Haja hoje para tanto ontem

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Hoje, de Tata Amaral, aborda ditadura “em segundo grau”, buscando reflexos em personagens de carne-e-osso. Nisso está sua força

Por José Gerado Couto*, do blog IMS

Há um gesto de afirmação e desafio na adoção do título Hoje para um filme de ficção em torno da ditadura militar brasileira. É, de resto, um título ambivalente para uma obra centrada numa personagem atormentada por fantasmas do passado.

É nesse tempo híbrido, feito da interpenetração entre o passado e o presente, que se desenvolve o poderoso e delicado longa-metragem de Tata Amaral, ainda que sua ação se concentre num único dia, aquele em que a ex-guerrilheira Vera (Denise Fraga) muda de apartamento com o dinheiro da indenização que recebeu pela morte do marido, Luiz (o uruguaio César Troncoso).

Durante a mudança, em meio à abertura de caixas e ao deslocamento de móveis, Vera presentifica os acontecimentos de quatro décadas atrás, dialoga com eles, busca modificá-los, corrigi-los, suavizar seu gume cruel. Vemos então o período mais sinistro da ditadura filtrado por uma sensibilidade, por uma memória, por um corpo. Essa mediação, paradoxalmente, parece tornar ainda mais contundentes os efeitos da barbárie.

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Representação e paródia

Num debate sobre o filme, no Festival de Tiradentes do ano passado, o corroteirista (e grande crítico) Jean-Claude Bernardet disse acreditar, se entendi bem, que só é possível abordar ficcionalmente a ditadura militar de modo paródico, como que “em segundo grau”. Faz sentido. Todos os filmes de ficção que tentaram reconstituir dramaticamente, de modo direto, a repressão e a tortura (de O que é isso companheiro? Cabra cega, de Lamarca Batismo de sangue) fracassaram. Soam falsos, mal encenados, como um grupo de garotos brincando de mocinho e bandido. Paródias involuntárias, que têm a pretensão de apresentar as coisas “como elas aconteceram de verdade”.

O acerto estético e político de um filme como o recente Cara ou coroa, de Ugo Giorgetti, consiste em abordar o período pelas bordas, pelos estilhaços daquela guerra suja sobre personagens que não tinham relação direta com ela.

Dito isso, voltemos a Hoje, que ganhou os principais prêmios do Festival de Brasília de 2011 mas só agora entra em cartaz. O filme é inspirado no romance Prova contrária, de Fernando Bonassi, mas o que o torna notável é menos o enredo do que a encenação, a sutileza com que manipula o tempo e o espaço, criando uma geografia e uma temporalidade virtuais por onde trafega a torturada (em mais de um sentido) protagonista.

Resnais e Bellocchio

Essa faculdade essencialmente cinematográfica de criar um território maleável e livre de amarras, semelhante ao do sonho, é algo que Hoje compartilha com uma obra que lhe é radicalmente distinta em tudo o mais: o delicioso Vocês ainda não viram nada, de Alain Resnais.

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Ao reunir uma plêiade de atores formidáveis de várias gerações, de Michel Piccoli a Mathieu Amalric, todos supostamente fazendo o papel de si mesmos, o veterano diretor francês faz muito mais do que lhes prestar um tributo. Aos 90 anos, se mostra em plena forma ao retomar um dos eixos centrais de seu cinema, que consiste em questionar a narrativa de ficção ao mesmo tempo em que a constrói. Como em ProvidenceMeu tio da AméricaA vida é um romance Smoking/No smoking, Resnais sobrepõe aqui camada sobre camada de representação, multiplicando as surpresas e as aberturas do olhar (vale dizer, do espírito). A vida, para esse artista extraordinário, pode não ser um romance, mas é sem dúvida um palco – ou um set de filmagem.

Entre os filmes que entram em cartaz em meados de abril, não pode passar em branco o insólito Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio, em que o diretor italiano, num registro na fronteira entre o documentário e a ficção, acompanha durante nove anos (de 1999 a 2008), a vida de uma menina (Elena Bellocchio, filha temporã do cineasta) criada pelas tias no vilarejo de Bobbio, enquanto a mãe tenta fazer carreira como atriz em Roma. Além das irmãs do diretor (as sorelle Mai do título original), seu filho, Pier Giorgio Bellocchio, também atua no filme, todos representando mais ou menos a própria vida cotidiana.

Por caminhos sinuosos, Bellocchio retorna a sua cidadezinha natal e à investigação da família pequeno-burguesa, local e tema de seu longa de estreia, o subversivo De punhos cerrados (1965), cujas imagens em preto e branco se inserem aqui e ali em Irmãs Jamais. Só que agora o olhar é outro, mais maduro, matizado e compassivo, sem deixar de ser crítico. Aqui, uma cena do filme, protagonizada por Pier Giorgio Bellocchio:

Por fim, não posso deixar de registrar – e lamentar profundamente – a morte prematura do grande fotógrafo e cineasta Aloysio Raulino, responsável pela fotografia de filmes como O homem que virou sucoAo sul de meu corpoO prisioneiro da grade de ferroCartola – Música para os olhos e Serras da desordem, entre muitos outros. Dirigiu apenas um longa, Noites paraguaias (1982), mas sua importância para o cinema brasileiro é inestimável. Além de tudo, era um homem doce, íntegro e apaixonado.

Em tempo: o título desta coluna é um verso célebre de Paulo Leminski.

TEXTO-FIM
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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.