conseguir um trabalho, salvo que se tenha dinheiro ou influências. Para muita gente, a Al Qaeda é a única opção. Te oferecem um salário e um paraíso, quem dá mais? Saleh alimenta a Al Qaeda com seu regime corrupto. E não vai ser tão estúpido ao ponto de acabar com eles porque perderia milhões tratando-se de cooperação militar”. Daí que o povo, segundo este jovem ativista, coloque no mesmo saco ditadura, Al Qaeda e Estados Unido: “Lhes perdemos o respeito. Eles não se preocupam pelas vidas humanas, prejudicam nossa economia, não nos representam. As pessoas estão fartas”.

Sem uma firme reação internacional, que possibilidades têm os jovens iemenitas que insistem em perpetuar seu protesto pacífico? “A diferença com a Tunísia e o Egito é que lá o Exército está fundado sobre uma base nacional; no Iêmen ele está sobre uma base familiar”, lamenta Al Muslimi. Refere-se à Guarda Republicana e às divisões comandadas por familiares de Saleh, as melhores e mais equipadas do país. “Deve-se parar os militares, mas é impossível enquanto lhes siga chegando dinheiro e ajuda militar”, complementa Ataif em alusão às doações americanas em troca de que Saleh combata — oficialmente — a Al Qaeda. Agora é questão de paciência, argumentam os entrevistados, e de evitar a tentação de tomar as armas: “A revolução não é uma corrida. Os antecedentes colocaram o bastão muito alto, mas não temos pressa para que a revolução triunfe. Esperamos 33 anos e podemos seguir esperando; do contrário, levaremos nosso país ao inferno”, acrescenta Farea em uma sucinta alusão a uma revolução armada. “Sabemos que isto não terminará quando Saleh tenha saído do poder. Tratará de deixar seu filho e seus sobrinhos e teremos de seguir lutando pacificamente. Serão anos de luta, mas, se suportamos 33 anos de ditadura, podemos fazê-lo”, acrescenta Atiaf.

Surpreende a quantidade de mulheres ativistas que trabalham na revolução iemenita. Nas manifestações, milhares de feministas vestidas com niqab gritam palavras de ordem separadas dos homens, segundo corresponde em uma sociedade muito tradicional, mas não duvidam em tomar ações drásticas e provocadoras, como queimar véus para chamar a atenção dos meios de comunicação. Atiaf, Fatima ou Noon Arabiya não são casos isolados, como demonstra o fato de que a principal ativista do país, Tawakol Karman, presidenta da ONG Mulheres Jornalistas Sem Correntes, tenha sido reconhecida com o Prêmio Nobel da Paz junto a outras duas mulheres.

Explicam-me, entre risadas: “Quinze milhões de mulheres iemenitas levamos a revolução há anos”. Ou séculos: “Lembre-se da rainha de Saba”, disse Farea, com um sorriso aberto. Ela reinou antes que chegasse o Islamismo ao Iêmen; anos depois, outra mulher subiria ao trono do país islamizado, Arwa Bin Ahmad al Sulaihi: governaria 55 anos. Para elas e eles, o temor mais difundido é que Saleh aprenda a lição equivocada do exemplo líbio e opte por combater até a morte para conservar o poder: “Muitos estão esperando uma guerra, ou ao menos enfrentamentos muito duradouros entre a I Divisão e a Guarda Republicana em Sana e os milicianos pró-revolucionários e a Guarda Republicana em Taiz”, explica Fatima. “Saleh tem muita má intenção, está tentando empurrar a guerra para as pessoas envolvidas na revolução pacífica usando qualquer meio ao seu alcance para provocá-las”, prossegue a ativista.

No entanto, Al Masmari descarta um conflito em grande escala: “Trata-se de uma guerra pessoal entre Ali Mohsen e Saleh e aí vai ficar. Os iemenitas não vão combater, as marchas seguirão sendo pacíficas”, estima o diretor do Yemen Post. Atiaf al Wazir teme que as coisas mudem rápido: “Durante nove meses, a revolução foi pacífica, mas as pessoas pacíficas estão sendo atacadas com armas. Se o enfrentamento militar se estende, é imprevisível o que pode acontecer porque ambas as partes têm grandes arsenais”. No entanto, descarta que os movimentos já armados, como os separatistas do sul ou os houthis, envolvam-se em uma guerra: “Não creio que se envolvam porque não tirariam benefícios, mas é certo que ambos os lados, tanto as tropas de Ali Mohsen como as de Saleh, têm muitíssimas armas após anos de guerra e anos de compras de recursos bélicos. A demonstração de força pode converter-se em um enfrentamento aberto”.

Parece claro que a juventude iemenita está farta de violência: “Crescemos rodeados de armas, já não queremos mais balas”, repudia Farea com um gesto casual. “Esta revolução é pacífica ou não é. Mas não sei o que vai ocorrer quando se acabe a paciência dos iemenitas. Se se decepcionam, podem se converter em um vulcão. Eles têm potencial e ganharam a mudança após nove meses manifestando-se em paz. Imagine todo esse potencial com armas”. Farea mexe na barba antes de prosseguir: “Eu prefiro não pensar nisso: não sou valente o bastante para imaginar como seria Iêmen se se opta pela via armada”.

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Mónica Prieto

Mónica Prieto é repórter espanhola, correspondente do site Periodismo Humano no Oriente Médio. Escreve sobre as causas e consequências das guerras no Afeganistão, Iraque, Líbano, Chechênia, Madedônia, Gaza, Israel e Chiapas. Já trabalhou para os jornais El Mundo e Cuarto Poder.

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