Herois depressivos

Retrato destes novos filmes independentes, nos quais o modelo masculino é triste, antissocial e pouco viril.

 

Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.

Beginners pertence a um universo preciso dentro do cinema contemporâneo. Como o rótulo “indie” tem se tornado cada vez maior e abraçado discursos bem diferentes, deve-se dizer que este aqui não é um projeto “indie adolescente”, estilo que homenageia os nerds e faz da escola o ambiente social de predileção; nem é um “indie” no sentido de falta de orçamento, riscos estéticos e inovações formais.

Este é um independente não tão independente assim, bastante profissional e de produção significativa, feito nos moldes que agradam os grandes festivais de cinema. Seus personagens são jovens adultos frustrados, vazios, silenciosos; seu tom é uma melancolia permanente, jamais eufórica ou catártica. É o tipo de filme de um tom só, linear, forçando alguns sorrisos e alguns momentos deprimentes, mas com uma paleta de cores, ações e emoções voluntariamente limitada. Sofia Coppola (Encontros e Desencontros, Um Lugar Qualquer) parece ser uma influência direta, além da artista e esposa do diretor de Beginners, Miranda July (Eu, Você e Todos Nós).

TEXTO-MEIO

O luto está no centro da trama, com o pai do protagonista morrendo de câncer desde o início da narrativa. A história faz de tudo para lembrar desta figura sem necessariamente invocá-la, representando sua presença/ausência por pequenos detalhes. Os flashbacks são mostrados com a mesma estética das cenas presentes, sinal de que a morte do pai ainda não é vivida como algo distante para o filho. Os personagens que circundam Oliver, nosso quase-quarentão solteiro, interpretado por Ewan McGregor, falam pouco: são o pai que esconde a doença e sua homossexualidade, a namorada francesa muda por causa da laringite, se expressando mais por sorrisos e caretas, e mesmo o cão, devidamente melancólico, que comunica através das legendas, dizendo unicamente seu medo de perder o amor do dono.

Beginners é composto de pequenas estranhezas, minúsculos deslocamentos dos estereótipos de filmes de amor que tornam a narrativa carinhosa, e mais perspicaz do que realmente inteligente ou inventiva. Quando Oliver decide surpreender a namorada em sua casa pela primeira vez, mas não a encontra, ele consegue entrar na casa vazia e ela lhe faz uma visita do local, por telefone. O cachorro tem medo de ficar sozinho e chora em todas circunstâncias. Quando os médicos revelam a existência de um tumor do tamanho de uma moeda, a tela fica repleta de centavos flutuantes.

Existe um senso estético neste filme dirigido por Mike Mills, que vem da carreira de designer marcada pelos traços minimalistas e inocentes, quase infantis (vide imagem ao lado, presente no filme e bastante representativa do discurso como um todo). Este é o tom do projeto, e de sua fotografia desbotada que dá sempre a impressão de que os personagens acabaram de acordar.

Se os sentimentos são o sujeito de predileção, eles não são sentimentos quaisquer. Nada de raiva, ciúme, inveja: existem apenas “feliz” e “triste”, em binômio, nesta simplicidade elementar. Oliver escreve nas paredes “Você me faz rir, mas não é engraçado”, ele desenha a “história da tristeza” para um grupo de rock chamado The Sads, ele olha com satisfação cada vez que o pai idoso, bem inserido no novo meio gay, se diz “feliz”. Beginners busca uma eterna tristeza existencial, como sentimento estável do ser humano, algo que lembra o brasileiro “tristeza não tem fim, felicidade sim”. É como se o “final feliz” não fosse realmente feliz, mas apenas menos deprimente. Pai, filho e namorada sorriem, mas só com o canto da boca. Sobram personagens afetuosos, voluntariamente superficiais, presos neste roteiro e nesta estética que fazem da melancolia e da monotonia um ideal a se atingir.

 

Beginners (2011)
Filme norte-americano dirigido por Mike Mills.
Com Ewan McGregor, Mélanie Laurent, Christopher Plummer, Goran Visnjic.

TEXTO-FIM

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.