Fêmea: Indo embora de Oman

Woamn_in_Burka_by_Silly_Artist

Ser linda. Ter poder. Odiar os fracos. Perder os limites. Usar burca, virar nômade, gastar o deserto com meus pés

Por Fabiane Borges | Imagem Silly-Artist 

Por dentro do véu sou invisível. Ninguém me vê aqui. Conheci uma liberdade que não supunha existir, não dentro de uma burca. Fico mais segura assim. São raros momentos que tenho que mostrar a cara, ando discreta por lugares sem risco. Não saio nos horários dos homens. Só no das mulheres. Elas sempre andam em bando, eu ando só sozinha. Mas passo desapercebida. Falo pouco, preciso me proteger. Alguns até desconfiam de algo errado com minha solidão, mas eu migro o suficiente para que esqueçam rápido. Ninguém pode saber que é disfarce: olhos de fora o resto dentro, nariz, genitália. Eu treino o olhar pra nunca parecer surpresa, para sempre parecer cansada. Não despertar curiosidade, não alavancar perguntas ou denúncias. É como consigo escapar da minha sina, mimetizar. Por isso esse véu corvo, esse véu refúgio.

Aparecer tanto, ser tão bonita! Eu poderia ter seguido viagem, ficar bem quieta e aceitar tudo com gratidão. Ficar famosa, rica, viver de doações. O jeito das pessoas me tratar, as pedras no caminho, a inveja peremptória. Sempre a me sugarem energia, a pedir amor, a pedir exclusividade, eu não sabia que os nãos formavam destino. Eu queria só me livrar de alguns incômodos, ser bonita me tornou assim, metida! Quanto mais me elogiavam, mais poderosa eu ficava. Era um vício. Minha presença se tornou uma dádiva. Eu negociava minha presença conforme meu interesse, eles que ficassem honrados. Eles todos, elas todas. As senhoras e senhores dos desfiles de moda, dos jogos de cavalo. Não mando babarem tanto, agora aguentassem meu fascismo simples e pouco honroso.

TEXTO-MEIO

Aprendi ser obedecida desde cedo. Pai e mãe se ajoelhavam pra falar comigo, tinha que ser de mansinho, bem devagar, porque eu poderia inverter tudo e criar mal estar, ver beldade chorando era coisa imprudente. Todo mundo ama o belo, o belo transtornado causa sofrimento, muita dor, era preciso parar o ruído, fazer o rosto brilhar bonito de novo, que me atendessem a vontade. Na escola também foi assim, foi assim na faculdade, nesses países todos que conheci.

Mas agora é diferente, estou vivendo um desafio. Quero ser invisível. E cometi crime hediondo. Não queria ter matado aquela criança, nunca pensei que fosse tão ruim ser assassina. Até brinquei com a morte dos outros, várias vezes, piadas, sonhos… Mas ela se botou na minha frente em momento de manobra. Na hora de virar a curva. A criança ali atravancada na frente do carro. Vejo seus olhos ainda, escuros, graúdos. Que barulho terrível. Depois tontura, correria, polícia, advogado, absolvida. Mas algo mudou em mim. Quero ser invisível.

Daí vim pra cá pra essa terra deserta e cheia de petróleo, viver dentro de um véu preto, de um vestido longo. Me esconder de tanta vergonha, de tanta mancha no currículo. Uma criança não, um adulto, um homem violento, não uma criança. Ando atormentada, tendo pesadelos. Preciso me esconder por algum tempo, não me olhar no espelho, viver a dor até que suma ou me consuma. Preciso passar por isso. Preciso não ter forma, não ter poder, não ter cor nem estatura, não ter figura, desfigurar dentro de um manto que me borra, que me torna comum. Que me protege de perguntas. Não sei o que vai acontecer depois. Sera que glória volta?

Como eu poderia viver minha vida de novo sem ter dobrado aquela esquina? Sem ter entortado tantos caminhos? Aquela vez que o rapaz laranja abandonou a cor, foi por causa minha, desdenhei seu excesso. Ele virou cinza. E a vez que a moça seguiu meus passos seduzida por minha benevolência e afundou na areia movediça, sozinha, ficou pobre que nem o cão vira-lata da esquina. Cheguei dar esmola quando a vi um dia. Mal reconheci. Coitada, ir atrás de mim! Foi que nem aqueles cultos que eu atrapalhava com minha falsa alegria, meu desespero. Meu silêncio fingido. Só queria seduzir todos aqueles negros, criar negritude na minha gargalhada, usar deus alheio pra me fazer mais prepotente. E aquela que dizia ser minha melhor amiga, que se atirou nas pedras, se drogou, prostituiu, pegou doença, para me impressionar. Fui muito má. Disso não posso fugir, a criança é o mal estar de todas essas tragédias. Pesam mais agora. Cada uma tem mais peso que todas juntas.

Ando com os quadris abaixados, com a voz mais rouca, sentindo meu peito murchar. Tenho o peso da minha indecência. Tanto ódio ao que era fraco. Ter ódio de fraqueza deve ser um trauma. Algo de infância, de onde veio isso? O meu primo que chorava, e eu o apertava ainda mais, até os soluços trancarem sua respiração, brotar pintas vermelhas no rosto. Não chora, se não aperto mais! Medroso! E sentava inocente para jantar. Mas isso tudo sempre me agradou até aquela odiosa criança sacrificar a vida pra provar minha maldade. Os seres dos tribunais não me veem criminosa. Mas estão errados. Otários! Não sabem que nasci com sina, o nariz pra cima, cabeça para traz?

Meu sofrimento se concentra no estômago. É aí que sinto dor. Por isso ando encurvada. Meu estômago dói com dois olhos estatelados nele. Duas gemas de ovos fritos. Uma coceira impossível de coçar, não tem cura. Tentei vários remédios. Quando consigo dormir, raro, é a única hora que esqueço tudo, e viro heroína, salva- vidas. Desafogo gente, liberto passarinhos, dou festas pros explorados da construção do meio da quadra.

Quando acordo nesse quartinho discreto, sem espelhos, coloco a burca e me faço excremento. Fedida. Sempre embriagada. Bebo e fumo mais que nunca. O que me faz ilegal por aqui. Tráfico. Nunca me perdoariam se soubessem da minha cara bonita, dos meus olhos melosos, minhas cantigas antigas. Esses mesmos respeitosos homens se esbofeteariam por uma noite comigo, desafiando alcorão, Allah e toda liturgia. Já deixei tantos chorando na vida! Se masturbando com um só sorriso. Um se matou, mas foi muito cedo, lá no começo. E aquelas invejosas, sempre servis pra estar do meu lado, pra ganhar algum cuidado, as aias da rainha. É que beleza e riqueza, uma gruda na outra, só saber usar. Eu soube, tenho certeza. E por isso que meu sacrifício é maior ainda. Para algumas pessoas, se esconder na burca é salvação. Não ter que se desculpar por tanta feiura, tanto rascunho, borrão. Poder envelhecer em paz sem as pressões do projeto estético plástico do padrão. Tenho impressão que estou aprendendo algo, não sei bem o que. Talvez algo de ser vulto. De não ter identidade, de me confundir com o urbanismo nervoso e ostensivo do deserto, ser pó de Meu refúgio. Burca esconderijo. Meu escudo, pele, sobrepele, protetor. I love my burca.

Às vezes, quando não tenho medo, vou sozinha para perto da represa, para atirar pedras na beirada da água, ver minha profundidade rasa. Ver o que estou perdendo nas ondinhas do vento na água. Imaginar casar com alguém, me dedicar a criar crianças, e fazer algo surgir da minha barriga, para além dessa cólica constante. Ser amada, perdoada. Ser um presente pra alguém. Imagino ele levantando o véu, sua cara de surpresa, sua cara de contente. O resto já tive tudo, não preciso. Dinheiro, cassinos, todos os sapatos e muitos cavalos. O sucesso sempre anda com a sombra ao lado, um abismo. Eu caí nele inconsciente, num instante, na curva. Sempre tão narcisista, tão cheia de mim. Soberba. Desaparecendo pode ser que desapareça junto minha paranoia, lambisgoia, pega tudo. Não sobra nada.

Busco com avidez saber dos momentos bonitos. Onde fui imprescindível, que fiz algo importante acontecer. Aquele dia que dei carona pra uma senhora velha, 40 quilômetros por pura bondade, por um pouquinho de história triste. Quando emprestei dinheiro pra moça publicar seu livro, cheio de poemas, meu nome na contracapa. Quando tomei cogumelos e pedi perdão pro casal de caseiros da casa velha. Perdão queridos, e lavei seus pés. Eles ficaram orgulhosos, prazenteiros. Quando dei meu vestido bonito pra menina brilhar, porque não tinha roupa pra ir no casamento. Sim, dei muitas esmolas, algumas bem caridosas, prestei favores. Ajudei o pessoal a fazer um cinema no prédio velho do bairro pobre. Olhando daqui, parece que fiz tudo isso pra assinar meu nome, pra aparecer ainda mais. Não consigo me perdoar, não ainda.

Se pelo menos eu parasse de sentir ódio. Mas vejo essas mulheres que se disfarçam como eu e tenho ódio. Queria sair cortando todas as burcas, cortando todos os pintos dos homens lambidos, com esses vestidos brancos, nojentos, empoeirados. Velhos tarados! Eu odeio esses corpos aprisionados, mesmo que seja a única liberdade que eu conte no momento. Essas mulheres submissas, que nojo! Tenho vontade de fazer streap tease na mesquita!! levantar o véu e mostrar a arma. Bando de canalhas, cínicos! Se meu ódio só aumenta, porque tudo isso? É porque se não fosse isso, eu estaria frita.

Penso em mil formas de criar barulho. De causar danos. De ser morta. No fundo é o que eu quero, ser morta! Parar na frente do carro de alguém. Repetir minha própria sina em outro. Corpo desconhecido. Documentos escondidos. Reconhecimento do corpo, a beleza estatelada. Culpar alguém pela minha morte. Não posso fazer sozinha, ainda sobra algum amor. Parece que as injustiças criaram textura, cheiro. Eu enxergo tudo agora. Daqui dos meus olhos quadriculados, prisioneiros, sem vida pública. Nenhuma religião poderia curar-me desse caldo pútrido que me engolfou. Desse solo desértico e cheio de sangue preto que piso todos dias. Meu dinheiro vai acabar, eu já não tenho mais nada. Estou gastando tudo em viagens e caridades. Eu não sei como aliviar a dor. Não consigo nem desistir.

O perdão não é tudo. Entendo agora algo do sacrifício. Do porque dizem que purifica. Atravessar essa imensidão, fazer essa peregrinação me parece mais penosa que a prisão. Abrir mão de mim mesma está sendo difícil. Não só pela beleza, mas também pela grandeza. Aprendi ser grande desde pequena. Continuo grande. Não saberia sofrer pequeno. Entendi que o perdão às vezes não pode mais do que pode. Que o esquecimento e a loucura podem ser uma dádiva, que a memória pode ser uma pena. Humildade tem sido meu aprendizado mais lento, logo eu que sempre fui rápida. Tentei servir mas não consigo. Sacrifico então meu talento, minha música. Parei de tocar, mesmo que insistissem. Dá-nos um pouco da tua música! Miseráveis! Não veem que algo se rompeu, uma crença na vida e na música?! Não há bálsamo, nem consolo. Meus dedos paralisaram, minha inspiração ficou flácida. A única coisa que posso agora é peregrinar escondida na burca preta. Eu quero atravessar essas fronteiras do deserto. Habitar por pouco tempo cada uma dessas cidades. Não me fazer conhecer. Não conhecer ninguém. Me perder nesses desertos do Oriente Médio até gastar essas gemas de ovos fritos estatelados no meu estômago. Ou gastar o deserto com os meus pés.

TEXTO-FIM
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Fabiane M. Borges

Fabiane M. Borges é psicóloga ensaísta e artista, desenvolve pesquisa sobre arte urbana, performance, movimentos sociais, esquizoanálise, saúde mental. Dedicou sua tese de doutorado a assuntos relativos à cultura espacial, satélites, foguetes, comunicação e programas de apropriação orbital (open source) a partir do ponto de vista de pequenas e médias empresas e hacklabs (faça você mesmo e cultura maker). Faz atendimento terapêutico e tem uma empresa de consultoria com Adriana Veloso (Cosmos Consultoria). Publicou os livros: Domínios do Demasiado (Ed. Hucitec. SP. 2010), Breviário de Pornografia Esquizotrans (Ed. Ex.Libris), Ideias Perigozas (Ed. Des. centro. 2010), Peixe Morto (Org. Ed. Imotirô. 2011). Mantém o site: http://catahistorias.wordpress.com

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