Guerrilha afegã reúne grupos de vários países

Por Syed Saleem Shahzad, do Asia Times Online (publicado em 20/01/2011) | Tradução: Coletivo Vila Vudu

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) permaneceu por muito tempo presa à crença de que todos os grupos da oposição armada na resistência afegã histórica sempre foram constituídos exclusivamente de pashtuns. Por isso os contingentes de forças não combatentes da OTAN foram estacionados no norte do Afeganistão, porque ali, como supunha a OTAN, as maiorias dominantes seriam tadjiques, hazaras e uzbeques e ali não seria nem poderia ser bastião dos Talibã.

Essa decisão estratégica ignorava inúmeros incidentes esporádicos de violência e, depois, ignorou a mobilização, em 2010, de um forte movimento Talibã no norte, com centros de comando e controles instalados, que destruiu, de vez, os mitos de que os Talibã seriam forças que só tinham bases no sul do país.

Esse desenvolvimento coincidiu com o momento em que EUA e Grã-Bretanha foram praticamente deixados sós na guerra do Afeganistão. Todos os principais aliados marcaram datas limites para a retirada dos soldados, e os franceses e alemães, dentre outros, disseram categoricamente à OTAN que não participariam de operações de combate.

TEXTO-MEIO

O governo de Barack Obama dos EUA concebeu uma estratégia de guerra para o sul do Afeganistão e para as províncias à volta de Kabul, baseada, também, na certeza de que a guerrilha comandada pelos Talibãs seria fenômeno que só aconteceria em áreas de maioria pashtun. Toda a dura batalha para fazer aprovar o ‘surge’ de McChrystal-Petraeus e o envio de mais soldados para o Afeganistão concentravam-se em surge e mais soldados para ocupar o sul do Afeganistão.

O surgimento de Talibãs no norte do Afeganistão apanhou as forças ocupantes sem qualquer alternativa além de ter de depender de exércitos locais.

No front político, Munshi Abdul Majeed, altamente respeitado como líder islâmico e pelo passado de combatente leal ao veterano mujahid Gulbuddin Hekmatyar, foi nomeado em 2010 para governar a província de Baghlan, a 200 quilômetros de distância, para o norte, da capital Kabul. Sua missão específica era criar uma linha de comunicação entre os Talibã e as tribos locais, com vistas a conseguir um cessar-fogo, até que a OTAN conseguisse construir alguma nova estratégia para isolar os militantes ultrarradicais.

No front de segurança, o general Abdul Rahman Rahimi, oficial de segurança altamente graduado e intensamente treinado pelos norte-americanos, era chefe da Polícia do distrito de Kabul; foi escolhido, como opção lógica, quando começaram os problemas em Baghlan, para assumir o comando das forças policiais da província, e erradicar dali os guerrilheiros.

Um plano de batalha

O principal centro policial em Pol-e-Khumri, capital da província de Baghlan, é extremamente bem guardado. Visitantes são revistados em vários pontos de passagem e muitas barreiras e ninguém entra antes de que venha o sinal verde, por internet sem fio, diretamente da sala de controle. Rahimi insiste que a guerrilha está sob controle e que tudo que os Talibãs dizem, sobre atacar comboios da OTAN não passa de mentiras.

Tendo demorado 20 minutos para passar por três barreiras de segurança, eu esperava me aproximar, afinal de algum comandante de Polícia. Mas o próprio Rahimi estava à minha espera, sentado numa cadeira, num pátio interno.

“Já nos conhecemos de Kabul, não é? – disse ele, depois de me abraçar calorosamente e beijar-me, como manda a tradição.

Rahimi é responsável também pela emissão de passaportes. Havia à volta dele uma fila de solicitantes. Lia os passaportes, perguntava por um ou outro nome, fazia perguntas, ouvia as respostas e depois, se estivesse satisfeito, assinava o passaporte. Um dos passaportes arrancou dele um comentário que fez sorrir todos os que esperavam na fila.

“Fouzanullah”, ele chamou. “Fouzanullah? Mas… que nome é esse?” (Fouzan significa “sucesso” e ullah é uma das grafias de Allah, “Deus”). Rahimi falou em dari, com forte sotaque pashtun, porque nasceu na província de Logar. Olhou para o dono do passaporte, parado, sem voz, de fato paralisado à frente dele, e assinou o passaporte. “Esse nome não está escrito certo, meu filho”, disse, a voz suave.

Foi o último passaporte do dia, e Rahimi levou-me então para um salão amplo, decorado com enormes retratos do líder da Aliança do Norte, Ahmad Shah Massoud, morto pela al-Qaeda em 2001, e do presidente Hamid Karzai do Afeganistão.

“Os Talibã não vieram por acaso para Baghlan. Escolheram Baghlan como centro de suas atividades no norte do Afeganistão por causa das características específicas do local” – Rahimi começou.

“Baghlan é uma província estratégica. Vales e montanhas, são enorme vantagem para os Talibãs, como região de santuário e abrigo. Mas Baghlan não é destino final, mas posto de trânsito para os Talibã. Os vales e desfiladeiros de Baghlan são estradas naturais para Shir Khan Bandar [cidade próxima da fronteira com o Tadjiquistão] e Hairatan [outra cidade de fronteira, com o Uzbequistão].”

Rahimi não nega que haja grupos Talibã em Baghlan, e acrescenta que as atividades militares ali têm perspectiva mais ampla que de simples guerrilha local.

“Se você analisar com cuidado a situação, verá que a militância não tem dinâmica local, embora boa parte dos militantes sejam locais. Ano passado, pela primeira vez encontramos grande número de guerrilheiros uzbeques e chechenos. Nenhum foi apanhado vivo. Testes de DNA confirmaram que eram uzbeques e chechenos” – disse Rahimi.

“Nossa inteligência já confirmou que temos aqui operação da al-Qaeda e que a al-Qaeda já instalou sua ala Jundallah no distrito de Borka, em Baghlan. [Ver “The legacy of Nek Mohammed”, Asia Times Online, 20/7/2004.] O objetivo é mobilizar a oposição armada no Uzbequistão, no Tadjiquistão e na Chechenia” – ele continuou. E acrescentou que a parte mais preocupante é que a al-Qaeda já está infiltrada na população uzbeque afegã. Essa descoberta alarmou autoridades uzbeques, tadjiques e russas, que aumentaram os contingentes das patrulhas de fronteira.

“Atacam, às vezes, carros-tanque comuns que transportam combustível e dizem que atacaram comboios da OTAN. Os Talibã são mentirosos” – diz ele, com desprezo.

Contudo, sentado numa hospedaria em Pol-e-Khumri, vi que pontualmente às 18h, por instrução dos Talibã, todas as torres de telefonia móvel foram desligadas, e só foram religadas às 6h da manhã, no dia seguinte. Os Talibã descobriram que o governo usa os sinais de telefonia móvel para rastrear os Talibã e seus esconderijos, durante a noite. Se as torres não fossem desligadas, seriam facilmente rastreados e descobertos.

No front político

A casa do governador estava cheia de visitas, mas um repórter do canal de televisão estatal do Afeganistão, encarregado de cobrir as atividades do governador, marcou um encontro para mim, com Majeed, como se fosse assunto prioritário.

Como Rahimi, Majeed foi nomeado na primavera de 2010, quando os Talibã emergiram com força total em Baghlan. É nativo da província e serviu sob as ordens de Hekmatyar; rompeu esses laços em 1990, quando os serviços secretos do Paquistão (ISI) arquitetaram um acordo entre o General Shahnawaz Tanai, comunista, e Hekmatyar, para encenar um golpe, que fracassou, contra o governo de Mohammad Najibullah.

Majeed, islamista até o fundo da alma, não admitiu a aliança que Hekmatyar aceitara com os comunistas e deixou o partido. Como vários dos ex-aliados de Gulbuddin, é auxiliar próximo do presidente Karzai.

A ideia de entregar o governo da província de Baghlan a Majeed visou a usar suas credenciais islâmicas para estabelecer uma linha de comunicação com os Talibã e as tribos pashtuns locais, que segregasse a al-Qaeda e os combatentes estrangeiros.

“Não chamemos os guerrilheiros de ‘talibã’. Melhor dizer ‘forças de oposição’ – disse Majeed, logo na abertura da entrevista.

“Também não os chamo de ‘terroristas’. São gente que nasceu e vive aqui. Não sabem distinguir o bem e o mal. Não são escolarizados, são pouco educados. Sou absolutamente a favor de conversarmos com eles, para ajudá-los a desistir de fazer oposição ao governo. Até agora porém, infelizmente, estão sendo manipulados por vários agentes e fatores externos” – Majeed continuou. Para ele, o principal culpado da ‘manipulação’ é o Irã. “Não tenho informação direta, mas é a opinião de gente muito bem informada aqui no Afeganistão, que, embora o Irã possa não ter qualquer simpatia pelos Talibã e pela al-Qaeda, está interessado em envolver os EUA no conflito. Por isso o Irã apoia a oposição aqui nessa área” – disse ele.

Para Majeed, “outro fator é a al-Qaeda, a qual, como todo o mundo muçulmano também quer que haja tumulto nessa nossa região, especialmente confrontos com a Rússia e o Uzbequistão. Os russos e os uzbeques queixaram-se recentemente ao ministério das Relações Exteriores do Afeganistão de que as atividades dos militantes estão aumentando e começam a converter-se em sério risco de segurança para eles no norte do Afeganistão.”

Concluí a entrevista e saí para andar à margem de um rio – apesar do inverno sem chuvas, a neve deve ser obstáculo difícil de enfrentar, no deslocamento dos militantes nas montanhas. As regiões do sul são mais amenas – as regiões tribais entre Paquistão e Afeganistão –, onde os militantes podem acumular forças até o verão. O governador de Baghlan e o chefe da segurança viram esse artifício estratégico dos Talibã como sucesso da operação de repressão. Não é.

Syed Saleem Shahzad é jornalista, editor-chefe da sucursal de Asia Times Online no Paquistão. Recebe e-mails em [email protected]

TEXTO-FIM
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Syed Saleem Shahzad

Syed Saleem Shahzad é chefe do departamento Asia Times Online no Paquistão e autor do livro "Inside Al-Qaeda and the Taliban, beyond 9/11", publicado pela Pluto Press, Reino Unido.