Esse obscuro militantismo do cinema

 

“A Alegria” exprime o desejo de um cinema brasileiro libertário e “político” – mas curiosamente desprovido de contexto social.

 

Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.

TEXTO-MEIO

 

Complicado, este filme aqui. Inicialmente, ele vem coroado de participações em festivais de primeira linha (Cannes, Roterdã), e vem com o selo de “novíssimo cinema brasileiro”, mais um desses rótulos meio vagos atribuídos a um grupo jovem de talento, que estaria supostamente transformando o cinema brasileiro. O nome dos diretores Felipe Bragança e Marina Meliande está associado a outros nomes nacionais de peso como Karim Aïnouz e Eduardo Valente, além de estarem relacionados à crítica de cinema, à nova geração saída das faculdades de cinema e mesmo a um manifesto polêmico e voluntariamente catastrofista, escrito por Bragança.

 

            Com todo este currículo, fica difícil que A Alegria não seja levado a sério por críticos e acadêmicos nacionais. O respeito solene ao filme é também por extensão um respeito ao círculo social e acadêmico no qual a obra e os diretores estão incluídos. A maioria da crítica, talvez perplexa pela narrativa vaga, limitou-se a repetir frases prontas, provavelmente extraídas do material de imprensa, já que apareceram idênticas nos artigos de diversos críticos – como o tal anel que permite à garota se teletransportar, “pelo menos na cabeça dela”, coisa não tão clara assim nas imagens. Repetiram mesmo, vejam só, as supostas referências ao tailandês Apichatpong Weerasethakul (a floresta, os planos sequência, o que mais?) e a intenção assumida dos diretores de refletir sobre as ideias do filósofo Spinoza.

 

            Mas aí chega o filme em si, separado dos amigos e produtores, dos festivais e intenções artísticas. Chega esta obra estranha, voluntariamente hermética, fragmentada. Ela vem marcada de uma intenção virtuosa, de um certo deboche tanto pelo cinema industrial quanto pelo cinema narrativo, articulando uma sensação de urgência tipicamente jovem com uma intenção de genialidade e de autoria tipicamente adultas. O resultado desta mistura se encontra nos personagens sangrando na sarjeta e dizendo frases de efeito, nas atuações perfeitamente robóticas – com atores que não movem um músculo sequer além dos indispensáveis à pronúncia de cada palavra, na iluminação descuidada, “feia”.

 

            A sinopse sugeria alguma posição política (os jovens que decidem “fazer alguma coisa” contra a inércia da “geração MSN”), mas o fato é que não os vemos fazendo quase nada. Temos uma política sem contexto, com adolescentes que se ferem por um prazer individualista (“Levar tiro dói?”, pergunta a garota curiosa), com a polícia fantasma que atira em qualquer um, sem motivo. Diante de uma forma e um conteúdo que se pretendem anti-burgueses, revolucionários, tem-se uma letargia e apatia de meninos e meninas que não sabem exatamente porque lutam. O discurso do filme, acompanhando-os, fica mais próximo da dita “filosofia popular”, apolítica e associal, segundo a qual toda forma de autoridade e de política é corrupta, nociva. Ou seja, uma proto-anarquia bem pessimista, que repete Spinoza enquanto limita-se a mostrar seus jovens perambulando numa praia, nus, imitando gatos.

 

            Talvez não seja muito correto atacar o sentido vago e fragmentário de A Alegria, porque ele corresponde a uma forma voluntariamente adotada. Como não se ataca comédias por sua comicidade, não se ataca filmes pretensiosos por sua pretensão, e sim pela qualidade estimada de sua execução. Esta obra é de natureza retórica, sua própria existência é sua mensagem. “Para que serve o monstro marinho do final?”, perguntava indignado um crítico brasileiro, mas a mesma pergunta poderia ser aplicada às atuações, às máscaras, ao papel da polícia, da sexualidade, a praticamente todas as cenas.

 

            As imagens de A Alegria não parecem “servir” a uma narrativa, elas poderiam ser trocadas por outras, e ainda assim colaborar a esta intenção maior que ultrapassa muito os limites da película; esta vontade de refletir sobre a filosofia, sobre a juventude, sobre a violência, sobre a essência humana ou sabe lá o que mais. Este é um tipo de cinema jovem que tem muito a dizer, sem necessariamente refletir sobre como dizer, nem a quem dizer. A Alegria é o tipo de filme que apresenta uma aparência clara de inteligência, com referências cultas, sem articular um discurso sobre suas escolhas estéticas ou temáticas. Ele é devidamente inacessível, e perfeitamente vago para que se insira em suas imagens praticamente todas as qualidades, defeitos e virtudes que se desejar.

 

A Alegria (2010) 
Filme brasileiro dirigido por Felipe Bragança e Marina Meliande.
Com Clara Barbieri, Flora Dias, Bernardo Barcelos, Junior Moura.
TEXTO-FIM

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Bruno Carmelo

Mestre em teoria do cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, e autor de duas dissertações sobre a crítica de cinema. Trabalha como editor e crítico de cinema no site AdoroCinema.