Fantasia de Sarkozy

A menos de um ano das eleições presidenciais na França, sai nos cinemas um polêmico filme sobre a ascensão de Nicolas Sarkozy ao poder. Fica a dúvida: este filme ajuda ou prejudica a reeleição da direita francesa?

Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.

Este é um dos casos em que a ideia do projeto gera mais discussão do que sua execução. “A Conquista” aborda a história do presidente francês Nicolas Sarkozy, mas não sua história pessoal, e sim os fatos bastante recentes, em especial os anos que lhe prepararam à presidência da República. Às vésperas de brigar por um novo mandato (as próximas eleições presidenciais francesas ocorrerão em maio de 2012), com a cota de popularidade mais baixa na história dos presidentes nacionais (por volta de 33%), o que este filme traria à figura controversa de Sarkozy? Seria um filme crítico, paródico, revelando segredos, ou então seria um instrumento de campanha, uma manobra para torná-lo mais simpático aos olhos do público?

Para se compreender a polêmica de tal projeto, deve-se entender que este é certamente o presidente que utiliza com mais destreza sua vida pessoal na mídia. Não apenas ele é amigo próximo dos donos dos maiores jornais da França, ele também é patrão autoproclamado (ele mudou a legislação para tal) da televisão pública, escolhendo (e demitindo) os diretores de cada canal. Ele foi o primeiro a se divorciar durante o mandato, a se casar novamente, a namorar diante das câmeras com uma antiga modelo, Carla Bruni, e agora acaba de anunciar, através de parentes, a gravidez do casal. Sarkozy é um presidente que aniquila a figura diretiva do Primeiro Ministro, assumindo para si tanto as funções de direção interna e externa do país. É difícil achar uma página de jornal que não inclua o seu nome.

Assim, Sarkozy em versão “não autorizada” no cinema poderia parecer mais do mesmo, uma prova da saturação desta figura onipresente. Além disso, o roteiro decide contar sua eleição curiosamente escondendo os adversários, sem mostrar absolutamente nada sobre a candidata de esquerda ou sobre a disputa extra partidária. O primeiro grande problema parece ter sido reduzir a presidência a um conflito interno do maior partido de direita: quem quer que fosse escolhido se tornaria o próximo dirigente nacional.

Chega-se então ao filme, beneficiado por sua programação no festival de Cannes (algo ainda mais ambíguo politicamente, já que o festival que se pretende de esquerda é um dos maiores representantes de uma política conservadora e moralista). Escolhe-se atores famosos e todos bastante semelhantes aos políticos verdadeiros, para interpretar desde o protagonista aos coadjuvantes. Como os ministros e conselheiros são todos figuras bastante conhecidas – diferentemente do Brasil, todos eles estão diariamente nos canais de televisão e nos jornais explicando suas ações – a verossimilhança foi levada a sério, mas sem recurso a próteses ou maquiagem bastante transformadora.

O resultado, então, qual é? Faz-se o filme com intenções histórias, partidárias, ridicularizando o presidente ou tornando-o herói? Ora, por mais estranho que seja, não se faz nem um, nem outro. O formato é todo compacto, sem pretensões, câmera no rosto, como um telefilme. Existem pequenos momentos cômicos, mas estamos longe de uma comédia. A aparição da ex-esposa garante sempre momentos de melodrama repleto de lágrimas, mas isso logo se dissipa. Os fatos ainda bem presentes nas memórias dos franceses estão todos lá, com suas pequenas intrigas políticas, mas tudo funciona com uma frieza e uma representação incômodas. Como disse um crítico: “temos a impressão de ver 1h45 de jornal televisivo”.

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Precisamente, La Conquête informa o que não precisa ser informado, relembra o que não se esqueceu. Enquanto em alguns casos faz-se um filme sobre um dirigente para trazer adicionar algo novo sobre sua trajetória pessoal (Lula, Filho do Brasil), para ridicularizá-lo (Fahrenheit 11/09) ou para revelar segredos de bastidores (A Rainha), esta obra francesa pretende ser tão neutra que acaba não adicionando absolutamente nada nem sobre os fatos, nem sobre o ponto de vista. Não se defende nem ataca, ilustra-se apenas.

Fica o prazer de uma festa à fantasia, como o prazer de ver um homem vestido de mulher ou uma criança vestida de adulto. Trata-se da pequena satisfação cômica de ir ao cinema para ver o tal ator conhecido executar os mesmos gestos típicos de Sarkozy, para ver tal outra interpretar a secretária sexy, e outro fazer os gestos do antigo presidente Jacques Chirac. Este é um exercício de imitação, de fazer de conta, um projeto de transposição espaço-temporal que não pretende ser mais do que isso: um baile pseudo-histórico onde as pessoas se vestem como famosos e agem como eles – como num teatrinho de escola.

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PS: Pouco após a redação deste texto, outro artigo polêmico foi publicado na revista Rue 89, segundo a qual, apesar do discurso aparentemente neutro, o filme seria uma grande defesa de Sarkozy. Por quê? Ora, porque “às vésperas de uma eleição, não atacar o presidente é a mesma coisa que defendê-lo”. Um ponto de vista bastante radical e controverso, mas não necessariamente absurdo. A refletir.

 

La Conquête (2011)
Filme francês dirigido por Xavier Durringer.
Com Denis Podalydès, Florence Pernel, Bernard Le Coq, Samuel Labarthe.

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.