Fêmea: Esgoto da tua diplomacia

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“Eu tinha esse outro poder, poder de quebrar coisas, despedaçá-las, não deixar nada sobrar, tu não enxergava a gravidade disso?”

Por Fabiane Borges | Imagem de Daniel Gonzalez Muniz

N. Tenho umas coisas para te dizer. Há muito tempo quero desabafar. Eu estava farta de pensar em toda essa conversa, essa geleia, essa saúde, essa inteligência. Queria achar saída, como quem escapa e volta, mas não tinha muita saída diante desse muro onipotente e admirável. Precisei contar histórias no teu ouvido pra inverter o jogo, para te fazer gozar, para te produzir algum outro sentimento que não fosse essa auto-estima elevada, esse olhar sobre as ociosidades, esse olhar preconceituoso sobre tudo aquilo que prefere não se mexer, não fazer nada. Eu estava tentando ser menos alcoólatra, mais aceita, menos barulhenta, mas parecia coisa demais pra se fazer a qualquer hora.

O silêncio era um dádiva não uma prática diária, mas você me fazia sentir culpada com sua linha, sua classe, sua figura polite contemplando os olhares, sorrindo educada, não esquecendo de nada, nem do lenço, nem de ouvir o chato falando trivialidades, que não interessam. Tua educação me ofende, me faz sentir obesa, desencaixada, toda aleijada, com vontade de esconder a cara, de andar de máscara. Foi porque não tive educação, que todos me odeiam e te amam? Minha mãe me educou errado? Ou seria uma intransigência já desde pequena contra qualquer controle que me deixou assim, olhos atiçados, mãos rápidas em abrir e bater portas?

TEXTO-MEIO

Várias vezes pediste com o olhar para que eu saísse da tua frente, mas eu endureci a postura, fechei teu caminho, resisti a teu sorrisinho fluente e diplomático. Desviastes, 100 % de aprovação do público, que passaram logo atrás de ti, quase me derrubando, não entendendo como eu fazia de ti um símbolo de escárnio, um poder a ser resistido. Logo tu, líder, irrepreensível, impecável, generosa, o grande ouvido de todas mazelas. Eu queria resistir à tua boa educação, ela me magoava, me deixava insatisfeita. Me deixava com nojo das negociações necessárias para ser querida. Eu queria ser amada sem tanto esforço, sem tanto fingimento, porque no final é isso, fingistes tanto que já não sabes qual é tua cara.

Eu também ando perdida. Mas não quero me render ao teu niilismo disfarçado de compaixão, misturado a continência. Minha revolução é dos mal-educados. Ou isso ou nada. Esses educadinhos como tu, já estavam por demais dentro dos sistemas todos se fingindo de revolucionários para não chamar a atenção para a vontade de poder e domínio. Eu tinha esse outro poder, o poder de quebrar coisas, despedaçá-las, não deixar nada sobrar, tu não enxergava a gravidade disso? Nunca enxergou? Preferia coisinhas coladas, pedaços juntados, o efeito fraco… O lugar do burocrata cheio de qualidades. Não se tratava somente de odiar gente bem-educada, tu sabe disso… Gente cordata e negociante que me fazia passar mal, toda aquela predisposição em achar um caminho mediado, que não tem nada a ver com o projeto. Nada. Esquecestes de todos os planos? De todas borracheiras que exigiam concentração, tempo, dedicação? Tudo isso por água abaixo na tua primeira reunião de cúpula. Colocaste nossa urgência de anos dentro da tua pastinha verde. E nem era porque estavas sendo pressionada, foi por pura boa educação que deixastes vazar todo nosso sonho. Foi porque bater o pé pra ti é coisa de gente pobre, ignorante. Imperdoáveis teus bons tratos!

Tenho raiva de também ter te escolhido como representante. Mas ao contrário do que imaginava, tu teve reconhecimento veloz, foi aceita nas rodas, condecorada. Eu te abandonei ali, naquela janta insonsa que me deixou meses com dores no intestino. Meu intestino é muito mais honesto que teu coração complacente. Dei um tempo pra ver teu arrependimento, pra te aceitar de novo, mas eu não suportaria essa traição. Trocastes nossa angústia e nossa luta, pelo estímulo dos restaurantes chiques e com aqueles intelectuais flácidos. Eu fugi de ti sem que reparasses, eu representava já ali uma coisa muito grosseira, pra te fazer companhia. Não? Cordeira.

Eu odeio o tempo que beijei tua boca, que apertei teus seios com os dentes. Eu tenho nojo de ter sido enganada tão simploriamente. Achastes que tua diplomacia ia dar conta da minha fúria? Odeio palavrinhas fáceis! Tu vai ainda chafurdar no esgoto que existe dentro da diplomacia. Um esgoto escondido, não a céu aberto, mas que cheira, que apodrece. Eu quero ainda apontar o dedo para onde reside teu sofrimento, tua falta de argumento, o esgoto da tua diplomacia. Aquele tique, aquela coceira, aquele lugar onde alguma coisa dá errado, por gambiarras complexas, que vai culminar na enxaqueca, na moleira mole, que vai te fazer revirar de cólica. Acordar de noite, engasgar de vômito, um caldo verde, estranho, que te amedronta. Algum fluido do estômago, apesar da tua saúde, da tua yôga, dos teus médicos, do teu disfarce.

Preciso acreditar que o rabo torce em algum lado, ou se não, me envaidecer do meu próprio sofrimento, mesmo sabendo não ser justo que eu sofra tanto e tu não sinta nem pedaço de toda miséria com a qual compactuas. Não te pesam todos esses volumes de fraqueza? Esquecestes todos os acessos precários? Nossos dias na lama, os dentes cariados? Nossos roubos nos restaurantes caros, nossa raiva do que eles comiam? As pedras que jogamos na polícia, junto com os desgraçados? De que lado estás agora? Aceitando todos os tipos de privilégio, fazendo governo de ricos, para ricos, por acaso passas fome agora que te confinas nos ares condicionados, regada a vinhos bons?

Sei que tu pensa estar fazendo a coisa certa, todas tuas teorias humanistas, tuas metodologias e capilaridades, teu vegetarianismo, tua política correta, teu ativismo consciente, tua falta de desespero, teu controle, teu trabalho árduo. Tu é o exemplo da mulher que junta sucesso com justiça, tu nasceste para o poder, representante de vários calibres, insubmissa e exigente, uma boa chefe. Tens tantas qualidades que abomino.

Conheço teus buracos mais do que tu mesmo, como olhas pro lado quando és ignorada e aperta os dedos pra não demonstrar fraqueza. Teu preconceito áspero e discreto. Quando te acordas no meio da noite com medo do pesadelo, teus tremores leves de pânico, de claustrofobia, que tu resolve com medicina, teus conselhos ponderados, a arquitetura dos teus pensamentos são minúsculas, funcionam como uma empresa. Tudo o que é humano te aborrece, mesmo que sejas técnica do antropocentrismo, tua sede por fazer a coisa certa, os horários, as filas, os horários, as filas. Teu discurso de complexidade esconde a vontade concreta como pedra, de criar horários e filas. Uniforme te lembra o nazismo, trauma de família, e já não gostas tanto deles, porque és viajada, conhecestes as cores das Índias e das Américas. Cores foram aprovadas no teu elevado grau estético. Eu tenho medo das tuas harmonias, do teu respeito às escalas, da brancura das tuas roupas, do teu asco constante a tudo que cheira, que tem odor forte. Mulher perfeita.

Lembras quando uma vez tropeçastes num aleijado, e mesmo continuando a tropeçar no mesmo percalço não enxergavas a cadeira de rodas? Tu não gosta de olhar pra baixo, tu gosta de olhar de cima, seria um paradoxo interessante, se não fosse uma ação óbvia. Não gostar de olhar pra baixo não é o mesmo que gostar de olhar de cima. As alturas te interessam porque vês o princípio organizatório de lá, no que podes intervir, no que tem potência de melhorar. Mas quando estás em terra, olhar pra baixo te faz poeira, te lembra decadência, te dá medo de ser infectada, como praga ou estupro. Medo de ser tragada pela miséria. Pela baixaria toda.

Seria pura redução projetar a origem do teu medo numa infância violenta. Te individualizaria demais, serviria como desculpa. “Cada um age como age de acordo com seu processo”. Respeitar os processos, como gostas de pensar, mas também não se envolver com eles, não deixá-los crescer pros lados, nem pra frente, cada um cheirando o próprio processo até a asfixia, desde que tu esteja em cima, conselheira boa, fortalecendo as grandes veias, as que te importam, e deixando na sombra os favores miúdos, as trocas de embalo, os sarcasmos e as piadinhas discretas, os olhares de cumplicidade que culmina na tal discrição disfarçada. Te tornaste dissimulada, interesseira, abandonaste a borracheira, os graus elevados de distúrbio que te faziam gritar na rua e saber que antes da ordem, antes do controle, existia essa vida impulsiva, pulsante que queria tomar as ruas, usufruir da liberdade. Tudo virou sinônimo de doença agora, de vandalismo, de crime na tua miopia, no teu olhar generalista.

No fundo és uma higienista. Queres limpar as mazelas à força, mesmo que sejam resistência ao confinamento, queres criar o padrão médio para saberes o que fazer com as exceções. De certa forma eu já esperava que fosse assim, porque nunca fostes muito forte. Sempre atenta demais às críticas, ao bom senso, à prudência. Tinhas medo dos exageros. Vida deve ser comedida, não dizias todo tempo?

O que dá medo de gente como tu, que nunca abandona o próprio controle, é que trancam o fluxo de qualquer contágio, aquele que admiramos um dia nos loucos da esquina. A inspiração que faz brotar poesia, faz cantar juntos, faz embalar as madrugadas, e faz a gente ficar mais perto da decadência tão temida, faz a gente transtornar a cara, falar bobagem, desgovernar! O contrário do teu ideal de agora!! Teu ideal de agora é evolução e desenvolvimento. Será preciso mil derretimentos de geleiras, mil tufões pra te desviar do teu projeto? Eu entendo que nosso grau etílico estava já transbordando pra fora do corpo, cheirávamos a cachaça, só notamos quando nos disseram, estávamos já fedendo, nossa roupa com cheiro de maconha, vinho, cerveja, tabaco, nossos dentes um pouco escurecidos, estávamos intoxicadas a ponto de adoecer.

Eu andava um tanto barriguda, com cara de buldogue e nariz inchado. Tu estava um trapo, esquecida, desanimada, sem memória nenhuma. Tuas visões turvas, minhas caganeiras, tuas quedas na rua, minha baixaria, tuas insônias, minhas orgias, teus vômitos na calçada, minhas choradeiras, tua sedução, meu ciúme, tua má vontade, minha voluptuosidade, tuas ressacas, minhas violências. Mas ali criamos alguma coisa. E nem éramos tão jovens, já nos 30 anos, apaixonadas.

Foi ali que decidimos fazer todas as faixas, invadir todas as praças, virar super-heroínas, lutar pelos mendigos da esquina, pelas putas do meio da quadra, pelas velhas dos andares de cima, pelas mulheres sozinhas, pelos cachorros sem donos, por tudo que era triste, velho e fedia. Dormíamos enroladas nas faixas, inconscientes, sujas e felizes, porque gastávamos nosso tempo deliberadamente, não tínhamos medo da morte, nem de nenhuma hierarquia, nem da polícia. Éramos fortes e indecentes, inconsequentes, mas parece que entendíamos melhor as texturas da dor, seus disfarces, seus paralelismos, lembra?

Nos orgulhávamos disso. Tu acha que é uma questão de classe social? De anúncio no jornal? De publicidade? De ver a foto marcada nas manchetes online? Lembro agora que teu narcisismo já me matava naquela época. Só sabias falar de ti mesma. Todos interesses do mundo sucumbiam no teu umbigo. Nada sobrevivia ao teu ponto de vista. Umbiguista. Tua cultura do it yourself se tornou do it for me. Everything for you N. tu confundiu todas conversas. Usou-as pro teu próprio bem. Tu rompeu um circuito de crenças e interdependências. Eu falo isso pra ti, não porque quero ser tua consciência, mas porque sei que tu é muitos, que tu sobra aos montes. Que tu está em toda parte. Tu abusou do nosso discurso, se empoderou por conta disso, porque virastes espiã.

Desde que fiquei velha tenho tido menos paciência com a ladainha dos outros, mas não consigo trancar a minha. Sim, faço ladainha. Sou uma armadilha, e estou desempoderada, estou com gastrite, infecção na urina, me olho no espelho e já não me reconheço. Mas tu está envelhecendo tão bonita, teu cabelo arrebitado, teu sorriso embranquecido. Estou velha e cansada, sempre estive. Minha energia tarada virou palha seca, dura três minutos qualquer excitação. Eu acho que tu era melhor quando pobre e sonhava. Eu era melhor quando te amava. A gente se protegia e a política era um sentido da vida, não uma profissão.

Ninguém entenderia uma carta tão sovina pra uma mulher da justiça. Não vou te mandar esta carta. Vou rasgá-la agora mesmo. Eu só queria saber onde guardas teu lixo.

TEXTO-FIM
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Fabiane M. Borges

Fabiane M. Borges é psicóloga ensaísta e artista, desenvolve pesquisa sobre arte urbana, performance, movimentos sociais, esquizoanálise, saúde mental. Dedicou sua tese de doutorado a assuntos relativos à cultura espacial, satélites, foguetes, comunicação e programas de apropriação orbital (open source) a partir do ponto de vista de pequenas e médias empresas e hacklabs (faça você mesmo e cultura maker). Faz atendimento terapêutico e tem uma empresa de consultoria com Adriana Veloso (Cosmos Consultoria). Publicou os livros: Domínios do Demasiado (Ed. Hucitec. SP. 2010), Breviário de Pornografia Esquizotrans (Ed. Ex.Libris), Ideias Perigozas (Ed. Des. centro. 2010), Peixe Morto (Org. Ed. Imotirô. 2011). Mantém o site: http://catahistorias.wordpress.com

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