Hamlet e a internet: crônica de viagem no tempo

shakespeare

Que diria príncipe do “Ser ou não ser” diante dos que insistem em povoar rede com arrogâncias, egolatrias e certezas vãs?

Por Theotonio de Paiva

O que é o homem? – refletia o príncipe, naquela fria e conturbada Dinamarca, no início do segundo milênio.

Hamlet parece ter visto tudo, apesar da pouca idade. O espectro do pai, ao que tudo indica, proporcionou-lhe a visão do inferno. Através daquela viseira, o jovem alcança o que de pior há no mundo e no humano.

TEXTO-MEIO

E aí, minha cara leitora, me coloco a divagar; a suspeitar de algumas coisas e a imaginar outras.

O que aconteceria se, por detrás de uma pequena abertura naquela espécie de máscara de ferro, aquele intelectual, ao mesmo tempo refinado e cheio de angústias, enxergasse outras épocas, quem sabe mesmo, épocas futuras?

E exclusivamente pelo seu engenho e arte pousasse os seus olhos em nosso tempo. Até quando seria tomado por um espanto?

(Note bem, leitor amigo, que numa situação assim precisamos estar mais do que atentos e fortes. Dante se valeu de Virgílio para entrar no inferno. A princípio, nós estamos sozinhos…)

Ainda com os pés presos numa madrugada de insônia, cheio de incertezas e medos terríveis, o filho do mais bravo guerreiro da Dinamarca se deteria naquela que já foi chamada de “terra de ninguém”.

Uma vez alcançado o mundo virtual, Hamlet poderia ter a experiência de ver por dentro aquela criação humana. Novos caprichos e experiências, não tão distintos do olhar que a viseira do espectro proporcionava a ele.

Por suas artérias, passariam virtualmente todo o sistema grandioso e faminto da internet. Enquanto mirasse bem as suas infovias, com olhares silenciosos, distinguiria os seus traçados virtuais. E, por detrás deles, as angústias profundas, contidas em cada byte, como se contemplasse um país não descoberto. A julgar pelo que via, quem sabe, divisasse o que há de podre, no reino e fora dele.

Ao acompanhar tanta coisa inútil e sem sentido, ao lado de sensibilidades sutis que se perdem no caminho de um universo tortuoso, talvez especulasse que as várias linhas da narrativa dependem casualmente uma da outra.

Curioso, se deteria em cada aspecto terrível da nossa época e nas suas mais belas conquistas. O que pensaria? Que nome daria ao nosso tempo? Ou será que julgaria que estamos saindo de um período sem nome, de um intermédio?

Com efeito, numa extravagante simbiose se acharia no direito de ser possuído plenamente pelo mundo em potência, criado à imagem e semelhança de um outro mundo, real e tão aborrecidamente lento e carcomido.

O que ele veria, enfim, leitor atônito? Embates, lamentos, sussurros? Gritos de alguns tontos? Ou, ainda, aleivosias, palavras compradas, mentes assassinadas com refinamento, e reputações assassinadas com técnicas de açougueiro?

De fato, o que enxergaria além de um delírio expresso no desprezo por toda a forma humana que não a eleita nos princípios dos tempos? (E é importante ponderar sobre quem de fato escreveu como existiram esses mesmos princípios.)

Talvez fosse desnecessário dizer, como lembrava o médico vienense, que todo aquele que partilha de um delírio jamais o reconhece como tal. De todo modo, ao fim e ao cabo: qual seria o testemunho do dinamarquês?

Assim, em meio a uma experiência luminosa, assiste incrédulo a algumas notações sutis.

Aquela ordem tradicional da sociedade por que tanto o príncipe se bateu em seu tempo – o trono fora tomado à força por um assassinato – fora transformada em dúvidas metafísicas poderosíssimas. Desse modo, tal situação, insustentável, leva Hamlet a derramar o veneno em seu próprio corpo e a decretar que tudo é silêncio.

No entanto, em meio a mais alta tecnologia, vemos aquele sujeito, tão melindrado, carregando as grandes dúvidas do homem moderno, metido num passo trôpego de quem traz uma carga ainda maior do que as suas próprias forças.

As suas terríveis questões sobre a eternidade – o bem supremo, através do qual a igreja medieval cuidava e corrompia os corpos dos homens – parecem ceder àquelas batalhas com as quais o jovem se defronta no ciberespaço.

Prepare-se, leitora, pois não são batalhas de qualquer naipe. Em absoluto. Na verdade, soam como grandes acontecimentos travados nas mídias, em redes sociais, e na imprensa, que se esfumaçam em três ou quatro dias. No entanto, ressurgem impetuosas como cabeças da Hidra de Lerna. Sempre.

Em muitos desses espaços, pode observar alguns seres que se apresentam (ou são apontados histericamente nas redes) como arcanjos ou demônios. Estes, por sinal, são seres distantes do jovem Hamlet, para quem o céu é uma incógnita.

Num desespero inaudível se bateria para conhecer o motivo de tantos ódios, brigas descomunais, sadismos, desesperos de marias antonietas, e ações virulentas para martirizar e sangrar o outro. Em muitos casos, verifica o emprego de algo que se denomina humor. Baixando os olhos, num último pensamento, sussurraria para si: o ódio que suscita isso só faz rir o dono. E deixa incrédulo o coveiro.

Duelos em nome da honra – memórias de uma época muito distante – apresentam-se como vestimentas do nosso tempo. Com espanto, veria que o Vale do Silício não soube contornar a sutileza das espadas. E são muitos os que berram. E gritam que hão de ganhar a ferro e fogo! Não consegue deixar de ouvir uma piada que faz para si mesmo. “É preciso calderonizar o mundo!” E antecipava o grande espanhol, com a sua dialética jesuítica, expressa no tempo da contra-reforma e da inquisição.

Naquele momento, Hamlet constata que aquela ordem tradicional que conhecera foi tragada por algo ainda mais terrível, posto que multiplicada por um milhão, talvez mais, talvez muito mais.

E, naquele emaranhado de informações que se cruzam numa vertigem aterradora, o príncipe, leitor amigo, iria se questionar mais uma vez. Como passam a se expressar da mesma forma? Qual a razão desse pensamento em blocos monolíticos? Com efeito, não parece encontrar aquele ponto (ou pontos) de contaminação de todo o corpo. No entanto, é difícil crer que tudo se faça por autogestão. Quem alimenta o corvo?

E, na grande rede, surgiram outras dúvidas. É certo, leitor, que não se parecem, contudo, com dúvidas verdadeiras. E nesse mundo tão difícil de ser mais bem compreendido, algo lhe chama especialmente a atenção: novamente uma espécie de abcesso da sociedade quer triunfar a todo custo. “Há algo de podre…”

A libertação do homem pelo próprio homem parece seguir um outro caminho. No caso, ele desconfia que se apresenta relacionada a um saber que nega o próprio saber, em sua condição de um fenômeno tosco e barato, mas capaz de responder às angústias e sofrimentos desprezando todas as dúvidas. Como um grande pai responde ao filho cheio de apreensões e lhe sapeca um sonoro: “Não se meta com o que não é da sua conta!”

Na condição de quem conheceu o inferno e maravilhas, Hamlet despeja um desprezo compreensível, mas que provavelmente ele recolha em suas mãos. Mãos de um intelectual, é certo. E como um bom intelectual, capaz de refletir o espírito do tempo de quem lhe criou, soa blasfemo e original.

Talvez o príncipe até ousasse bastante naquele mundo virtual em que todos falam ao mesmo tempo e quase ninguém tem razão. A não ser quando se é o próprio aquele que no outro se reconhece como um espelho. Confuso, leitor?

Veja bem, talvez a ele fosse dado olhar para aquele personagem que comenta todas as postagens, artigos, charges, fotos. Naquele instante, espreitaria uma onda gigantesca de sofrimentos e misérias, tão humanos quanto assustadoramente apaixonantes. Ela se cruzaria a falas domesticadas, ou de um profundo rancor, ou ambas.

Por ora, vale a pena considerar, perplexo, a acumulação daquela riqueza simbólica: o convencimento do leitor.

Ocorre aí, a constatação daquela velha suspeita. A contaminação dos saberes mais perversos possui um lastro e um caminho sinuoso que se disfarça o tempo todo para não ser pego.

Em sua moral de escravo, um modesto internauta, um missivista eletrônico, consegue lançar os olhos para os céus e se regozijar triunfante. Está impressionado com a sua capacidade tacanha de fazer amigos e influenciar pessoas, ao distribuir mensagens de roldão.

Espectador catatônico, este cidadão médio, vê-se diante de uma verdade súbita: incapaz de enfrentar o mundo que o cerca, na sua abulia de homem profundamente ressentido, inventa, como diria o filósofo, para seu consolo, um outro mundo. No caso, o outro mundo é um estado autocrático e paranóico.

E uma tal persuasão frente aos possíveis amigos e leitores – constata Hamlet ao ver tudo aquilo – precisa ser de forma imediata, como num choque. É importante que não haja possibilidade de réplica ou de tempo para se pensar.

Nesse sentido, afastam-se de uma discussão fundamentada na análise dos fatos, e partem para algo que se manifesta por si, como numa evidência metafísica. Melhor: muitos, como numa grande horda, chegam perto da iminente inquirição do juízo de Deus.

“O ser ou não ser” está abolido.

Pouco importa se a organização da exposição dos argumentos nos remeta a uma evidente pregação que não se sustenta à luz do bom senso. Tampouco que se distancie da verdade, de qualquer verdade, mediatizada, problematizada por diversas angulações. Isso efetivamente não importa. É letra morta.

O que interessa, no desdobramento subseqüente, fruto de uma construção de poder, é a instalação daquele princípio que ronda o homem desde tempos pretéritos: o outro, aquele que não lhe é familiar, que não pertence ao mesmo clã, precisa ser visto como um inimigo. E eliminado.

Estabelecido em tempos arcaicos, ainda na sua condição nômade, esse é um dos fenômenos cruciais para a expressão da estrutura irracional do caráter do homem médio. Ali se revelam de forma irretocável as necessidades biológicas primárias, cujos impulsos estão reprimidos há milênios.

Diante dessas experiências tão viscerais, o príncipe dispõe ainda das incertezas. Com elas irá se afastando.

De longe, vê uma grande feira de comentários, opiniões, “paranóias delirantes”, como sabiamente postou um gaiato, a propósito de um colunista, dizem que político, cuja capacidade de se levar a sério é tanta, a ponto de acreditar piamente nas falas inventadas por um dramaturgo ruim que lhe criou por fastio. O escriba traçou o desenho tosco de um personagem preso a um obtuso projeto de poder. Mas era apenas um pastiche de uma outra história muito antiga.

TEXTO-FIM
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Theotonio de Paiva

Theotonio de Paiva, dramaturgo e diretor de teatro, é doutor em Teoria Literária pela UFRJ.