Espanha: que fazer com a popularidade?

Pesquisas revelam: 73% dos espanhóis crêem que os indignados têm razão. Mas movimento parece esperar algo, para recobrar força anterior

Por Pep Valenzuela, de Barcelona

Os resultados de outubro do “Barômetro de Clima Social”, sondagem realizada por prestigioso instituto de pesquisa espanhol, são claros sobre a popularidade dos indignados, ou 15-M. 73% dos espanhóis consideram que o movimento, “basicamente, tem razão”. Entre os que se declaram votantes do Partido “Socialista” (PSOE, no governo) a cifra chega a 79%. E mesmo entre os votantes do direitista PP, 55% opinam do mesmo modo.

Além disso, 63% dos espanhóis consideram que o movimento deveria continuar pelo caminho iniciado. E 20% dos entrevistados afirmam ter participado em alguma das passeatas e concentrações convocadas pelos indignados Porém, 73% afirmam que o 15-M não influirá em sua opção de voto para as próximas eleições gerais, em 20 de novembro…

Os resultados da pesquisa oferecem uma imagem muito expressiva das potencialidades, limites e contradições do nascente movimento da indignação no Estado espanhol. Efetivamente, fora os grandes momentos de mobilização, como o 15 de outubro, a atividade de assembleias e dos grupos de trabalho recua a um nível que poderíamos chamar de “discreto”. Participam entre 50 e 70 pessoas, em cidades de até 200 mil habitantes. E havia entre 250 e 300 pessoas, na assembleia de domingo (23/10), em Barcelona.

A reunião deveria se realizar, como costume, na praça de Catalunha, centro nevrálgico da cidade. A chuvinha que começou a cair empurrou ao pessoal para a estação subterrânea de metrô e trens, bem sob a praça, muito parecida com a Sé, em São Paulo. As pessoas acomodaram-se no chão. Três bicicletas acionadas em turnos proporcionaram a energia para o som. E logo mais, a informação das comissões e grupos de trabalho: habitação, saúde, educação, gênero e outras.

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A luta está focada agora na reivindicação do direito à moradia e à manutenção dos serviços de saúde e educação, hoje sob ameaça de cortes orçamentários graves. A ação direta continua. Além de terem ocupado um prédio, semana passada, os indignados têm atuado como escudos humanos. Em ações diárias pelos bairros da cidade, tentam evitar o despejo das famílias inadimplentes com o aluguel.

As universidades e hospitais preparam jornadas de greve para a próxima semana. Está começando a se produzir um encontro entre os setores sindicais clássicos e a geração mais jovem que participa no 15-M. Além disso, há esforço para buscar articulação entre os grupos. Representantes de assembleias em cidades vizinhas informam a preparação de um grande encontro catalão, para busca de posições comuns sobre várias temáticas. Trata-se da repressão, e das formas de resistir a ela (“nem um passo atrás”!)

Com o anúncio de dezenas de ações nos bairros de Barcelona, a assembleia vai se desfazendo e as bicicletas da energia vão descansando. Próxima data, 19 de novembro, véspera das eleições. Casualidade? Aparentemente não. Não há consenso sobre o que fazer, mas sim sobre a necessidade de se fazer alguma coisa.

Neste ponto, voltamos para os limites e contradições. Em Barcelona e outras cidades da Catalunha, a participação mais militante é a do pessoal organizado em grupos, sindicatos ou pequenos partidos – o que se costumou chamar de “esquerda radical”, ou “minoritária”. Mas a maioria é constituída de pessoas que se aproximaram individualmente. A diversidade ideológica e política é grande, mas nota-se uma presença forte de “autônomos” ou libertários, assim como de grupos sindicalistas. A proporção, claro, muda de cidade para cidade. Em Madri, grupos como Democracia Real Ya (DRY) e Juventude Sem Futuro (JSF), que já vinham trabalhando juntos há tempo, seriam em boa medida responsáveis pela continuidade do trabalho, infraestrutura, propostas políticas.

A esquerda “institucional” olha, mas de longe. Há muito tempo, sair às ruas, gritar pelas praças, ocupar espaços públicos – tudo isso está longe de sua perspectiva política. A Esquerda Unida (IU) tem uma presença um pouco maior desde o início. Agora, tenta abrir espaço ou cooptar pessoal do movimento para suas candidaturas eleitorais.

Sobre as eleições, os indignados deixaram de lado qualquer tentativa de chegar em algum ponto de consenso. Ecoam  sempre fortes as palavras de ordem: “não nos representam”, “não somos mercadorias em mãos de políticos nem banqueiros” – que têm, por enquanto, sentido de rejeição geral aos partidos. A opinião dos diversos grupos é que é melhor não se deixar pautar pela agenda eleitoral: “a mudança que a gente quer não é de maioria parlamentar, mas da sociedade”.

Considera-se prioritário buscar “unidade contra os cortes de direitos, conexão com o conjunto dos setores sociais”, aponta Jaime Pastor, doutor em Ciência Política. É claro, contudo, que as eleições continuarão a ser referência: quando se aproximarem, crescerão manifestações, ações e protestos com distintos objetivos, articulados por gente ligada às várias sensibilidades do movimento.

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Pep Valenzuela