Êxodo: a história antiga e a tragédia atual

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Ao adaptar texto bíblico essencial, Ridley Scott oscila entre convenções e ousadia – mas inclui menções à relação contemporânea entre Israel e “os outros”…

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

“Toda história é história contemporânea.” A célebre frase de Benedetto Croce, ao sugerir que sempre olhamos para o passado com os olhos do presente, aplica-se à perfeição às adaptações cinematográficas das narrativas bíblicas. Diante de um filme como Êxodo – Deuses e reis, de Ridley Scott, não faz sentido verificar se ele é “fiel” ao texto original. Mais interessante é discutir como ele se relaciona com duas outras realidades: a tradição hollywoodiana e a história de nosso tempo.

Êxodo é talvez o livro mais importante do chamado Antigo testamento, ao traçar o caráter dos hebreus como um povo unido em torno de um deus único (Adonai, Javé, Jeová ou simplesmente “Aquele que é”), liderado por um profeta (Moisés) e regido por um código moral (as “tábuas da lei” ou “dez mandamentos”). É, em grande medida, o texto fundador da tradição judaico-cristã.

É também um grande épico literário, repleto de prodígios sobrenaturais, paixões humanas, violência, pragas, calamidades. Mas a escrita bíblica, elíptica, poética, ao mesmo tempo repetitiva e lacunar, deixa muita coisa na sombra, o que dá margem aos mais diferentes acréscimos e interpretações. É quase como um esboço que induz o leitor a “preencher os espaços pontilhados”.

Pois bem. Voltemos ao Êxodo de Ridley Scott. Encontramos ali (com ou sem o 3-D) não apenas a grandiosidade espetacular das superproduções de Cecil B. DeMille como também certas convenções românticas e dramáticas hollywoodianas, devidamente adaptadas a nossa época. Diga-se entre parênteses: se a abertura do Mar Vermelho é menos sensacional que a de filmes anteriores, o seu “fechamento” aqui é um tsunami de tirar o fôlego, com pelo menos um plano antológico: o de um minúsculo cavalo correndo à frente de uma muralha gigantesca de água.

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Romantismo moderno, herói marcial

A visão de um Moisés (Christian Bale) criado como príncipe na corte do faraó, numa relação de amor e rivalidade com o legítimo príncipe Ramsés (Joel Edgerton), herdeiro do trono, é algo que tem mais a ver com Hollywood (e com a literatura romântica que a alimentou na era clássica) do que com o texto bíblico. O antecessor mais célebre do filme de Ridley Scott, Os dez mandamentos(1956), de Cecil B. DeMille, introduzia até uma disputa entre os dois quase irmãos pelo amor da bela Nefretiri. Para a sensibilidade do espectador contemporâneo, isso talvez fosse excessivamente meloso, e foi deixado de lado na atual versão. Esta, no entanto, não deixa de caracterizar o casal Moisés/Zípora (Maria Valverde) com um romantismo mais condizente com a cultura burguesa moderna do que com as relações homem-mulher no século 13 a.C.

Por outro lado, o “novo” Moisés paga tributo a uma certa infantilização bélica dos filmes de ação, ao transformar-se numa espécie de super-herói de força descomunal e extremas habilidades marciais. A autoridade moral já não basta a nossas plateias formadas pelos videogames, heróis mutantes e ruidosos efeitos especiais.

Mantém-se, claro, a tradição do herói vigoroso e bonito, ainda que no texto do Êxodo Moisés já tivesse 80 anos ao liderar a fuga de seu povo do Egito. Alguém consegue imaginar um ancião como protagonista de um épico de hoje em dia?

Uma novidade digna de nota no Êxodo de Scott é a representação de Deus como um menino (Isaac Andrews) e não como um velho barbudo, como o repertório figurativo do Ocidente nos habituou a imaginar. O Deus do filme é uma criança geniosa e cruel, o que não deixa de ser curioso.

Drama contemporâneo

Mas talvez ainda mais interessante seja examinar o novo Êxodo em face da história contemporânea de Israel e da crise do Oriente Médio. É um terreno explosivo, e todo cuidado é pouco ao caminhar por ele.

Tendo isso em mente, chama a atenção uma liberdade tomada por Ridley Scott. Em sua narrativa, antes da intervenção divina mediante as famosas “pragas do Egito”, o próprio Moisés, como estrategista militar, resolve agredir o inimigo, minando suas forças. Um camarada ainda pergunta: “Vamos interromper a produção de armas deles?” E Moisés, firme: “Não. Vamos cortar seu suprimento de víveres”. Desse modo, queimando a produção agrícola, espantando os animais, incendiando navios, o Moisés do filme realiza a primeira ofensiva em massa contra uma população civil em nome da defesa do povo de Israel. Isso não está, evidentemente, no texto bíblico, e seria interessante perguntar a Scott por que está no filme.

Outro eco da história atual pode ser detectado no diálogo entre Moisés e seu irmão Josué (Aaron  Paul), em que este pergunta o que vai acontecer quando chegarem à Terra Prometida. Moisés responde mais ou menos o seguinte: “Já haverá outro povo vivendo lá. E chegaremos não como mais uma tribo, mas como toda uma nação”. A incômoda pergunta não formulada, mas que fica no ar, é a seguinte: Não foi isso o que aconteceu quando, no rastro da Segunda Guerra e do Holocausto, criou-se na Palestina o Estado de Israel para abrigar os judeus perseguidos na Europa?

 

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.