Fêmea: Desses tons que nos constituem

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“De onde vem esse meu tom: do olhar da minha mãe, também? É ele, grave e urgente, que provoca seu tom manhoso e infantil?”

Por Fabiane Borges | Imagem: Paul Klein, Som Antigo

 

— Este tom, de onde você tirou esse tom? É irritante, afunilado, nasal demais.

— Que tom? Não noto!!

— Esse tom infantil que você deu agora, é um tom reclamão. Você usa pra reclamar.

TEXTO-MEIO

— Eu reclamei?

— Não, você só usou esse tom insuportável e eu notei que você está reclamando de alguma coisa. Então porque você não diz do que está reclamando ao invés de usar esse tom? É mais razoável.

— Aiiiii, que sacooooo…. Que tooooommmm?

— Esse tom, esse que você acabou de usar agora.

— Esse tom é meu! Qual é o seu problema com o meu tom?

— Sei lá, eu pensei que o problema era com você. De onde você tirou esse tom?

— Hummm… deixa eu ver…. Será que é algum resquício de infância? Como um choro, uma manha? Uma falta do seio bom? Um olhar da minha mãe pra algo que não era eu que me perturbava e que se tornou voz?

— Ah, pode ser sim. Sua mãe olhava pra muitas coisas que não fosse você?

— Não lembro.

— Esse tom então além de reclamar exige atenção da sua mãe?

— Pode ser.

— E você acha que todo mundo é sua mãe pra ficar pedindo atenção dela para todas as pessoas do mundo usando esse tom?

— Acho que sim. Eu queria que todos fossem minha mãe.

— Mas eu não sou sua mãe! Esse seu tom é de matar. Me aborrece profundamente. Exige algo de pessoas que não devem nada para você. Tem uma urgência, uma insatisfação prepotente, que sai em voz desafinada.

— Aiii, mas qual o seu problema com esse tom. É só mais um tom.

— Esse tom seu é agudo e dá umas voltinhas, uns rococós altos que sobem cada vez mais, entra dentro do meu ouvido, ataca alguma linhagem neuronal, me deixa estressada e com raiva.

— Aiiii, que horrooor… Eu tenho esse tom? Você também tem, viu? Você também tem uns tons que aborrecem meio mundo.

— Que tons que aborrecem meio mundo?

— Esse seu tom ameaçador, por exemplo.

— Que tom é esse?

— Um tom que você deveria conhecer muito bem, porque faz ele direto!!

— Mas não é agudo como o seu tom.

— Não é agudo, é grave, mas também exige das pessoas algo que elas não tem obrigação de atender.

— Quando eu uso esse tom?

— Quase todo dia, em algum momento.

— Não!!

— Sim. Hoje você ainda não usou, mas porque está tentando ser razoável. Mas quando você esquece de controlar, lá está ele, todo urgente, intolerante.

— Porque você nunca me falou que uso esse tom?

— Não sei. Acho que eu imagino que você vem com esse tom anexado, daí eu aceito.

— Mas de onde vem esse meu tom, será que é do olhar da minha mãe também! Você acha que é o meu tom grave e urgente, que provoca o seu tom manhoso e infantil?

— Hummmm….. Acho que eu uso esse tom independente do seu.

— Mas a gente usa esses tons com uma certa frequência uma pra outra?

— Acho que a gente usa esses tons toda hora com qualquer um.

— É uma lástima, estou envergonhada do meu tom.

— Por que?

— Porque não queria usar um mesmo tipo de tom sempre. Queria ter muitos outros tons pra mesma sensação.

— Não dá pra me aceitar com meu tom agudo e eu te aceitar com teu tom grave?

— Não dá.

— Por que?

— Porque uma vez deflagrados esses tons, a gente tem que transformá-los em outras coisas mais interessantes. Chega de ficar exigindo com tom.

— Mas todo mundo tem tom.

— Por isso que não aguento muito as pessoas, por causa dos tons repetitivos delas. Elas tem que mudar de tom.

— Você acha que esses dois tons são estruturais na nossa vida, quero dizer, a gente é feita deles, eles nos constituem?

— Acho que é como um vício tonal. A gente vicia em alguns tons e fica em torno deles, empobrece nossa caixa sonora, atrofia nossas cordas vocais, enrijece nosso modo de comunicação. É uma miséria tonal!!

— E vicia o outro também,

— Suponho que sim, cria uma série de dependências. A ponto dos outros agirem com a gente, de forma a evitar esse tom, fazendo de tudo para que a gente não use esse tom, ou pior, nos provocam para a gente usar esse tom, e desencadear alguma coisa com isso.

— É, de fato é deprimente.

— É deprimente mesmo.

— Eu agora estou odiando esse meu tom.

— Eu também estou odiando o meu.

— O que a gente faz, terapia?

— Acho que é um bom caso terapêutico.

— Aula de canto?

— Aula de canto também pode ser uma boa.

— Mas será que perdendo esse tom a gente não perde algo mais estrutural?

— Como o que, virar coxinha?

— Sim, perde alguma vontade de urgência que vai embora junto com o tom proibido.

— É, talvez a gente acabe por se transformar um pouco. Isso dá um pouco de medo.

— Mas se a gente substituir um tom por outro não vai dar no mesmo no final das contas?

— Não sei, mas a gente poderia colocar no lugar desse tom, o silêncio por exemplo. Isso seria bom.

— E virar umas cordeiras zem e não conseguir mais nem falar nada.

— O que você quer dizer, que tirar um tom da nossa linguagem, vai nos tornar mudas?

— Pensei nisso.

— Puxa, é aterrorizante, perderemos ao invés de um tom, todos os tons?

— É um risco.

— Sim, mas pode ser o inverso também, podemos no lugar de um tom repetitivo, colocar outros tons, ou aprender a falar de novo, de um outro jeito.

— Mas a gente vai ficar que nem essas pessoas mono-tonais?

— Não a gente vai ficar multi-tonal.

— Mas as pessoas podem não confiar mais na gente, por causa da nossa instabilidade tonal. Vão sentir falta de alguma identidade sonora.

— Sim, se eu abandonar a minha agressividade tonal e você abandonar sua infantilidade tonal, a gente vai perder algo da nossa identidade, mas isso pode ser bom.

— Aiiiiii, então eu vou continuar com meu tom.

— Não. Você está evitando uma transformação por um pressuposto qualquer. Tem outras saídas. Calma.

— Quais? Me fala. Eu estou com medo agora. Eu não vou perder meu tom, senão vou ficar muda e fraca, sem identidade. Deixa meu tom em paz.

— Não sei!!!!! a gente tá tentando pensar numa saída, sua doida!!!

— Aiiiii, nãoo falaa assssssim comigoooooo, lambisgóóóóóia.

— Não usa esse tom!!

— Vaiiiii seeeee fooodeeeeerrr!!! sabe.

— Ai meus ouvidos, é insuportável, eu vou embora!! Cansei desse seu tom, tchau. Você não quer mudar.

— Aiiiiii,,, queeeee estúúúúúúpidaaaaaa!!!

TEXTO-FIM
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Fabiane M. Borges

Fabiane M. Borges é psicóloga ensaísta e artista, desenvolve pesquisa sobre arte urbana, performance, movimentos sociais, esquizoanálise, saúde mental. Dedicou sua tese de doutorado a assuntos relativos à cultura espacial, satélites, foguetes, comunicação e programas de apropriação orbital (open source) a partir do ponto de vista de pequenas e médias empresas e hacklabs (faça você mesmo e cultura maker). Faz atendimento terapêutico e tem uma empresa de consultoria com Adriana Veloso (Cosmos Consultoria). Publicou os livros: Domínios do Demasiado (Ed. Hucitec. SP. 2010), Breviário de Pornografia Esquizotrans (Ed. Ex.Libris), Ideias Perigozas (Ed. Des. centro. 2010), Peixe Morto (Org. Ed. Imotirô. 2011). Mantém o site: http://catahistorias.wordpress.com

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