Fêmea: Zigarina, Zigarina, dolorida e linda

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“Ela queria fugir da Europa, fazer o caminho oposto do resto da civilização. Incivilizar. Involuir. Precarizar. Tornar-se outra coisa”

Por Fabiane Borges | Imagem: Otto Mueller, Amantes Ciganos Sentados (1922)

“Há um ditado cigano que diz ‘Vivemos porque
caminhamos’, e outro que se refere à importância
de sua função: 
‘Enquanto o cigano nômade
continuar caminhando, o eixo da terra continuará
girando’”.

Valeria Sanchez – “Devir Cigano” 2006

TEXTO-MEIO

Zigarina é uma italiana que se apaixona em Paris por um músico que precisa voltar para a Transilvânia, por não ter conseguido o visto de permanência na França. Ela parte com uma amiga dois meses depois, atrás dele. Ela o encontra, mas ele não a quer mais. Ela não diz que está grávida. Tudo indica que não quer uma situação de negociação em relação a isso, pois o que importa é a reciprocidade da sua paixão. Daí começa sua saga de ritos de despossessão, já que declara que está com o coração possuído.

Chamo esses ritos de performances, porque uma resolução estética é dada para uma tensão interna, biográfica. Ou seja, existe uma tensão que é desobstruída pelo improviso performático. Essas performances são feitas por ela na busca de dar vazão à dor que sentia diante da impossibilidade do amor.

Performance 1 – Ela vai para a rua durante as comemorações da festa de Herodes, o que mandou cortar a cabeça de João Batista. Ela atravessa a procissão festiva na contramão, atirando-se nos braços das pessoas, gritando e chorando, a louca da festa pagã. Milhares de pessoas nas ruas e ela tão sozinha. A imagem da solidão povoada, da estranheza absoluta, ela própria João Batista, com a cabeça pedente entre ombros desconhecidos.

Performance 2 – Ela vai para uma festa e dança bêbada quebrando pratos. Erotizada, tira a parte de cima do vestido e dança como uma estrangeira dança, com suas botas de couro e vestido negro. Toda europeia, quebra os pratos com vontade, dando sentido para o gesto tradicional do país, o despedaçamento dos vidros. Ela se quebra prato, ela estilhaço e barulho. Sensual e quebradeira. Os pratos que levam a cabeça de João Batista, a sua cabeça, tornando-se cacos. Ela é a mais pagã das pagãs, e a que mais tem fé.

Peformance 3 – Ela abandona sua melhor amiga numa fronteira, parte com uma menina de rua, entra em um devir nômade, decai a uma situação de miséria e dificuldade. Uma criança mendicante — era a sua própria condição. Vira criança e não tem mais nada. A criança diz: Acorde, Acorde. Ela responde: Por favor, não me olhe desse jeito, e tapa os olhos da menina. Zigarina menina, perdida, num pais estrangeiro, mendiga.

Performance 4 – Ela sai de um carro aos gritos, escandalosa e louca, corre para dentro de uma floresta outonal até cair no chão, se abraça no chão e tenta se tapar com folhas secas e barro, tenta se colocar na terra, dentro da terra. Se exaure e por fim desmaia. Ela desfragmentada, querendo o consolo da terra fria, tenta algum pacto. Escandalosa e zonza, Zigarina folhas secas. A Terra como o fim e o princípio, enterrar-se, morrer-se de si. Quer ser outra coisa, quer ser floresta nua, quer se enterrar no chão. A Terra amante e mãe, ela criança e mendiga.

Performance 5 – Vai a uma igreja ortodoxa cristã e faz um rito com velas e leite. É banhada de cima a baixo enquanto passa pelo exorcismo litúrgico e sincrético. Ela está disposta a passar por aquilo, e acredita nos que estão conduzindo o rito. Ela crente, afeita a qualquer fanatismo. Qualquer fanatismo que tire a obsessão do seu peito. É intensa e urgente, ela tem pressa, fanática e demente, ela se entrega, discreta. O mercenário que a levou, não paga pelo rito de cura, ela também acredita nele.

Performance 6 – Ela parte com o mercenário enquanto sua barriga cresce e ela encontra nele um novo amor.

Zigarina, Zigarina, dolorida e linda. Capaz de qualquer coisa. Ela está fodida e mal paga, está arrasada, por isso quer cortar a cabeça, quebrar pratos, virar menina de rua, se enterrar na terra debaixo das folhas secas, fanatizar. A barriga crescendo fruto de um amor tão infeliz parece criar um trato entre ela e a Terra daquele homem. Ela queria viver o multiculturalismo a transmusicalidade, a industrialização ainda precária, a não tão premente tecnologia da Transilvânia? Ela queria fugir da Europa, fazer o caminho oposto do resto da civilização. Incivilizar. Involuir. Precarizar. Tornar-se outra coisa. Ela estava de luto pelo fim do amor, pelo fim das matas, pelo fim das águas, pelo fim da Terra.

Me impressionam esses ritos performáticos irrefletidos e escandalosos de Zigarina, as manifestações da dor e o processo de expurgação da paixão que lhe possuía, que lhe endemoninhava. Algo de fora tinha se atravancado no meio do peito dela, algo maior que o corpo, que não cabia no corpo, muito menos no meio do peito e por isso produzia tanto sintoma, tanto sufoco, tanta dor no estômago.

O verbo é corpo, o signo é carne. Do que é feita uma memória? Quantas atualizações de memórias ela produzia com esses gestos atávicos, com essas sucessivas manifestações do incômodo que o encosto lhe produzia? Ela sofria por ela mesma e por todos os rejeitados. Tudo virava seu corpo, sua carne. Ela extravasava as dores dela no mundo, e as próprias dores do mundo no mundo, enquanto fazia esse trabalho, se tornava cada vez mais cigana.

O olho preto desenhado na mão. As saias cada vez mais compridas, as cores cada vez mais vibrantes. Uma cigana solta, sem eira nem beira, sem passado cigano, sem tradição ou compromisso, sem tenda, bando ou caravana. Uma nômade dolorida e mal educada, que assombrava com seu comportamento as tradições das pequenas cidades por onde passava. Uma cigana em processo produzindo uma dobra de mundo, única, incontrolável. Seria o ar da Transilvânia que promovia nela essa ciganeira toda? Seria a música a qual ficou exposta enquanto atravessava o país em busca de Milan, que ativava uma cigana escondida nela desde algum passado indeterminado, feito de imigrações, prisões, refúgios, diásporas?

Virar cigana, na contramão da história, sendo que os ciganos se adaptam a passos largos às regras dos gadjés (brancos). Já não podem nomadizar como antes, sempre foi difícil, mas agora tem o sistema de controle acirrado em cima deles, filhos na escola – eficaz forma de domesticação, sedentarização e implantação dos valores e cultura de um pais. Redes de internet, cada um com seu laptop, trabalhos, compromissos. Tecno-ciganos. Sedentarizados por força de uma modernidade que imprime outras formas de nomadismo no mundo, bem diferente das tradições ciganas para as quais, na maioria dos casos, “sonhar” significa “ver”. Quando o nomadismo pode significar traição ao território, as leituras de mãos, a adivinhação, as roupas alegres tudo isso fica meio pobre, meio superstição, visto como coisa de gente atrasada. Como ser cigano na contemporaneidade? Como devir cigano em tempos em que o nomadismo em tendas é visto como um maneirismo idiossincrático e fora de moda? Em tempos em que o nomadismo é esquadrinhado por projetos específicos e sempre a serviço de algum objetivo outro do que o próprio modo de vida dos ciganos?

Identificação, serialização, ordenação, manutenção, controle, pacificação, modificação das formas de organização, representação, encaixe nos sistemas de Direito, tudo isso vem junto com a relação com o Estado, como o sabem bem os povos indígenas, que ao mesmo tempo em que aos poucos ampliam seu poder de negociação e barganha, por outro lado se embranquecem nesse processo, adquirindo por exemplo, os modos de fazer política dos brancos. De modo que pergunto: como devir cigano em meio a todo esse processo civilizatório fominha?

Zigarina traz uma alternativa charmosa para essa questão, que nem de longe responde ao dilema dos povos ciganos, mas serve de suporte afetivo e conceitual. “Devir cigana”. Aciona em si o imaginário produzido por esse povo pelas terras do mundo, em toda sua estrutura mítica, do destino atrelado à sorte e ao azar, à alegria e à dor, à visão lúcida dos sonhos, da música, dança, trabalhos manuais, nomadismo. Zigarina performatiza tudo isso, inventa uma cigana em si, e libera a ciganería de todos.

Performatizar o desespero até o ponto de encontrar a medida certa, e no caso de Zigarina a medida certa não tinha nada a ver com seu passado franco-italiano classe média, mas sim com uma desmedida, uma improbabilidade. Grávida, sofrida, escandalosa, embrutecida, estrangeira, cigana, habitante das bordas.

Esse devir cigana, essas ritualizações do seu processo doloroso, essas manifestações performáticas do luto, reconfiguraram Zigarina. Comportamento redistribuído – seus gestos ganharam dimensões mais espaçosas, suas roupas largas lhe deram mais liberdade, ganhou apetite pela estrada, tornou sua desterritorialização seu ambiente natural. Sem terra, sem teto, sem direitos, cigana, toda politicamente incorreta: não corre atras do reconhecimento da paternidade, fuma e bebe grávida, sai a viajar com um completo desconhecido. Desaparece para o mundo de onde veio.

O mercenário é um super-macho rude, grosso, mas cuidadoso, que lhe convida a experimentar seu modo de vida, enquanto cuida daquela barriga que era de outro, não dele. Ele aceita mãe e filho, não sem performatizar também, convocando um grupo de músicos para tocar só pra ele quando a criança nasce. Dança e quebra as garrafas vazias na própria cabeça, o sangue escorre, a música cessa. Uma bodyart. Ele se envolve com Zigarina que está nessa situação limite, em processo de despossessão, ele se encanta por seu modo de ser, e especificamente, de sofrer. Imagino-o pensando: Zigarina, Zigarina, dolorida e linda. Uma cigana em processo não poderia abdicar da dor, de vivê-la, expressá-la, mantê-la próxima.

Talvez esse devir cigana esteja ligado a uma imanência atemporal, que cumpra uma função importante, que é a de não deixar morrer o tônus do cigano no mundo. Como se o devir cigano transcendesse a essência cigana, e fosse uma espécie de gosma invisível que se acessa com determinados gestos e ideias. Os ciganos também podem tornarem-se ciganos. Zigarina tornou-se cigana. Cigano aqui como povo, cultura, mas além disso, como percepção da vida, como perspectiva particular, cuja força se atualiza em diferentes formas de existência, para cumprir seu destino: fazer caminhar, produzir nomadismo, só com esse perpétuo movimento é que o eixo da terra continua girando. No final das contas, foi esse o trabalho de Zigarina, manter o eixo da terra em movimento.

TEXTO-FIM

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Fabiane M. Borges

Fabiane M. Borges é psicóloga ensaísta e artista, desenvolve pesquisa sobre arte urbana, performance, movimentos sociais, esquizoanálise, saúde mental. Dedicou sua tese de doutorado a assuntos relativos à cultura espacial, satélites, foguetes, comunicação e programas de apropriação orbital (open source) a partir do ponto de vista de pequenas e médias empresas e hacklabs (faça você mesmo e cultura maker). Faz atendimento terapêutico e tem uma empresa de consultoria com Adriana Veloso (Cosmos Consultoria). Publicou os livros: Domínios do Demasiado (Ed. Hucitec. SP. 2010), Breviário de Pornografia Esquizotrans (Ed. Ex.Libris), Ideias Perigozas (Ed. Des. centro. 2010), Peixe Morto (Org. Ed. Imotirô. 2011). Mantém o site: http://catahistorias.wordpress.com

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