Gaza: luz no fim do túnel

Egito abre fronteira e encerra cerco a palestinos. Ampliam-se sinais de que “primavera árabe” pode balançar a ocupação israelense

Por Luís F. C. Nagao

No último sábado (28/5), a localidade milenar de Rafah, no extremo oeste da Faixa de Gaza, voltou a comunicar-se com o mundo. Depois de quatro anos fechada, a passagem de fronteira que leva ao Egito foi reaberta pelo governo militar provisório que ocupou, no Cairo, o lugar do antigo ditador Hosni Mubarak. O bloqueio ocorrera sob pressão de Israel. Em 2007 o Hamas chegou ao poder em Gaza. Telavive usou o fato como pretexto para isolar a região, quase inteiramente circundada por seu território. A única passagem restante, para o Egito, foi bloqueada por Mubarak, forte aliado israelense. A reabertura confirma o novo papel que o Cairo passa a desempenhar em favor da libertação da Palestina. Já em abril, autoridades egípcias haviam jogado papel importante (ver em Outras Palavras) na reconciliação entre Fatah e Hamas, os dois principais grupos políticos palestinos.

A fronteira foi reaberta nas mesmas condições vigentes até 2007. A passagem é pertidida das 9h às 21h, exceto às sexta-feira (dia sagrado para os muçulmanos) e feriados nacionais. Mulheres de todas as idades, homens menores de 18 anos ou maiores de 40 anos são isentos de visto, assim como aqueles que irão ao Egito estudar. Somente homens de 18 a 40 anos precisam de visto.

A Faixa de Gaza é uma minúscula área, de 360 quilômetros quadrados – pouco mais que a Zona Leste de São Paulo. Em plena era da globalização, seus 1,7 milhão de habitantes estavam, até o sábado, reduzidos a uma economia de auto-suficiência. Bloqueados, não podiam consumir produtos de outras partes do mundo, nem oferecer sua produção. A penúria era agravada pelas agressões militares. Em 2007, por exemplo, uma série de bombardeios deixou boa parte das construções em ruínas, mas o bloqueio impediu o acesso de materiais de construção para reerguê-las. Além das fronteiras, Israel controla as principais rodovias, o porto marítimo, o aeroporto, correio, eletricidade e suprimento de águas …

Houve diversas tentativas de romper o cerco. Centenas de túneis clantestinos foram escavados para ligar, com fazendas e casas no lado egípcio, os 13 quilômetros de fronteira. Possuíam em média 25 metros de profundidade e mais de 600 de comprimento. A principal finalidade era entregar dinheiro, bens e alimentos aos palestinos. Contudo, Israel dizia que a intenção dos túneis era prover armamento ao Hamas.

Ativistas de outros países enviaram flotilhas com ajuda humanitária à Faixa de Gaza. Em maio de 2010, a interceptação violenta, por Israel, de barcos provenientes da Turquia, que se encontravam em águas internacionais, provocou a morte de nove ativistas no Mar Mediterrâneo. A Fundação Turca pelos Direitos Humanos e Liberdade e Ajuda Humanitária (İHH), uma das organizações idealizadoras da ação, prometeu mandar uma nova flotilha este ano.

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Porém, foram as mobilizações egípcias desse ano que chamaram mais atenção. Manifestantes no Cairo protestaram na embaixada israelense contra o acordo do gás feito por Egito-Israel. Uma carreata partiu até Rafah no dia em que se comemora a Nakba – a tragédia que expulsou centenas de milhares de palestinos de suas terras e casas, em 1948. (lerem Outras Palavras). Os manifestantes já exigiram a abertura permanente da fronteira. Estava lançada a semente para a decisão adotada no fim de semana.

Para Mustafa Barghouti, ex-candidato Pa presidência da Autoridade Palestina, a reabertura é uma das grandes mudanças provocadas pela revolução no Egito. Ele ressalva o transporte de materiais de construção ainda continua proibido — o que impede, por enquanto, a reconstrução de 25 mil casas, hospitais e mesquitas. Mohammed Awad, ministro de Assuntos exteriores em Gaza, declarou: “aprovamos entusiasticamente a  decisão dos irmãos do Egito para facilitar o processo de viagem até o terminal de Rafah. Isso reflete a profunda relação entre nós e Egito e irá contribuir pra facilitar a vida dos palestinos.”



 

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