França: e o debate sobre política internacional?

Candidatos da esquerda deveriam explicar aos eleitores que países sul-americanos encontraram formas mais eficazes—e menos dolorosas—de lidar com a crise

Por Marilza de Melo Foucher, correspondente em Paris

Em 2012, a campanha presidencial está concentrada em questões que se distanciam das principais fontes de preocupação dos franceses. Por aqui, a maioria dos cidadãos está interessada basicamente na imigração, no islamismo e na segurança pública. Os institutos de pesquisas mostram que, apesar do interesse que o debate político tem suscitado na população (65% acham a campanha interessante), mais da metade lamenta que muitos temas importantes simplesmente não estão sendo debatidos.

É o caso, por exemplo, do crescente número de desempregados: para 73% dos franceses, o emprego é a principal prioridade, assim como a educação, a saúde, a queda do poder aquisitivo e a degradação dos serviços públicos. São as propostas dos candidatos de esquerda as que mais se aproximam dos temas centrais para a população francesa. Todavia, Nicolas Sarkozy, líder nas pesquisas de opinião para esse primeiro turno, tem conseguido com certo êxito ditar a agenda política à imprensa: a campanha segue a moda do “zapping”, um método tático que não permite aprofundamento nem questionamento político.

O meio ambiente e a política internacional também estão ausentes do debate. São temas intrinsecamente relacionados, pois se trata de uma problemática planetária. De 1972 a 2012, somam-se 40 anos de negociação internacional sobre o eco-desenvolvimento, sem grandes resultados. E cúpulas governamentais para discutir alternativas, como a Conferência Rio+20, já não desperta grande interesse dos governantes.

Tradicionalmente, na França, a regra sempre foi dizer que não se ganha eleição presidencial falando de política exterior. Tal postura, porém, pode fazer com que o país se veja perdendo influência no processo de renovação do multilateralismo, que está em curso. Se a vitória da esquerda se confirma, espera-se que a França seja um ator importante no processo de democratização da governança mundial.

Estamos hoje face uma situação internacional que mereceria maior reflexão. É notório que o mundo euro-americano está vivendo a fase final de sua dominação, e que uma nova ordem internacional se desenha. O mundo passa por uma reconfiguração geopolítica, e seria interessante impulsionar o debate presidencial sobre o papel da França dentro de um mundo multipolar. Um desafio de tal envergadura não pode passar em branco pelo debate eleitoral.

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Infelizmente, porém, a discussão sobre temas internacionais se restringe à gestão da crise financeira na União Europeia dentro do quadro ortodoxo da economia neoliberal. A austeridade orçamentária se apresenta como a única solução viável para sair da crise. O denominado “pacto de estabilidade orçamentária” foi assinado por 25 países do bloco, cuja maioria é conservadora. No lugar de expandir o debate sobre as consequências econômicas, sociais e políticas da aplicação deste acordo, o debate se limita a explorar a relação privilegiada entre França e Alemanha, parceria considerada como solução para a crise europeia.

O presidente Nicolas Sarkozy e a chanceler Angela Merkel defendem a aplicação de sanções e regras mais rígidas para os países devedores da Zona do Euro, o que leva a Europa para uma espiral recessiva. Os países do Norte do continente estão asfixiando as nações do Sul. A União Europeia atravessa uma crise sem precedentes, que mereceria uma abordagem geopolítica. Sem querer forçar comparações, podemos ousar fazer uma indagação: o que diferencia hoje a Europa do Sul da América do Sul?

Por que os candidatos de esquerda à presidência da França não citam os países da América do Sul, que, em face da mesma crise, fazem escolhas distintas tanto no plano político como econômico? Seria interessante para os eleitores franceses saber como os governos de esquerda na América do Sul tentam ainda hoje se livrar da armadilha deixada pelo neoliberalismo. Fica evidente que o sistema nunca foi um modelo de desenvolvimento, mas uma estratégia de dominação.

O que está ocorrendo hoje com a Europa do Sul deve levar candidatos e militantes da esquerda europeia a repensar alternativas mais adequadas à nova configuração geopolítica internacional. Estamos diante de um mundo que evolui para mais diversidade e pluralismo. O contexto planetário reclama uma análise global e respostas articuladas entre si.

Por que não pensar numa coligação com os governos progressistas da América do Sul e Europa, movimentos sociais, centrais sindicais e organizações da sociedade civil a fim de criar a correlação de forças necessária para obter uma reforma total do sistema ONU? Suas instâncias multilaterais hoje estão fragilizadas e são incapazes de exercer um poder de regulação sobre questões mundiais. Sua estrutura não está adaptada ao mundo multipolar. A prova é que o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC) vêm ao longo das últimas décadas agindo em contradição com os princípios básicos da democracia e soberania das nações.

Já temos alguns exemplos de que a coalizão entre grandes e pequenos países começam a pesar em certas negociações da OMC. Somente uma aliança entre os partidos políticos de esquerda e movimentos sociais comprometidos com a visão integrada e solidária do desenvolvimento será capaz de democratizar as instâncias multilaterais.

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Marilza de Mello Foucher