Fêmea: A habitante dos abismos

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Apesar do nariz empinado levá-la pro alto (as festas mais badaladas, as classes menos operárias, o champanhe de graça com fartos comentários sobre cinema e bolsa de valores), não era raro voltar ao lugar de origem

Por Fabiane Morais Borges | Imagem: Panmela Castro

Mãe pobre e alcoólatra, pai abandonado, toda sem eira nem beira, a não ser a irreverência, a inteligência e o nariz empinado. Era uma esponja para tudo que era liberdade, os saraus das madrugadas, as drogas uma a uma, gostava de alucinar, de dançar, ia a todas as festas. Aprendeu a se virar desde cedo, ora sendo namorada, ora vendendo salada, ora pousando de rica na esquina, porque dizia que se você se finge de rica, a vida acredita e dá crédito. Sempre colocava suas credenciais em tudo que fazia, era uma espécie de picho. Suas iniciais na cidade, como quem diz, és minha!

Também era companheira, emprestava o ouvido para as histórias mais tristes, dormia junto com os solitários, com as vazias, fazia massagem, falava asneira. Criou uma rede interdependente, com quem contava nos dias de seca, sem dinheiro, sem abrigo, quando bêbada perdia a hora, o celular, a entrada, a dignidade, quando toda sua pobreza pesava. Era frequentadora dos abismos. Apesar do nariz empinado lhe levar pro alto, para as festas mais badaladas, para as classes menos operárias, pro champanhe de graça com fartos comentários sobre cinema e bolsa de valores, não era raro voltar ao lugar de origem, o abismo. Naquele lugar ficava mais atenta ao eco do mundo, se irmanava com os desvalidos, com as que não tinham força pra conseguir com aquilo tudo que era prometido na televisão. Ela sabia que era feita para viver como larva, toda sua condição existencial a levava nesse sentido. O lugar onde a gravidade puxa mais forte. E assim, rente ao chão por vezes chorava. Não sofria só por si mesma e seus companheiros fodidos, mas também pelas plantinhas que já não existiam na volta do poço sem fundo, não havia mais árvore para acolher sua dor, a beira do abismo era um cemitério de árvores. A fumaça sufocava o grande buraco junto com o barulho da fábrica. Não havia consolo ali, apesar de saber que era dali que tinha brotado, como um pasto mil vezes ruminado e por fim expelido pelo reto de algum bode desalmado. Era difícil fazer poesia ali.

Quando cansada de sentir a dor do mundo, fincava a metade do rosto no chão, liberava um olho para dentro do abismo. Empurrava mais um pouco para dentro o nariz para ver se vinha algum sopro arejado, que lhe desse ideia de como voltar a frequentar aquele outro estado, que não lhe era natural, mas lhe era agradável. Do falar e comer bem, do não passar necessidade, do se divertir à vontade sem preocupação. Do estar com a vida segura, assegurada, asseada, de ser limpa, reconhecida, socialmente acolhida. Para sustentar tudo isso precisava de muito trabalho, tinha que fazer networking, terminar a faculdade, criar identidade, esquecer o abismo e todas essas sombras funestas que lhe puxavam pra baixo, tinha que ler auto-ajuda no banheiro, sem contar o segredo, emprestar os olhos para as seduções mais inesperadas, fazer caras e bocas, não emitir opinião de fato, lidar com tato contornando as situações. Precisava ser atrevida, empoderada, bonita, sempre bonita. Pesava-lhe ter que ser bonita, não deixar cair os olhos, aproveitar a juventude, não mostrar seu lado pobre, atrofiado. Precisava inventar a roupa, ser discreta, só as vezes piriguete. Fazer conchavos, prestar serviços, abrir conta no banco, fingir que não é empréstimo, pagar algo de vez em quando, sustentar no salto a falta de saldo, sumir na hora certa, fazer as escolhas certas, estar no lugar certo na hora certa, e claro fazia tudo errado. Essa mais valia lhe doía. Os ombros caíam, não aceitava o pacto, não cumpria os contratos, só queria que fosse normal ouvir todas aquelas baboseiras sobre sua classe social. Ela não era fiel a nada, mas a cidadezinha miserável lá dos cantos do Brasil profundo, não saía de dentro dela. Ela tentava ser garota de Ipanema, não ter cara de sufoco. Tinha ambições, as mais delicadas do mundo. Queria viajar por vários países, dar uma casa para sua mãe já velha de tanta cachaça, ser professora, plantar uma floresta. 

Tinha uma genialidade, a de levar sementes nos bolsos. Era sua forma de contribuir com o mundo. Não frequentava com muita assiduidade nenhum partido, coletivo ou redes sociais, não fazia parte das organizações horizontais, ela só gostava de gozar, ia nas festas para conhecer gente. Mas seu ativismo particular era plantar sementes. Onde ia plantava uma árvore ou trocava-as de lugar. Roubava dos jardins dos ricos pra plantar na rua. Preferia as encruzilhadas, os canteiros de obras, em volta das sinaleiras, os rachados das calçadas. Plantava trepadeira nos prédios dos amigos. Eles só notavam quando o mato tomava conta de alguma de suas janelas, se enganchava nas grades. Ela contava histórias, dizia de cada uma das plantas – conhecimentos da sua avó. O único problema é que não cabia no esquadrinhamento do Estado sobre sua condição, nem dos grupos, nem dos Direitos. Não se emprestava para esses nomes de cima – impostos, ou pelas lutas ativistas, todas lhe prendendo em um cercado. Nem acadêmica de verdade era, apesar de ter conseguido passar numa faculdade pública de pedagogia, onde ia a contragosto fazer provas pra ter um futuro posto. Não seria uma professora militante, nem uma política atuante. Seu lugar não tinha lugar. Será que alguém entendia sua falta de lugar? 

Outro diria, ela poderia ser ecologista, parteira, diretora de ong, mãe maravilhosa, mulher exemplar. Quem lhe via dos abismos, enxergava toda sua potência, mas ela não cabia nas coisas. Nem era por causa de ego grande, era por causa da sua falta de cabimento. Não gostava de como os grupos classe média sabiam tão bem como resolver o problema da sua classe. Ela disfarçava, não era todo mundo que notava que de dentro do seu sorriso bem retinho e branco, rugia uma mal educada, que não aceitava nenhuma imposição. Seu feminismo não dependia de agremiação. Se utilizava das suas conquistas, mas odiava reunião. Ela era abre-alas, quando não estava perdida nas quedas, sabia como lhe abrirem passagem. Seu feminismo pungente, aguerrido, atrevido e inconsciente veio da avó. Ela sim era pajé, ecologista, parteira e sabia das coisas, cabia em tudo, a avó tinha cabimento. Mas foi a avó que lhe expulsou. Aqui não é lugar para ti. Vai tentar outra vida numa cidade grande que tu tem talento. E depois morreu. 

TEXTO-MEIO

Quando lembrava da avó, se enchia de orgulho. Avó feminista, sábia, também sofrida, muito vivida. Avó generosa, casa cheia de gente, de remédios, de ajuda. Dona Ajuda, não era atoa seu nome. Como avó tão generosa pôde parir uma filha no álcool? Uma despinguelada egoísta como sua mãe? Isso não sabia, a mãe também não falava quando foi que seu caminho entortou. Mas quando sucumbia às drogas, bebia muito, levantava o copo e saudava a mãe. Dizia no meio da noite:  — Mãe, eu te entendo, eu te puxei, foi eu que te desvirtuei, e se apresentava: a indesejada. Mas fazia isso com aquele cansaço sarcástico, que cansa da própria reclamação, que ri de si mesmo, faz tudo parecer à toa. A indesejada (risos).

Talvez tenha sido como indesejada que aprendeu a punir, a envenenar. Muito discretamente, mas envenenava. Sabia que antes de dormir a pessoa lhe veria como assombração, aprendeu a colocar medo, sem nem gritar. Era fina a neta da bruxa. Um humor fino, quase que não se notava o quanto tripudiava sobre os esnobes e imbecis. Dava corda para que se enforcassem, até se tornar cúmplice de alguma confissão. Pegava a pessoa na mão. Às vezes não gostava dessas maldades, e dizia que abdicaria desse poder de beber a alma dos outros. Mas era como uma religião, se parasse com essa mania, morreria, era sangue pra vampiro, era alimento. Em troca a cara de compreensão, enquanto por dentro rangia seus dentes e dizia, vou te levar para dar uma volta no abismo, para ver como ali está árido e sem sombra. Era com esse mesmo espírito que virava beija-flor e implantava uma folhinha de arruda no bolso de alguém.

No fundo tudo isso era amor. Seu veneno gerava fotossíntese. Era planta. Ela só queria fazer com que o cheiro do abismo tivesse espaço naquele mundo blindado. Não queria mais se referir a sua classe social. Era odioso como classe social colocava um muro em torno de si e de seus colegas de abismo. Como TUDO virava classe social. Ela perdia o nome quando pensava em classe social, perdia a pose, a posse de qualquer experiência metafísica, de qualquer transcendência. Virava refém, sem referência. Como se toda sua vivência não fosse contabilizada, devido a lente que lhe enxergava: POBRE.

Dona Ajuda não lhe ajudava mais, estava desintegrada dentro da terra fazia tempo. Era só na memória que vivia de novo uma infância sem limites, mesmo na casa de pau a pique, com o zunido dos mosquitos, com o canto das cigarras, com o cheiro da mata que agora já não existia, com o mundaréu de crianças correndo, cor de café com leite, com as secas e enchentes. Não, nem pensar em voltar, não tinha pra onde, já tinha virado fazenda de outro a terrinha da Dona Ajuda. Ela tinha que manter o otimismo, de quem além de tudo, precisa fazer o mundo florescer, ajudar as pessoas a sorrir, e saber que era exceção, não classe social. 

Sobre ser exceção, sabia que era devido ao seu nariz. Desde pequena seu nariz foi o centro das atenções. Que nariz bonito – nariz arrebitado, e a avó dizia: e fareja muito bem! E farejava mesmo, era assim que tinha subido de posto, que conseguia frequentar as rodas dos que têm a geladeira cheia, onde nunca ninguém fica desnutrido. Era assim que tinha conseguido ser amante dos homens e mulheres mais interessantes que conhecia. Eles não resistiam ao seu nariz, nariz de sorte, nariz de quem nasceu pra lua. E seu nariz continuava exibido ao longo do tempo, motivo de lisonjas. Ser exceção não lhe deixava culpada, lhe deixava com o cu na mão. Percebia que tinha um apreço desmedido pelo seu próprio nariz, que parava em cada espelho para vê-lo, e vê-lo de novo. Cada ano que passava percebia que seu nariz tinha uma pequena queda para os lados, temia que por fim se tornasse uma bola de gude. Essa paranoia lhe amedrontava, já que a achava simplória, sem sentido. Mas não podia evitar. Seu nariz foi tão reiterado, que se tornou uma divindade. Se pegava rezando para o seu nariz:

 

Nariz amado

nunca me desampare

dependerei de você a vida toda,

me ajude a enfrentar toda essa bagunça

não pare de me guiar.

 

Oh faro divino

me mantenha atenta aos teus sinais,

prometo te obedecer e respeitar

me perdoe os desperdícios

prometo que não vou mais cheirar pó.

 

Cada dia uma oração, mas sabia ser nociva sua idiossincrasia. Tinha outros atributos, a inteligência, a criatividade, a indulgência, a humanidade. Mas seu nariz parecia ser o grande patrono. Inclusive desconfiava que quando caía, era pelo fedor. Queda livre.

Um faro rico numa condição difícil de habitar o mundo. Um faro farto, com bom gosto e dado a excessos. Se não fosse intransigente, já teria os presentes que queria da vida. Mas era especialista em perder cavalos encilhados que passavam no seu rincão. Desperdiçava oportunidades como quem não tinha nada a perder. E não tinha, a não ser seu mais alto talento – o faro.

Pesava-lhe ter perdido a etnia, ter virado índia urbana, não tinha lastro, nem família, nem casa, nem lugar para voltar. Não tinha feito as perguntas certas para Dona Ajuda. Quem sou eu? Qual nossa etnia? A Avó não lhe ensinou a língua que sabia, nem disse de onde sabia tanto. Aquelas músicas bonitas, aquelas rezas – solilóquios. A mãe demente, entregue à cirrose, mesmo que soubesse algo de antes já teria esquecido, como esqueceu o que veio depois. Restava-lhe sempre ir, ir adiante, no rastro de uma vida brilhante. Ela e seu nariz de faro aguçado. O mundo fica pequeno de vez em quando. Se fosse mais superficial talvez se contentasse em ir à praia aos domingos, receber elogios por um trabalho bem feito, sustentar um apartamento na periferia e se contentar com a vida. Mas sua inadaptação era maior que tudo, e disso sentia orgulho. Não caibo e pronto!! Mas não queria passar desapercebida.

Aroeira, Ipê-amarelo, pitanga, chimbuva, urucum, sapuva, dedaleiro, gabiroba, guapuruvu, goiabeira, cambucá, araçá, maçaranduba, pau-viola, pau-ferro, pau-pólvora!!!! Era isso que contava! Quantas árvores ainda plantaria? Sua plantação diária, era o único sentido para toda aquela zonzeira. Essas sementes amigas, que viviam enroladas em sua mala, uma única mala de rodinhas. Eram elas que lhe faziam acordar a todo pique! Ela contra toda a indústria, contra todo consumo, contra toda hierarquia, contra toda mais valia, contra toda classe social, contra todas corporações, ela beija-flor com sua língua bifurcada, polinizando a cidade grande com sálvia e cipó-de-são-joão. Sua única herança, a melhor de todas.

Não era difícil encontrá-la fazendo amor com as árvores. Subia a Floresta da Tijuca, se embrenhava por alguma trilha, tirava a roupa devagar, balançava seus seios nos troncos lenhosos das jabuticabeiras, dos jambeiros, das jaqueiras, ela e os macacos pregos, e ali esfregava seu grelo até descascar a árvore, até imprimir seu cheiro nela, até virar jaca. Trepadeira. Gostava de abraçar as raízes das árvores, fazê-las de travesseiro, esse era o verdadeiro sono – o verde, sua cor. Não haveria de perder sua guerrilha solitária, determinada, de fecundar os solos, de fazer enxertos.

Nos dias de cidade ardida, de repente gritava na rua sozinha. Talvez até pudesse ser louca pra uns tantos, o que não importava, só o grito dizia da ligação que tinha com aquelas terras, bem antes do descobrimento. Quando via a cidade de cima, tão bonita, conseguia sentir o cheiro do passado, o som da batida dos pés dos antepassados, um cheiro que inundava suas narinas. Concentrava no cheiro, era esse seu recreio sua mais fina liturgia. O cheiro trazia som de fogo, enzima no fogo, chá de folhas da pintobeira. Os pés grudavam bem no chão a ponto de afundar. Ela raiz, mais velha do que todo esse carnaval. Sentia uma enorme gratidão dentro do peito, a ponto de vazar pelos poros, pelas narinas, pelos olhos, pelos ouvidos, pela buceta. Vazava, como se fosse cachoeira.

Essa esquizocenia já era alvo de algum escárnio. Eles diziam, a louca. Era louca, a indesejada. Era tão louca que não precisava de nenhum aparato para ouvir os rios enterrados. Índia urbana, sem cocar e sem chocalho. Sem nome. Era só índia sem etnia, neta da velha Ajuda, que não tinha pai nem mãe. Mas quando sentia o cheiro de esgoto dos rios enterrados, que passavam por baixo da cidade, por baixo das suas narinas, voltava ao abismo, em um segundo.

Era transladada a Ajudinha. Vivia em vertigem com tantos altos e baixos. Alguém tinha falado para ir a um psiquiatra, que seu quadro era transtorno bipolar. Ela pensou, mas preferia viver o zigzag, para ver mais coisas, ter mais perspectiva. Dos abismos extraía o sumo da sua condição. Ouvido rente ao chão. As pisadas dos infectados, dos que têm a vida contada em dias, dos corações partidos, dos que têm sangue contaminado, das enforcadas, das ultrajadas, dos injustiçados, roubados, violentadas, sequestradas de sua alegria, das que têm suas terras roubadas, dos desaparecidos políticos, dos inferiorizados, dos assalariados miseráveis, com cara amarela de fome que tem que servir madame. Dos alcoolizados. Dessas misérias, cada uma maior que todas. Isso tudo tinha nuance. Só a a classe social não tinha nuance. Era um óculos embutido na percepção das gentes. Ela, beija-flor, sentia a imundície do abismo que agora era esgoto, que agora era rio trancado de baixo do asfalto, que agora era negro morto no tráfico, que agora era índio morto no Mato Grosso, que agora era mulher escravizada na Baixada, que agora era árvore decapitada para virar cama farta de gente rica.

Madeira rara. Seu paradoxo. E de novo em um segundo sentiu o cheiro do homem da cama farta de madeira que não passa fome, o cheiro da testosterona daquela pele amarela de sol, homem bem educado, incapaz de grosseria. Nunca o tinha visto virar gelo, mas sabia que toda educação é geleira. Mesmo assim tinha cheiro, cheiro de madeira rara, em um segundo o cheiro do homem lhe levava para seu apartamento de seis quartos. Rica por um dia, ou mais dias, dominar seu faro, fazer um contrato. Óleo de coco no corpo, pegava o celular, umas mudas de planta e caminhava em direção ao asfalto. Ela não era fiel a nada.

TEXTO-FIM

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Fabiane M. Borges

Fabiane M. Borges é psicóloga ensaísta e artista, desenvolve pesquisa sobre arte urbana, performance, movimentos sociais, esquizoanálise, saúde mental. Dedicou sua tese de doutorado a assuntos relativos à cultura espacial, satélites, foguetes, comunicação e programas de apropriação orbital (open source) a partir do ponto de vista de pequenas e médias empresas e hacklabs (faça você mesmo e cultura maker). Faz atendimento terapêutico e tem uma empresa de consultoria com Adriana Veloso (Cosmos Consultoria). Publicou os livros: Domínios do Demasiado (Ed. Hucitec. SP. 2010), Breviário de Pornografia Esquizotrans (Ed. Ex.Libris), Ideias Perigozas (Ed. Des. centro. 2010), Peixe Morto (Org. Ed. Imotirô. 2011). Mantém o site: http://catahistorias.wordpress.com

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